Estava sem sono e decidi escrever
Estava a ver O Fabuloso Destino de Amèlie pela primeira vez e adormeci ao fim de 26 minutos. Não porque não estava a gostar do filme, mas porque ando com os sonos trocados desde que me trocaste as voltas. Ou melhor. Tu não. A vida. A vida tem um tempo perfeito, muitas vezes mais lento que o nosso próprio tempo. Mas é perfeito. E, a seu tempo, ela prova-nos que acerta milimetricamente em tudo.
Os sonos trocados devem-se a um coração inquieto e a um agosto atípico em sol e banhos no mar, mas típico em ócio. Talvez seja o último agosto da minha vida assim: molengo, quente, indisciplinado e em casa. Tudo está prestes a mudar. Está quase a fazer 1 ano que fui sozinha para a Indonésia; e este ano, estou a 1 semana de regressar ao Porto, cidade do meu coração. A Capicua, a artista portuguesa mais underrated da minha geração, tem uma canção que se chama Circunvalação. No refrão ela diz que o coração dela está entre o Douro e a Circunvalação, os limites marítimos e terrestres dentro dos quais cabe a cidade do Porto. Para lá do Douro, Gaia. Para lá da Circunvalação, a Maia e Matosinhos. No meio, o Porto.
Percebi, em maio deste ano, quando regressava a casa vinda de mais de uma semana em Lisboa e no Alentejo, que este refrão também podia ter sido escrito por mim. A diferença é que o Douro da Capicua é aquele que tem seis pontes sobre si e desagua na foz. O meu Douro é o que atravessa os montes quentes de Miguel Torga, que leva consigo as folhas e as vides no inverno e que se rodeia de sucalcos desenhados pelo suor, pela força e pela raça de quem é do norte. O meu coração também está entre o Douro e a Circunvalação, e sempre foi poético observar o rio nas margens da cidade por saber que aquelas águas passaram pela minha casa antes dali chegarem. É que o meu Douro também desagua na foz, mas traz com ele muitas mais histórias do que aquele que vive entre a Ponte do Freixo e a Ponte da Arrábida.
Vou deixar a minha casa, outra vez, como quando tinha 18 anos. Passei os últimos 3 verões aqui e, apesar da minha geração estar infelizmente a sofrer da síndrome da vida adulta adiada, não considero que este tempo passado em casa dos meus pais me adiou a adultez. Hoje, quando escrevi no meu diário, apercebi-me que tinha chegado à marca dos 300 dias documentados. E estes dias todos simbolizam uma pandemia, o início de uma guerra na Europa, um livro escrito, muitos outros projetos pessoais realizados, um nascimento, dois amores não correspondidos, uma viagem a solo, vários concertos, várias pessoas, tantas e tantas memórias. Viver a vida, com mais ou menos estabilidade, com mais ou menos dinheiro, com mais ou menos dias bons, não é adiar a vida adulta. Adiar a vida adulta é não fazer nada da vida. E eu fiz. Fiz-me à vida, apesar da vida ter tido outros planos para mim. E talvez o meu erro tenha sido querer tanto da vida, sem ser capaz de ouvir com mais atenção o que a vida queria de mim.
Acho que já tinha referido esta ideia no início do texto. Mas também no início do texto estava a contar que tinha adormecido a ver o filme da Amèlie, mas esqueci-me de dizer que, por volta da meia noite, acordei com fome e sem sono. Pus massa a cozer, juntei-lhe um molho de abacate que tinha descongelado ontem à noite, tomate cherry e queijo ralado, e comi na companhia de Friends. O filme fica para outro dia.
Entretanto voltei-me a deitar e percebi que a velocidade dos meus dedos a bater nas teclas do computador estava superior à dos meus pensamentos. Isto porque, à uma da manhã, mandei mais de 20 mensagens a duas amigas minhas, duas amigas que posso chatear a qualquer hora só porque sim. Acabei dizendo, às duas em separado, que ia escrever um texto. E, por isso, aqui estou eu. A escrever sobre um filme que ficou por ver, sobre um agosto que nunca mais passa, sobre um setembro que vai trazer novidade, sobre o meu amor por casa e pelo Porto, sobre amizade, sobre a vida adulta, sobre a vida. Sobretudo sobre a vida.