Um ano de terapia

O dia 3 de maio é para mim, há 10 anos, o dia de aniversário da minha amiga Marina. Mas desde o ano passado que esta data se tornou ainda mais especial. Hoje faz 1 ano que comecei a fazer terapia.

Às vezes dou por mim a criticar-me por expor o meu processo terapêutico, principalmente no meu podcast, onde falo sobre a minha vida e onde tenho vários momentos de catarse pela entrega que dou ao vaguear do meu pensamento. É provavelmente o único espaço no qual falo antes de pensar, pelo que é o que está a borbulhar na minha cabeça que comanda o raciocínio, e não a racionalidade em si. Mas depois lembro-me que não sei estar na vida sem a analisar, apreciar e partilhar. Esta forma de estar resulta comigo, porque me liberta e me dá prazer. Registar a vida através das palavras comove-me, renova-me e enraiza-me. Sinto-o desde 2019, quando encontrei na escrita o meu lugar preferido para estar. Senti-o em 2021, quando escrevi o meu livro e nele eternizei pedaços inteiros e nus de mim. E embora a escrita tenha passado para segundo plano nesta minha necessidade de mostrar o abstrato que sou, será eternamente o meu primeiro amor pelo fôlego que me rouba sempre que me cruzo com ela.

Sendo assim, escrevo este texto tal como escrevi (quase) todos os outros: à noite, no meu quarto, com a luz de uma vela, ao som de um piano e com o sabor amargo do vinho na minha boca. E escrevo-o porque é difícil resumir em frases pequenas aquilo que a terapia me fez no último ano. Em maio de 2023 estava vazia. Um corpo presente que se escondia nas paredes do quarto, que fingia certeza fora dele e que engolia o choro a seco sempre que imaginava o futuro. Olhava para a frente e via uma mão cheia de nada: nada de esperança, nada de alegria, nada de fé.


Estou no Porto. Vim ontem às 7h porque tive finalmente consulta com a Sílvia, que me fez ver várias coisas. Uma delas foi que esta fase é só a vida a repor o equilíbrio. Sempre fui invencível, independente, especial. Tudo sempre foi fazível para mim. E não estar agora a conseguir fazer nada é a vida a ensinar-me a ser resiliente neste momento de merda. Está na hora de acolher isto, admitir que é o momento de depender dos meus pais e de deixar que me cuidem. Sair de casa nesta frequência é rejeitar o meu ninho, o lugar do mundo onde mais tenho de me sentir bem. E vou fazer isso não confiando na Inês do futuro, mas confiando na vida. A forma como a consulta me estruturou o pensamento deu-me uma certa paz. Chorei muito, mas acredito que é o início do fim desta fase. Assim sendo: vida, o que é que queres de mim? 

04.05.2023, no meu diário

 

Esta pergunta acompanha-me desde este dia e funciona como uma técnica de desresponsabilização das decisões difíceis que tenho vindo a tomar. Quer resultem ou não, deixei de carregar a culpa das consequências, entregando-a de mão beijada às mãos da vida. Comecei aqui a construir o meu conceito de fé e, pouco tempo depois, tinha na mão a chave de um quarto que viria a ser meu em setembro, mas que eu ainda não sabia nem como nem quando o conseguiria pagar.

Vir para o Porto em setembro do ano passado foi o quinquagésimo recomeço da minha curta vida e o concretizar de uma vontade antiga que apenas precisava de uma orientação para expandir um cérebro que mingou e para desmistificar o medo de não conseguir. O que acontece quando passamos muito tempo dentro da nossa cabeça é que começamos a contar e a acreditar em histórias que só servem para nos destruir. E quando isto acontece num ambiente que nos adoeceu, é humanamente impossível encontra uma fuga, uma cura. O meu regresso ao Porto foi o compromisso que defini comigo de me recuperar enquanto pessoa livre de escolhas, palavra e opinião, que é tanto da natureza por viver à flor da pele, como é da urbanidade pela necessidade do anonimato, do movimento e da oportunidade. Escrevi na altura que o meu coração está entre o Douro e a circunvalação, tal e qual como diz a Capicua. A diferença é que o Douro dela tem sob si 6 pontes e duas cidades nas suas margens; e o meu Douro tem sotaque e sabor a vinho, suor, calor e agricultura. E apesar de ambos desaguarem no mar, o meu Douro carrega muitas mais histórias com ele, pelos olhos, árvores, casas e flores que cruza antes de chegar à foz.

Passado 1 ano desde a primeira vez que esperei naquela sala de espera, sinto-me a querer mais estabilidade e a desenvolver uma maior capacidade de me ver a longo prazo, sem que isso implique uma obcessão por controlar a vida por ter aprendido que é ela que me controla a mim. Encontro-me mais solta, mais confiante, mais feminina e mais comprometida com os outros e não só com as minhas vontades. Vejo-me a afunilar as minhas tentativas-erro profissionais e a alcançar aquilo de que sempre fugi e, talvez por isso, nunca tenha sido feliz. Continuo a sentir-me a criança que precisa de orientação, de amor e de expectativas externas para se cumprir, mas que ganhou capacidade de filtar quais as que valem a pena ouvir e quais as que são para descartar. Defino-me como uma pessoa sensível, empática, criativa e livre, bastante permeável ao ambiente que me rodeia e com um pensamento abstrato sobre desenvolvido que me atraiçoa na maioria do tempo. Tenho aprendido a lidar em público com os dias de merda, uma vez que os mantinha até então quase sempre em privado. E o "foda-se" continua a ser a minha palavra preferida, mas que recentemente ganhou um significado especial por passar a ser também um manifesto contra aqueles a quem só sirvo nos dias bons.

Bebi agora o último gole de vinho do segundo copo que enchi, misturado com algumas lágrimas gordas que me molharam a cara e o pescoço enquanto escrevia. Refletir sobre este ano foi catártico e deu-me vontade de celebrar e de continuar a cuidar de mim, do corpo e da mente, este binário inseparável nesta valsa que é a vida.

Li ontem uma frase que dizia que a primavera serve para nos relembrar que tudo começa de novo. Talvez a terapia tenha sido a primavera da minha vida, por me ter renovado há 1 ano e me ter feito de novo flor, fruto das sementes e das raízes de um passado que hoje acolho e que me fez o cravo vermelho que hoje sou.


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