Como e de onde nos chega o amor
Sinto saudades de estar apaixonada. Há dias, disseram-me que bastava eu querer. Discordei. Querer é uma desvantagem, porque cria dependência. Para nos apaixonarmos, acho que não basta nada, porque nada depende de nós. Não conheço ninguém que tenha dito “a partir de hoje, vou-me apaixonar” e apaixonou-se. Dizem que a paixão surge quando menos esperamos e eu continuo à espera. Já fui caindo nestas tentativas de atrair o amor, abrindo-me a experiências, velhas e novas. Mas sempre que penso, por exemplo, no meu primeiro amor, não consigo explicá-lo a ninguém. É algo que se sente muito e individualmente, que não é traduzível por palavras, apenas por olhares e sensações. Estes, que ninguém consegue sentir, além de nós. Não se atrai, do nada, um sentimento assim. Acredito sim, em predisposição para amar e ser amada. Mas é difícil, por vezes, a distinção entre a abertura para amar por se estar pronta e a abertura para amar por se estar só. Querer um amor por necessidade e por oposição à solidão, é dar um tiro no coração. Já percorri esses trilhos e não foi bom. Leva-se normalmente com a resposta de que temos tudo o que precisamos para a outra pessoa nos amar, mas falta o principal, o sentimento. O sentimento que, lá está, não se desenvolve com base no querer, mas com base no ser.
Conforme vamos crescendo, vamos sendo cada vez mais. Este incremento no ser, acaba por levar à criação de padrões, que nos fazem dar ou não uma oportunidade a alguém. Nunca esta oportunidade deve ser dada com o propósito do prazer, mas sempre com o propósito do ser. O prazer é instantâneo e, sem estímulos, esgota-se. Mas só se vai buscar estímulos de prazer físico ao prazer que se obtém por admirar o ser. E isto, de conhecer o ser ao ponto de o admirar, leva tempo, que muitas vezes não estamos dispostas/os a dedicar. Quando alguém deseja conhecer o que somos e quando nós desejamos conhecer o que alguém é, há um desconhecido eterno que se abre para decifrar. A cada coisa nova que se descobre, alimenta-se o prazer físico que, apesar de continuar a ser instantâneo, já não é finito e permanente. Vai-se alterando à medida que aumenta a excitação intelectual pela pessoa que se aninha em concha connosco. Por isso é que é importante o autoconhecimento. Quando este cessa, cessa também a nossa habilidade de dar ao outro, por já não sermos capazes de dar a nós. O autoconhecimento alimenta, assim, o nosso ser, que alimenta a admiração do outro por nós e que alimentam mútua e simultaneamente o prazer físico e intelectual, numa relação perfeita de simbiose.
A dificuldade está em encontrar alguém que se alimente primeiro antes de pensar em alimentar alguém. Ou em encontrar alguém que não dependa do alimento alheio para sobreviver. A verdade é que não viemos ao mundo para sobreviver, viemos ao mundo para florescer. E quer seja sozinhas/os ou acompanhadas/os, as folhas e flores da nossa primavera, têm de aparecer. Dizem-me que sou exigente e que a minha independência assusta. O que me assusta a mim, é perceber que é a dependência, e não a liberdade, que mais atrai. Porquê? Pela necessidade de controlo? Pela inflamação do ego? Li há uns tempos que pessoas que não gostam de gatos, são pessoas que não sabem amar sem possuir. Talvez seja por isso que há mais pessoas a gostar de cães do que de gatos, pela garantia de amor e afeto que um cão dá e que um gato, se não quiser, se não sentir, se não for, não dá.
Num mundo movido a ego, as relações que parecem melhor resultar são as entre um narcisista e um “relacionodependente”. Um, porque quer dominar; outro, porque na crença egóica de ser inferior a qualquer ser, aceita o domínio, mesmo que isso lhe custe o preço da saúde mental. É difícil dar a volta a quem tem o coração esburacado pelo ego e pela dor alheia. O exercício de ter empatia pelo sofrimento do outro e ver justificação nessa dor para a maldade praticada, torna-se improvável quando o alvo somos nós. Gera insegurança e medo que levamos para o resto da vida e que só se ultrapassam com uma força de vontade muito grande em ver luz na treva. E como esta força é vulgarmente pouca, e como a dependência não se combate com questionamento, vulnerabilidade e transparência, embarca-se em relações pelo querer e não pelo ser. O ciclo repete-se e desacredita-se no amor.
Até que surge o amor de uma vida. Que não mede nem compara, que aceita as cicatrizes como se de constelações se tratassem, que olha para os traumas com apreço e orgulho e que é companheiro no sentido literal da palavra. Acho que este amor é parecido ao primeiro amor e talvez, agora, entenda porquê. A primeira vez que nos damos ao amor, não carregamos as experiências passadas que nos limitam em crenças e receios. Damo-nos inteiramente, por isso é que é tenso e intenso este primeiro amor. E, às vezes, rápido. Alguns desses amores, continuam vivos, e nós sem coragem de lá ir esclarecer o que é esta sensação de não conseguir olhar nuns olhos por mais de dois segundos seguidos. Uma conversa basta para mudar tudo e o mundo, mas somos, agora com vivências, atraiçoadas/os pela expectativa furada passada, pelas costas voltadas da última relação ou pela dor que um narcisista causou. Quer sejamos o seu alvo, quer sejamos o narcisista. Porque engane-se quem pensa que Narciso não sofria. Só alguém com uma dor não suportável é capaz de a projetar noutra pessoa, pela incapacidade de a aguentar apenas dentro de si.
E nisto, da saudade de estar apaixonada, do primeiro grande amor que remexe com as estruturas, das relações que não correm bem e da incompatibilidade entre o ser e o prazer, continuo sem saber, apesar de não parecer, de onde e como nos chega o amor. Só sei que não vale a pena esperar e ver a vida a passar, à espera do adubo que vai alimentar as raízes e dar cor à nossa primavera. Esse adubo chama-se amor próprio e é o único capaz de dizer com precisão a quem nos quiser amar, como é que isso se faz. Quem aceitar os termos e condições do teu amor e estiver disposto a conhecer e partilhar também os dele, há esperança numa história bonita. Quem não o fizer, há esperança na mesma: na história que vais viver contigo mesma/o.