Ser professora de natação
Corria janeiro. Mais um dia de esforço e sacrifício no estágio. Entretanto, o António propôs-me um trabalho: "Queres substituir-me nas minhas aulas de terças e quintas-feiras até abril? Três turmas, miúdos dos 4 aos 12 anos".
Não hesitei. Ensino sempre me fascinou e vi ali com vinte anos a minha oportunidade para começar a poder ser professora de natação. "Sim, quero muito.", respondi.
Muitas aulas planeadas, outras tantas dadas. Situações constrangedoras e problemáticas que tive que aprender a resolver no momento. Alunos vinham, alunos iam. Outros foram e nunca mais voltaram. Engraçado... Os que nunca mais voltaram foram precisamente os que me deram mais problemas, não eles, mas os pais deles. Sem dúvida que os miúdos são o reflexo do que têm e casa e claro que se vêem a mãe a falar com a professora deles de dedo indicador impune que vão ser muito mal educados.
O tempo passou. Mais tempo do que o proposto. As aulas tornaram-se minhas até junho, porque "realmente os miúdos já não reagem bem quando não te vêem.". Gratidão, recompensa, gratificação. Vê-los crescer e evoluir dentro de água a cada pernada. Cada "dá cá mais 5" significou a promessa de que íamos voltar a ver-nos na aula seguinte.
20h15 e a campainha toca. A última aula do dia está dada. Resta arrumar o material usado que se encontrava sempre espalhado por todo lado. Um banho quente e rápido para chegar a casa o quanto antes e poder, finalmente, esticar as pernas cinco minutos. A cada viagem de ida, o sentimento era de ócio e sacrifício profundo. A cada primeiro sorriso de um deles, o sentimento passava a ser de felicidade e paixão pela profissão.
Escrevo isto após ter dado as minhas últimas aulas na quinta feira passada. Escrevo isto porque o sinto mais que nunca. Peço aos pais para tirar uma fotografia com eles, que me autorizam orgulhosos e me dão mais motivos para acreditar que quando se gosta do que se faz, conseguimos ser realmente bons. Os últimos abraços, os últimos "mais cinco", os último beijinhos à professora. Umas palavras de apreço e um pedido sincero: "nunca deixem de nadar e sejam muito felizes.". Uma lágrima que quer cair, mas que a razão não deixa. Laços que se criam e que irão ficar para sempre no meu disco rígido, porque "os primeiros nunca se esquecem.".
Até a uma próxima, meus meninos.
