Verão
Lembro-me dos verões quentes, escaldantes. O pai dormia na varanda e eu, como corajosa e fiel seguidora dos seus passos, dormia também. A certa altura, a brisa agradável era demasiado fria para a minha pele morena e desidratada de criança. Envolvia-me, então, nos lençóis frescos de verão que me aqueciam o corpo e aconchegavam até à hora do almoço.
Assim que deglutia a última garfada de arroz, a contagem do tempo era minuciosa. Mais minuto, menos minuto, faria toda a diferença nas horas de digestão. Isto porque aguardava-se, toda a tarde até cair o pôr do sol dourado por trás dos montes e montanhas, uma bela tarde de piscina.
"Mãe, já são 4?", perguntava a cada trinta segundos. E quando a hora finalmente chegava, o salto para dentro de água era tão chafurdante quanto a minha alegria. Entrava e saía, vezes sem conta. Entre piruetas, cambalhotas e concursos do melhor salto para a água, assim se passavam as horas e as mãos, essas, pareciam de um velhote, de tão enrugadas estarem.
Ficava preta. Não morena ou com um bronzeado dourado, mas preta. E odiava (racismo à parte, diga-se)! Esfregava-me com mais força a cada banho rápido que tomava. Já o cheiro a cloro, esse nunca desaparecia. Há noite, a ida ao parque para gastar as ainda existentes energias ou jogar um cartão no loto, era sagrada. Incrível o sentimento de ouvir o senhor dizer que "O bilhete confere, parabéns ao contemplado!", de ir recolher o prémio e de desviar 1 eurito para um gelado que me sabia como se fosse o primeiro do ano.
Esta rotina repetida quantas vezes o número de dias que têm umas férias de verão.
Hoje, senti saudades dela. Desta rotina. Destes pequenos prazeres. Da inocência de uma criança.
