Sobre a saudade

Há pouco tempo contaram-me uma frase que fez os cordelinhos do meu cérebro entrarem em profunda reflexão: "As saudades evitam-se.", dizia a traseira de um camião.

As saudades deixam-nos vulneráveis. Tão vulneráveis que fazem o nosso coração verter lágrimas, que se misturam com o sangue ardente e que inundam o nosso corpo e a nossa alma de desalento e dor. Mas nós, máquinas perfeitas por alguém idealizadas, temos que evitar e contrariar as saudades. Elas levam-nos a tomar más decisões, a dizer palavras do coração para fora, a vacilar em momentos m, em horas h. Guiam-nos para as ruas da amargura, principalmente quando estas fazem parte do lado de lá da sombria, obscura e cliché zona de conforto.

Dizem habitualmente que a palavra saudade faz provar que o passado valeu a pena. Logo, é bom sentir saudade. Já eu, odeio saudade. Ter saudade significa que o presente não é vivido em toda a sua plenitude e, por isso, os dias não conseguem ter o mesmo brilho e fulgor a que se devem incessantemente propor. Os meus pensamentos desconectam-se e todos os caminhos possíveis da sua viagem vão dar àquilo ou àquele que me embebe dela, roubando-me todas as energias positivas de vida, qual sanguessuga em pós Ramadão.

Já provei desta receita em muitas ocasiões. Demasiadas diria. E não gostei. Como lição, aprendi a desprezá-la um pouquinho mais. Continuo a senti-la, não fosse eu um ser humano. Contudo, a minha máquina aperfeiçoou-se com o tempo e a minha função de co-piloto no controlo da minha consciência passou para ela, essa imbecil. Aconteceu quando a minha vontade de continuar sã se decidiu a ouvir mais o anjo do ombro direito e a rejeitar o diabo do esquerdo. Porque a máquina controla-mo-la nós. Basta-nos seguir as preces mais acertadas e aprender a evitar tudo aquilo que muito dissimuladamente nos puxa para o poço do infortúnio e nos torna parasitas do nosso próprio ser.

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