A não-perspicácia
Revi-me na tua história. Também eu estou numa situação parecida à tua. Quando gostas muito de alguém e esse alguém te faz falta, recusas-te a ver o mal. Depois, quando esse alguém deixa de ser vital para ti, percebes que realmente ele não é aquilo que pensas.
E assim se revelam pessoas. Não, elas não mudam do dia para a noite. Simplesmente já são assim, desde sempre. Apenas o nosso amor por elas cegou-nos ao ponto de não conseguirmos tirar-lhe a pinta no dia um.
E eu que sou tão perspicaz...
Mas, parece que esse alguém ainda é vital, ainda é essencial, ainda preenche um canto do teu coração. E por isso, tu não consegues desistir. E perdoas, e percebes, e vais atrás, e levas com a porta no focinho, e gostas, e voltas lá. Porque alguém é assim, porque é o cansaço o responsável por, porque é feitio e não defeito, porque ainda amas.
Um dia, quando perceberes que por fazeres não significa que todos têm o mesmo coração que tu e vão retribuir com a mesma moeda da amizade, da preocupação, do carinho, estas coisas vão deixar de ser motivo de inquietação. Até lá, a porta do desapego irá continuar a bater no teu nariz e a ecoar nos teus pensamentos por um tempo que tende para mais infinito.
Revi-me na tua história, disse-me ela. Ela, a companheira de um bote salva vidas que rema comigo na mesma direção e que começa a revelar-se positivamente em frente à minha não-perspicácia, à velocidade da luz.
