Exmo. Sr. Medo

"Maior é o perigo onde maior é o medo",
diz-nos um provérbio cheio de razão. 
Para muitos, este pensamento não passa de um mero devaneio que um tolo um dia ousou dizer, sem sentido ou significado. Para outros, poucos aliás, este é, sem mais nem menos, a sua forma de ver a vida.
Esta é uma das formas de eu ver a vida.
Aprendi há uns tempos que o sentimento contrário ao amor não é o ódio, mas sim o medo. Pensemos: será o ódio o responsável por não confiarmos num amor ou numa amizade? Será o ódio o que nos impede de dizer a alguém o quanto o amamos ou estamos arrependidos? Será o ódio o que nos prende de lutarmos com unhas e dentes por uma ambição, por um sonho? Ou será o medo?
Medo da mágoa e da rejeição. Medo da não-correspondência ou perda. Medo do não, do fracasso ou do desconhecido. Medo do simples, fraco e duro medo.
Surpreende-me, de forma vincada, a quantidade de pessoas que deixam escapar oportunidades de uma vida por causa do medo. O trocar o certo pelo incerto mexe frequentemente com os neurónios dos únicos seres pensantes à face do planeta. Faz-nos falta, entre uma infinidade de outros aspetos, um lado instintivo e animalesco, que nos leva a tomar decisões na hora, sem pensar nas suas consequências, prós e contras, benefícios e malefícios. Que nos leva a viver momentos inesquecíveis, tanto pelo bem, como pelo mal. Que nos leva a não dar a mínima hipótese ao medo de opinar e argumentar. Cada vez mais acredito que decisões ponderadas não nos levam a lado nenhum. Quanto mais se pensa, mais se adia; quanto mais se adia, mais dúvidas surgem; quantas mais dúvidas surgem, mais o medo nos inferniza e embriaga os pensamentos de más energias; quanto mais medo, mais nos afastamos da nossa zona de desconforto; quanto mais conforto, mais segurança; quanta mais segurança, mais perigo, não fossem eles antagónicos um do outro. 
"Perigo!?", pergunta-me um dono da razão. "Haverá perigo algum em ponderar uma decisão, onde todos os pormenores são examinados e estudados ao extremo, resultando num cálculo preciso que esmiuça a percentagem até às milésimas daquilo que pode dar certo ou errado?". Entretanto, o meu coração, a minha emoção e o meu entusiasmo pela vida cansaram-se e deixaram de te ouvir, seu pensador calculista e infeliz.
Diz-me uma coisa... Se te dissesse agora que te pagava uma viagem às Maldivas, pensavas muito tempo antes de decidires? E se o amor da tua vida te pedisse em casamento, quanto tempo ia demorar a tua resposta? E se o teu filho estivesse com febre e te pedisse para passares a noite no quarto dele, em quanto tempo ias decidir? Perguntas demasiado retóricas, que dispensam de resposta, argumento ou explicação. E sabes porquê, pensador amedrontado? Porque em todas estas situações, a tua decisão ia basear-se nos 99% de possibilidade de correr bem em detrimento do 1% que pode correr mal. Ia basear-se na explosão de felicidade e entusiasmo, que não te fez pensar no lado mau do casamento... Lado mau do casamento? Isso existe? Ia basear-se no amor incondicional que tens pelo teu filho e pela vontade incessante de lhe proporcionar o melhor deste mundo e do outro.
E porque é que não ages assim nos restantes campos e nas restantes situações da tua vida? Sim, eu tenho medo, como ser de carne e osso que sou. Todos os dias eu tenho um medo diferente, e ainda bem. Caso contrário, o meu dia-a-dia seria vivido enjaulado nas grades da segurança, do certo e das garantias, sem margem nenhuma de evolução para a minha pessoa. Mas sabes o que é que eu faço com o meu medo? Atiro-o para canto. Não perco simplesmente tempo em dar-lhe ouvidos, e uso esse tempo, que tu gastas diariamente, para arranjar soluções, permitindo-me estar sempre um passo à frente do medo. Na dúvida, quando a balança do sim e do não se iguala, opto sempre por tentar, para, no mínimo, me salvaguardar que não irei lidar para a eternidade com um "se" insuportável no meu pensamento. Se é fácil? É extremamente difícil e, também eu, muitas vezes, sou derrotada pelo medo, mas esta é a minha estratégia e tem resultado na maioria dos casos.
E agora, já percebes porque é que o bloqueador do amor é o medo? Não? Então chega-te aqui que eu vou sussurrar ao teu ouvido para ninguém nos escutar: porque enquanto tu estás a duvidar de todas estas palavras, a rires-te deste ponto de vista e a achares que sou eu o tolo que escreveu o provérbio acima, eu já segui em frente na procura do próximo obstáculo e na forma de o extrapolar, para que ele jamais ponha em causa a minha felicidade, paixão, o meu prazer e amor pela vida.


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