Palavras soltas
Não. Não é possível. Imaginava tudo menos isso. Dizem-me os demais que não sabem ler sinais.
Peça por peça, formo um puzzle. No verso, preto. Na frente, a cores. O poder da regressão é indiscutível e usá-lo a nosso favor é brilhante. Nem todos conseguem fazê-lo, por ser árduo este afazer. Diz-me o que que quero ouvir, dir-te-ei quem és. Diz-me o que não quero ouvir, dir-te-ei quem sou. E saber quem somos não é trivial. Mais, saber quem somos e porque o somos, é insólito. Ainda assim, precioso.
Encontros com o subconsciente enterrado e vinculado podem custar as costelas de uma vida. Elas, as que envolvem os nossos órgãos vitais, como se de persianas se tratassem. Frinchas, têm elas e, por isso, são incapazes de impedir a passagem de luz de dentro para fora e de fora para dentro. Daí sentir-se o calor de um coração à distância, a brisa saudável de uns pulmões. Da mesma forma, também quando de dor, fraqueza e insanidade é feito um corpo, as mesmas persianas fazem isso transbordar cá para fora, encharcando quatro paredes de emoções fortes, desesperadas, arrebatadas.
E o crânio? Feito do mesmo cálcio, do mesmo fósforo, dos mesmos minerais. Ah, o crânio! Agora fizeste-me rir. Comparar o crânio às costelas é uma idiotice. Não há raio de luz que vença a consistência e rigidez de um crânio. O crânio crava demasiado bem os pensamentos, as ideias, as vivências, as experiências. Crava-as tão bem, tal pássaro fechado numa gaiola. Por mais que olhe à volta e veja os semelhantes a dar às asas e a voar, jamais partilhará da crença de que dia este cenário livre e atraente seja possível. Porque nasceu numa gaiola, cresceu numa gaiola, formou-se numa gaiola. E um dia ela abre-se. E as asas, atrofiadas, bloqueadas, obsoletas, imóveis, alimentam ainda mais a crença de que voar é uma loucura.
Quem fomos equipara-se ao que somos. O que vamos ser é definido pela capacidade de um pássaro perceber o porquê das suas asas não funcionarem e de desconstruir a causa de tão notável bloqueio. E quando confrontado com a verdade, o pássaro, tal como o cérebro, entram em conflito com o emaranhado de emoções e ou aumenta o bloqueio ou a capacidade de se desbloquear.
Tempo. Mais ou menos. Muito ou pouco. Longo ou curto. Destino. Estradas delineadas, coincidências descoincidentes. Dúvida, solidão, lágrimas, felicidade, alívio, amigos, risos, companhia, luta, foco, música, incompreensão, compreensão. O que é que estás para aí a dizer?
Quem o sabe?
Tu? Eu.
Que abençoada sou.
Amanhã fará mais sentido. Hoje fico-me por aqui. Eu, a melodia, os acordes da guitarra, os bigodes brancos que me fitam com ternura, a botija de água quente, as imagens imparáveis da televisão, as dores nas costas, a mente sã, o coração calmo, os olhos verdes de esperança, a visão de uma vida ainda melhor.
