Carne, osso e caos
A verdade irá sempre libertar-te.
Desde há uns meses para cá que esta frase ecoa na minha caixa, vinte e quarto por sete. Há males que vêm por bem e este final de ano está a ser revelador. Não tanto sobre os outros, mas acima de tudo sobre mim.
Descobri o meu carácter. Com vinte e cinco anos, quase a fazer vinte e seis e a palpitar por estar quase nos trinta (absurdo), hierarquizei a minha escala de valores. Achava eu que já o tinha feito desde que me considero dona de mim, mas verdade seja dita: novembro de 2019 foi o mês em que cimentei no meu interior a minha identidade. E ai de quem ouse tentar voltar a roubá-la! Ou melhor... e ai de mim que volte a permitir que alguém ma roube.
Dizem que o amor acontece, que se tropeça nele, tal e qual como se tropeça num paralelo. Não sabemos como, só sabemos que acabamos de quase torcer um pé e isso é razão mais do que suficiente para insultar o chão que, ao contrário de nós, está sempre igual, quieto, parado, conformado, acabado. Ao contrário de nós, quer dizer...
Igual, quieta, parada, conformada, acabada, esta fui eu em 2019. Digo-o, agora, porque tomei um banho de ética e valores e estava de tal forma quente este banho que me desembrulhou o coração, tal pele a abrir todos os seus poros e a deixar evadir toda a sua podridão. Foi tão desembrulhada esta máquina palpitante que desenvencilhou-se dentro de mim a dúvida, a infelicidade, a incompreensão, o conformismo, a inércia, a inquietude. Peguei em mim, num copo de vinho tinto, numa luz de presença e no telemóvel em modo gravador e falei. A vantagem de falar para nós próprios é ouvir-mo-nos simultaneamente e como é tão, mas tão raro este fenómeno de ouvir, que a sensação após dezoito minutos de desabafo foi unicamente de paz. Sempre que regresso àquele momento regresso inevitavelmente ao silêncio e ao sorriso que os meus lábios desenharam quando deitei a cabeça na almofada. Livre. Senti-me livre. Amanhã não trabalho e não vou ter de acordar a determinadas horas para estar com certas pessoas e fazer as coisas, aquelas que me fazem tão vazia há tantos meses. Isto é possível? Devolvam-me ao último dia em que isto aconteceu e eu ainda terei os meus dentes de leite.
Grande parte do medo desvaneceu-se naquela noite. E pensar que as respostas para esta equação começaram a surgir em casa, que me diz o que sou e que durante tanto tempo teimei em ignorar. Agora percebo o que querem dizer com o ideal de estarmos a uma decisão de mudar a nossa vida para sempre. É algo que vem de dentro para fora e não de fora para dentro. Algo que vem do antigo, profundo e real subconsciente para o aéreo, confuso e influenciável consciente. A voz de trás é grotesca, pelo que quando paramos para a ouvir é impactante a influência que esta tem no nosso caminho, tal estrela polar que ilumina as vielas dos que arriscam no desconhecido.
A minha estrela polar de hoje irradia transparência, verdade, honestidade, carácter, pureza, respeito, sinceridade e amor. Irradia uma liderança que tem por base a carne, o osso e o caos ao invés do disfarce, do herói e do perfeito. Irradia uma certeza em não compactuar com a malevolência que me preenche de orgulho e amor próprio. E aqueles cuja estrela polar é uma lanterna encontrada nas ruas do infortúnio, coragem. É preciso passar por aí para se alcançar a glória, pois só batendo de frente com as trevas é que a única saída é o topo. O vosso dia vai chegar e garantidamente vai ser tão ou mais libertador que o meu.
Mais do que a verdade, é a tua verdade. A tua verdade irá sempre libertar-te. Que assim seja.