Mais é menos
Deitar a cabeça na almofada é muito mais do que fechar os olhos e dormir. Entre pensamentos galopantes, dúvidas existenciais, listas de afazeres intermináveis e sonhos que me mantém acordada, o que mais pesa quando deito a cabeça na almofada são os quilos da consciência tranquila. E, neste caso, mais é menos. Mais quilos, menos desassossego, menos arrependimento, menos medo de mim.
No início desta semana passei por um momento que me fez questionar se os quilos da minha balança pendiam mais para o desconcertante ou para o tranquilizante, e por mais que a grande maioria das minhas ações caiam a favor da paz, existe algo que é tão, mas tão superior, que faz com se crie um desequilíbrio sério: estarei eu a dizer vezes suficientes o quanto amo as pessoas que amo? Ou estarei a dá-las como garantidas?
A última vez que algo assim me passou pela cabeça foi quando o avô Joaquim se transformou numa estrela brilhante ao lado da avó Mavilde. Naquele dia, o que vinha de fora nada tinha que ver com o que sentia cá dentro. Contavam-se pelos dedos de uma mão as pessoas que partilhavam esta serenidade comigo; os outros, esses, deram-me angústia, porque pior do que não dizer (ou dizer de mais), é perceber que o avô não ia estar mais com os pés ao lume a comer uma malga de caldo com meio trigo de Favaios a acompanhar. A morte é mesmo isto, caso ainda não te tenhas apercebido. Mas começo a perceber que o tamanho da nossa dor perante a morte é determinada pelas nossas condutas durante a vida.
Ao contrário do que vi no dia da despedida do avô, na passada segunda-feira solarenga de dezembro, fui capaz de ouvir palavras de gratidão e de consciência lavada, unicamente porque não houve um único dia em que achaste que se dissesses que a amavas novamente já ia ser de mais ou irias gastar a palavra com mais peso do dicionário português. "Obrigada por tudo o que me ensinaste, por teres feito de mim a pessoa que sou hoje. Prometo honrar-te eternamente.", ouviu-se. E eu prometo continuar a aprender contigo eternamente também. Quando soube da notícia, a primeira coisa que me passou pela mente vai precisamente ao encontro do primeiro parágrafo que hoje escrevo: mais é menos! Só quem suja as mãos a deitar na terra sementes de amor vê crescer árvores fortes, verdes e saudáveis. É o que está cá dentro que estipula a nossa transparência, da mesma forma que é o tamanho da raiz profunda e invisível que define a capacidade da árvore crescer e desfilar na direção do céu. O teu passado com ela explica o ser resplandecente que daí surgiu e o vosso futuro irá provar que esse brilho não será intermitente, mas contínuo. E, por isso, obrigada a Ela, que mesmo com todos os motivos para quebrar, preferiu sempre inspirar pela coragem e educar-te tendo por base a harmonia e a virtude. Tenho a certeza que irás fazer o mesmo, à tua maneira e à sua semelhança.
Ah! E uma vez que ainda não te disse hoje, aproveito o lanço para to dizer: adoro-te, admiro-te, respeito-te, estimo-te! Amanhã, há nova dose; ou hoje; ou daqui a cinco minutos. Porque, no caso de ainda não ter ficado claro, o número de vezes que devemos dizer o que sentimos não tem plafond nem limite nem média nem mediana. Não é matemática, mas sim poesia, cuja métrica é definida pelo palpitar do coração. Quem já o faz, parabéns! Quem, como eu, ainda não o faz: vamos tentar?
Sem pudor e com calor; sem dor e com fulgor; sem pavor e com amor.