Artur
Ao décimo sexto dia do mês de março, urge em mim uma necessidade grotesca de vos escrever. Hoje trago-vos três personagens: um Artur, uma Maria José e um Covid-19. Estes, foram os protagonistas desta semana atípica que passou e que dificilmente irei esquecer.
Começo, então, pelo Artur. O Artur é um jovem portuense, engenheiro de formação e genuíno por defeito. Conheci-o já há algum tempo num âmbito profissional e rapidamente fui seduzida pela forma inata e encantadora que o Artur tem de conquistar o seu público. É descontraído, cómico, espontâneo e despreocupado. É-no tanto que o nosso lado mais discriminatório e acéfalo, claro está, leva-nos, automaticamente, a fazer juízos de valor sobre o que ele é enquanto pessoa. Mesmo assim, aquele primeiro encanto não se desfaz, o que te leva a pensar: porra, mas afinal o que é que este gajo tem assim tão de especial? Demorei cerca de um ano a descobrir resposta para isto, e após ter nutrido esta mistura de admiração e, admito, preconceito relativamente ao Artur, encontrei resposta para isto na pequena formação que tive na passada segunda-feira. Preparados? Então aqui vai: o Artur tem a coragem de ser quem ele é e o que o torna tão especial e único é a vulnerabilidade assumida que lhe corre nas veias.
Há uns anos, quando atingiu o pico máximo de infelicidade, e já com um filho pequeno nos braços, o Artur tomou a decisão de eliminar tudo aquilo que não gostava de fazer, dedicando-se única e exclusivamente àquilo que ama: a música aliada ao desenvolvimento pessoal. Focado na solução e não no problema, a forma como ele encarou esta mudança e instabilidade na sua vida, foi de se tirar o chapéu. Diminuiu o custo de vida, mudando-se para uma casa mais barata, passou a andar a pé e adaptou-se totalmente a uma nova realidade. Ainda assim, importa aqui realçar a beleza colateral desta transformação, tão facilmente referida e evidenciada por ele: "cego" pelo amor de ser pai e, convenhamos, pelo amor a si próprio, fez das tripas coração pela música e conseguiu ter muito mais tempo para se dedicar ao seu pequeno. Ter esta coragem nos dias de hoje, é f#dido. Uns, porque têm medo das críticas, das opiniões e da rejeição; outros, nos quais eu me incluo, por não saberem ainda o que é que gostam mesmo de fazer, ao ponto de o fazer de graça até ao fim da vida.
Obviamente que, aliada a esta valentia, o Artur é uma pessoa livre. E esta liberdade traz-lhe uma leveza e plenitude tal que, inevitavelmente, faz com que ele seja respeitado pelos outros, independentemente da sua aparência física, forma de vestir ou linguagem. À sua maneira, transmite um nível de resolução pessoal que muitos almejam e que, porque falham, camuflam com bens materiais que pouco ou nenhum valor têm, segundo esta perspectiva. Outrora, a ambição e os objetivos de vida que o Artur partilhou connosco na segunda-feira, teriam sido precipitadamente rotulados por mim como pequenos, desinteressantes e egoístas. Hoje, e porque me obriguei a aceitar-me, a respeitar-me e a priorizar-me, consigo entender que o certo e o errado não existem e esta distinção, como outras, são apenas fruto das nossas crenças, por trás das quais não devemos nem nos podemos esconder. Cada vez mais percebo que o segredo está na nossa capacidade de nos ouvir, de ouvir os outros e de abrir a mente, para que esta se esvazie de falsas convicções e dê espaço aos valores presentes no nosso ADN. Que é único, é exclusivo, é nosso. Assim, é a ele que nos devemos agarrar nos tempos de dúvida, incerteza, medo e angústia que as Marias Josés e Covids-19 desta vida nos trazem.
Deixo para outro texto a apresentação da segunda protagonista desta semana e prometo esclarecer-vos em que medida ela se pode equiparar ao Coronavírus. Este, por si só, dispensa apresentações. Ainda assim, merece respeito e reflexão, e também sobre isto irei escrever. Até lá, mantenham-se em casa, seguros, sãos e cheios de esperança, porque 2020 vai ser, sem dúvida, o ano.
