Pandemia
Paro para pensar e apercebo-me que a grandeza ou pequenez das coisas depende sempre do ponto de vista que queremos defender. Para nós, portugueses, e imaginando uma escala do tamanho de uma régua de 50 centímetros, no extremo oposto ao ponto zero, está a China, fazendo deste local o mais longínquo possível de nós. Ainda assim, esta distância megalómana não foi suficiente para impedir que o Covid-19 nos batesse à porta, encurtando ao milímetro o tamanho deste imensurável mundo. O Coronavírus chegou e veio para ficar. Se foi obra da Natureza, da política ou do acaso, isso não sei nem é esse debate que quero pôr em cima desta mesa. O que interessa aqui realçar é que, após 48 horas de quarentena e uma ida repentina à rua, já deu para perceber que este sacana apareceu com o nobre propósito de desnudar a nossa vulnerabilidade enquanto seres humanos e que está, sem dúvida, a dar-nos quinz'a zero.
Vivo no Porto há 8 anos e se há característica que me apaixona todos os dias nesta cidade é a sua gente. Espontâneo, alegre, transparente, despachado, prestável e, ao mesmo tempo, desapegado, assim é o povo portuense. Muitas vezes desconecto-me do meu mundo e dedico o meu tempo apenas a observar os comportamentos destas pessoas de bem. São raras as vezes que não sorrio, apaixonada pela deslumbrante genuinidade dos gestos e das palavras que me abraçam. Também hoje, no meu curto percurso entre os Poveiros e a Boavista, tirei os fones dos ouvidos e pus-me a olhar os azulejos desta cidade. E sabem que mais? Perderam a cor. Estão pálidos, corroídos pela energia pesada e negativa que paira pelo ar. Há medo, há tensão, há olhares desconfiados. O Porto não é mais o Porto na presença deste maldito vírus. As pessoas já não gostam das pessoas. Os sorrisos foram substituídos por máscaras e, na falta delas, por lenços e cachecóis que cobrem as expressões aterrorizadas do povo. Os autocarros estão cheios de vazio e de um silêncio ensurdecedor que faz palpitar aceleradamente o coração. Mesmo com sol, as ruas estão sombrias, geladas e desertas. Vê-se, de vez em quando, umas avós destemidas a carregar um saco de fruta e mercearia e meia dúzia de turistas, derrotados pela expectativa que criaram sobre uma das cidades mais especiais de todo o mundo. Na esperança de se embebedarem de espírito nortenho, saem à rua e vagueiam por vielas e calçadas, da ribeira até à foz. No entanto, por mais que queiramos brindá-los com o nosso sangue fervoroso tuga, à semelhança do SNS, também Portugal está a colapsar. Não pela falta de ventiladores, não pela falta de médicos e enfermeiros, mas sim pela falta do nosso bem mais precioso e que o nosso eterno Abril nos trouxe: a liberdade.
Foram anos, muitos anos, de um regime ditatorial, onde os pequenos prazeres da vida foram bloqueados por polícias à paisana, que escutavam as conversas nos cafés e denunciavam quem pronunciava as palavras proibidas, ao ponto de nunca mais ninguém as dizer. Provavelmente já perguntaram aos vossos pais e avós se preferiam a vida antes do 25 de abril ou a vida que levamos agora. E, apesar do ritmo frenético do século XXI e de todas as suas consequências nocivas, a grande maioria deles, prefere o pós 1974. Porquê? Porque agora, pelo menos, há liberdade, dizem eles. Liberdade para conversar, para socializar, para namorar, para beber, para reivindicar, para opinar, para escolher, para estudar, para votar, para viver. Hoje o Porto não é o Porto, nem Portugal é Portugal, nem o Mundo é o Mundo, pela incerteza de quanto tempo vai durar esta quarentena. No início, todos choramos baba e ranho para os nossos patrões nos mandarem para casa, já que, no fundo, todos nós estamos um bocadinho saturados da rotina. Aliada esta infeliz realidade à ideia de não fazer nada durante um tempo indeterminado, fez explodir os nossos níveis de dopamina no sangue e levou até alguns a pensar, vejam lá, que quarentena são férias e que o que é preciso é encher praias e esplanadas com o corpo danone que andamos a construir deste janeiro. O problema é que esta explosão foi de tal maneira monstruosa que bastaram apenas umas horas para desejarmos profundamente que todo este pesadelo acabe, para que possamos voltar a reunir-nos no Morro, a beber um fino a estalar, a contemplar as cores da ribeira e a ver o sol a esconder-se por detrás das caves de vinho do porto.
A isto, eu chamo prisão. Somos todos, neste momento, prisioneiros de uma armadilha vinda do oriente, que não tem cor ou cheiro, nem preconceitos ou juízos de valor. Da forma mais preversa possível, foi reestabelecida a igualdade social, colocando-nos a todos, sem exceção, no mesmo barco. Não interessa se somos brancos ou pretos, ricos ou pobres, gays ou heteros, homens ou mulheres. Todos nos vimos obrigados a adiar viagens, casamentos, encontros e reencontros; todos estamos a ser barrados à porta do supermercado e não é garantido que iremos encontrar o quilo de arroz basmati que, por capricho, tanto nos apetece; todos estamos sujeitos a ligar para a Saúde 24 e ficar sem resposta durante horas; todos estamos expostos ao risco de ser infetados e não haverá seguro de saúde ou hospital privado que nos irá garantir cura. Ainda assim, todos estamos a ter exatamente as mesmas 24 horas para refletir e perceber que é na adversidade que surge a oportunidade. Este é o momento de nos reerguermos enquanto sociedade e voltarmos a valorizar as árvores que nos dão vida, a saúde que nos abençoa, a casa que nos abriga, a família que nos conforta, os amigos que nos preenchem, os namorados que nos completam, os animais que nos percebem, o emprego que nos sustenta, o negócio que nos motiva e os sonhos que nos fazem levitar. É o momento de substituir o medo pelo amor, o egoísmo pela generosidade, o ócio pela produtividade, o queixume pela gratidão, a dúvida pela confiança, o incerto pela criatividade.
Acredito profundamente que tudo isto não passa de um grande teste vindo do Universo, que, incapaz de impedir o ritmo alucinante com que nos estamos a auto-destruir, viu-se obrigado a ser drástico e imparcial. Não obstante, e sob um ponto de vista atulhado de esperança e fé, se nos comprometermos todos a aprender com os erros e a varrer o nosso jardim sem olhar com malícia para o do vizinho, não há-de tardar muito até que as portas se abram, as tropas da liberdade surjam nas ruas e as armas se carreguem de cravos vermelhos, simbolismo de um povo feliz, digno, abençoado, unido, vencedor e livre. Façamos com que esta vulnerabilidade nos torne mais tolerantes, mais sensíveis e, inevitavelmente, invencíveis. Prometo que vou fazer a minha parte e digo, sem receio, que podes contar comigo para fazer do nosso Abril, o Abril de todo o mundo. E eu, posso contar contigo?
