Maria José

Ontem trouxe-vos o Artur, pessoa alegre, bem resolvida, realizada, inspiradora. Hoje, tal como prometido, trago-vos a Maria José. Para ser fácil a sua apresentação, imaginem o branco e o preto; o quente e o frio; o doce e o amargo; o Artur e a Maria José. Sim, isso, são opostos. São duas retas paralelas que percorram o espaço que percorrerem, jamais se vão encontrar. Não coincidem em nada, sendo a única coisa em comum entre os dois é terem-se cruzado comigo. Um, a uma segunda-feira. Outro, a uma terça-feira. Um, capaz de colorir o meu dia. Outro, capaz de o escurecer. Um, inspirou-me a ser real. Outro, evidenciou aquilo que eu não quero ser. Ambos capazes de me ensinar alguma coisa e é sobre isto que vou falar hoje.

Todos vós, pelo menos uma vez na vida, já teve de levar com uma Maria José. No meu caso, levei com ela no meu local de trabalho, no qual existe uma proximidade colossal com o cliente e, como tal, os níveis de respeito e cortesia têm de ser mútuos para a coisa correr bem. Não sou defensora absoluta de que o cliente tem sempre razão. Ainda assim, a minha inteligência emocional e a capacidade já há muito treinada de ignorar o que não me acrescenta nada, faz várias vezes com que engula muitos sapos e os faça saber a petit gateau. O problema é que se há coisa que não consigo ainda controlar é a minha transparência, e, aliando isto à falta de educação, à prepotência e à descriminação por parte do próximo, faz gerar em mim todo um sentimento, que se resume a uma simples palavra: ranço. E quando tu já estás na fase em que sentes ranço por alguém, tu sabes, eu sei que sabes, que a probabilidade de dar merda é grande. E deu.

Não vou entrar em detalhes, até porque o meu funil já coou a informação inútil de todo o episódio, mas para vos contextualizar na situação, a Maria José entrou na minha vida a pés juntos, com o  pobre e infeliz propósito de me provocar. De várias formas, através de inúmeras tentativas e com uma arrogância inacreditável, procurou o conflito desde o momento zero. Desesperada, por perceber que a menina aqui não é fácil de quebrar, decidiu entrar por um caminho um nada nojento, colocando-se num patamar superior ao meu, fazendo uso da sua profissão. "Sou professora e sei bem que essa má formação e falta de educação já vem da escola", acrescentando e finalizando com um "Nem para empregada doméstica serves!". Alto e para o baile! O que tu foste dizer, Maria José. Então ainda agora era eu a mal educada por não ter aberto a boca e tu vais dizer uma coisas dessas? Oh Maria José, então... então não será isso má formação? Não será isso preconceito e descriminação? Não será por isso que os miúdos lá na escola são mal educados? Não será por isso que não gostas do que fazes e, por consequência, vês-te obrigada a culpar o mundo todo à tua volta por esse vazio doloroso que sentes no teu coração? Não será por isso que... Pause. Pára. Time out. Já viste como está a ficar afetada a tua energia? Já reparaste na velocidade dos teus batimentos cardíacos? Já atentaste à forma como a tua boca está seca? Já percebeste que, por causa disto tudo, estás num estado de nervos ilógico, a chorar de sufoco e a alimentar um sentimento de ódio por alguém que provavelmente não sabe o que é o amor?

E, assim, fui voltando ao normal, com apenas e uma só demanda no meu pensamento: o que é que eu posso tirar daqui? O que é que a D.ª Maria José me está a querer ensinar? De que forma esta escuridão se pode transformar num Artur? Respirando fundo três vezes muitas vezes e repetindo freneticamente estas questões, consegui que toda esta angústia se transformasse em felicidade e gratidão. Felicidade, por perceber que fiz o dia àquela mulher, já que no meio de tanta frustração, falta de confiança e complexo de inferioridade, conseguiu sair vencedora e com o caneco levantado em forma de depoimento no livro de reclamações. Gratidão, por, nem passadas vinte e quatro horas após a formação com o Artur, cair no meu caminho mais uma prova de que é nosso dever fazer aquilo que realmente gostamos e de ser aquilo que realmente somos. Só assim iremos desenvolver um nível de responsabilidade e consciência tal, que nos irá libertar da vitimização e fará perceber que o problema não está no emprego, no padeiro, no dentista, no trânsito, no estado do tempo, na política, no dinheiro, na saúde, mas única e exclusivamente em nós.

A Maria José sofre do vírus do espelho baço, cujos sintomas passam por tosse de raiva, falta de empatia, apendicite de energia negativa e anemia de amor próprio. Ainda não há vacina para curar tal efemeridade, nem se sabe se algum dia haverá, mas se há coisa que a Direção Geral de Saúde recomenda é passar a mão no espelho durante 20 segundos, desembaciá-lo na totalidade e aprender a gostar da imagem que aparece. Crê-se que este processo seja lento e, na incapacidade de o completar, poderá levar à morte de identidade, a mais dolorosa e agonizante de todas. Ainda assim, faz parte do dever cívico de cada um fazer a nossa quarentena, proteger-mo-nos e, consequentemente proteger o outro, pois, na pior das hipóteses deste desfecho infeliz nos bater à porta, a nossa consciência pode pelo menos dizer que não somos um fracasso, porque morremos a tentar. E isso, digam o que disserem, venha quem vier, ninguém nos tira.

Mais lidos

Intimidade

Estava sem sono e decidi escrever

Um ano de terapia