O meu pai

O meu pai é o melhor do mundo.
Sendo o único homem numa casa de três mulheres, o meu pai é protetor por natureza. Foi ele que me ensinou a andar de bicicleta e a mergulhar no momento certo nas ondas do mar de Vila do Conde, pois, no caso de algo dar errado, ele estaria lá por perto para funcionar como escudo humano.

O meu pai é o melhor do mundo.
Gosta de história e geografia como eu. Ou melhor, hoje eu gosto de saber mais sobre o passado, de saber onde fica cada país, de saber as cores das suas bandeiras e as suas capitais, porque o meu pai sempre me ganhou quando jogávamos a este jogo. Lembro-me de ver com ele o Quem Quer Ser Milionário, na altura do Jorge Gabriel, e do meu pai saber quase sempre a resposta certa. Isto aqui para nós, que ninguém nos ouve, cheguei a fazer batota e ir ver ao Google a resposta certa quando ele não sabia, só para ter um gostinho de lhe ganhar. Ainda assim, era uma sensação errada de satisfação, porque o que eu gostava mesmo era de perceber orgulhosamente que o meu pai sabia muitas coisas e tinha muito para me ensinar.

O meu pai é o melhor do mundo.
Se houve coisa que herdei dele foi a paixão pelo movimento. Contou-me, várias vezes, que por se perder nas horas enquanto jogava à bola com os amigos ou mergulhava nos tanques dos vizinhos, levou umas valentes tareias da minha avó. Que se na altura já existisse o termo hiperatividade, ele seria, com toda a certeza, rotulado com esta maleita. Também eu, desde que me lembro, sempre preferi bolas a bonecas, sapatilhas a sandálias, correr e jogar a desfilar e fazer penteados. Tareias não digo, mas muitas vezes tive de ouvir sermões da minha mãe por chegar a casa com os sapatos novos completamente esmurrados, por ter chutado uma lata de coca-cola desde a escola até casa. Já o meu pai, nestas situações, sempre se mantivera solidário comigo, não soubesse ele perfeitamente o gosto que dá transformar um pacote de leite num bola, um banco de jardim numa baliza e um simples jogo com amigos numa Champions League.

O meu pai é o melhor do mundo.
Tem o talento de pegar num pedaço de madeira e convertê-lo num móvel, numa mesa, numa cadeira. Grande parte da mobília de minha casa foi o meu pai que a pensou, desenhou e criou. Não só a mobília lá de casa, mas, imaginem, a casa toda! Juntando um sonho antigo ao seu dom para a carpintaria, o meu pai deitou as paredes abaixo de uma casa antiga e deu cor a uma nova casa, linda, moderna e nossa. Hoje temos a nossa casa graças à garra, à convicção, ao trabalho e à arte do meu pai. Ele é um artista e talvez venha também dele a minha criatividade e vontade de elaborar.

O meu pai é o melhor do mundo. 
Se há coisa que mais lhe dá prazer é ir ao supermercado, comprar o melhor vinho, abrir a garrafa e servir os meus amigos que, a esta altura, já se sentem em casa na minha casa. Uma mesa cheia de gente, a comida da minha mãe e o copo cheio, fazem os dias ao meu pai. E hoje, este mesmo cenário, fazem também os meus dias. 

O meu pai é o melhor do mundo.
Vi, junto do meu pai, o Porto ganhar tudo. Sei, desde cedo, todos os nomes e posições dos jogadores do Porto, todos os seus treinadores e só não digo todos os presidentes, porque o Pinto da Costa está na cadeira de sonho há demasiado tempo para eu considerar ter existido outro no seu lugar. Comandamos, muitas vezes, as caravanas de carros nos títulos do Porto e todos os anos esgotamos a buzina do Fiat, tal era a azáfama da festa do título. Azul e branco é o coração, desde o dia em que nasci. E a lampionaige não é raça boa, desde sempre e para sempre.

O meu pai é o melhor do mundo.
Tem as melhores expressões. "Tá quieto Afonso! Eles que estejam, minha madrinha!", "Falo eu ou chia um carro?", "Dói-me a molhelha...", "O que é a bóia?", "Que lavaigice é essa?", "Susana, tu que sentes?" ou "Tá bem abelha", são algumas das mais típicas expressões que o Celinho diz. Habituada a ouvi-las desde sempre, hoje, passados 26 anos, continuo a rir-me delas como se fosse a primeira vez. E hei-de, um dia, ensinar aos meus filhos o seu significado, fazendo delas material genético.

O meu pai é o melhor do mundo.
Hoje não vou consegui estar com o meu pai, mas tal como tudo o que não nos parece garantido, faz-nos refletir e valorizar ainda mais aquilo que temos. Da última vez que estive com o meu pai nunca pensei que não saberia quando seria a próxima vez que isto iria acontecer ou, pelo menos, não sabia que o meu regresso a casa não seria controlado única e exclusivamente por mim. Não me lembro de lhe ter dito, quando me despedi dele e fui apanhar o autocarro, o quanto o admiro, o quanto o estimo e o quanto o amo. Por isso, pai, dedico-te este texto e aproveito para te dizer que te amo! Muito e para sempre. Obrigada por tudo!

O meu pai é o melhor do mundo. Mas ainda tinhas dúvidas?

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