Só os loucos sabem - a minha viagem aos Estados Unidos

Vamos viajar?

Hoje levo-vos até aos Estados Unidos. Está quase a fazer um ano que eu mais seis amigos entramos num avião a uma segunda de madrugada, rumo a Los Angeles. À partida, seria apenas uma estadia durante uma semana na cidade dos anjos. Contudo, e graças a um sonho antigo, no meu dia de aniversário, pus em cima da mesa aquela que iria ser umas das maiores aventuras das nossas vidas.

"Malta, tive uma ideia. E que tal irmos, não só a Los Angeles, mas também a Las Vegas e ao Grand Canyon? Eu sei que parece impossível, mas eu já tracei a rota e já decidi que vou, mesmo sozinha. E vocês, juntam-se a mim?". Assim lancei a ideia para o ar, com 99% de certezas que ninguém iria alinhar nesta loucura. Mas sabem que mais? Se querem fazer uma loucura, certifiquem-se que estão rodeados de amigos tão ou mais loucos que vocês. E foi, desta forma, que começou a ser efetivamente desenhado o plano de ação. Quando demos por nós, já era abril e, das notas no telemóvel e dos esquemas no caderno, fomos como que tele transportados, em menos de três meses, para terras americanas, nas quais foi missão impossível aguentar a histeria, o entusiasmo, a excitação. Os carros, as avenidas, as palmeiras, os edifícios, a energia, as pessoas, o estilo de vida. Estávamos, de facto, a viver o american dream e tudo aquilo que outrora tínhamos visto em filmes, estava diante de nós.

Chegamos a uma segunda-feira e, mortos de cansaço de uma viagem superior a dez horas, decidimos abastecer o nosso super apartamento de comida e bebida. Comer, lavar dentes, xixi e cama, assim foram as primeiras horas em LA. Esforça-mo-nos por descansar bem nessa noite já que, a noite seguinte, iria ser passada dentro das quatro portas da nossa Toyota, rumo ao Grand Canyon. O plano foi o seguinte:

De manhã e de tarde (de terça-feira), visitamos toda a zona de Hollywood. Histeria!!! Começamos pela Walk of Fame, na qual, além das estrelas no chão e do Dolby Theatre onde são realizados os Óscares, existe uma quantidade absurda por metro quadrado de artistas de rua, néons, lojas de souvenirs e, infelizmente, pessoas num estado absolutamente degradante. Ainda hoje sinto a chapada de realidade que levei quando pisei aqueles passeios icónicos e foi aqui que tiramos a primeira conclusão sobre os Estados Unidos: o bom é efetivamente muito bom! Mas o mau também é visivelmente muito mau, o que nos deixou, de certa forma, confusos e atordoados no processar de tanta informação em simultâneo de Hollywood Boulevard. Depois de passarmos umas boas horas nesta zona, almoçamos num restaurante local e conduzimos até ao topo do monte de Hollywood. Sim, aquele que tem o Hollywood Sign. Sim, esse mesmo que aparece nos filmes e que é, provavelmente, um dos locais mais célebres de todo o mundo. O caminho até lá, a vista lá de cima, a mística do local. Histéricos, era como estávamos, tanto que acabamos por dar lá como terminado o nosso dia. No regresso a casa, planeamos tudo ao pormenor para que, entre banhos, malas e sandes prontas, partíssemos de Los Angeles às 21h em ponto, rumo ao Grand Canyon.



E assim foi. Certos como um relógio suíço, pusemos como destino o The Horse Shoe Bend, ligamos o USB às colunas da carrinha, formamos duplas para que o condutor não adomecesse e, durante à vontade 4 horas, não pregamos olho. Já disse que estavamos histéricos? Pronto, assim nos mantivemos até termos passado ao lado de Las Vegas. Depois disto, apenas enfrentamos umas boas oito horas de viagem em linha reta, rodeados de nada. Sabem aqueles cenários típicos de filme, em que eles pegam num carro amarelo, conduzem infinitamente um caminho sem curvas e param, de vez em quando, numa bomba de gasolina cheia de homens barrigudos e com ar de que vos querem virar ao contrário? Pronto, Estados Unidos é muito isso. O nosso objetivo de ter conduzido durante a noite era de conseguir chegar a tempo do nascer do sol, mas uma viagem que estava planeada para sete, oito horas, acabou por durar onze, doze, pelo que, quando chegamos ao destino, o sol já tinha nascido. Não obstante, toda esta ligeira desilusão desvaneceu-se quando paramos o carro, descemos até ao ponto específico, pousamos os pés em cima de tremendos rochedos e olhamos em frente: as lágrimas foram impossíveis de conter, tal foi o impacto com a mãe natureza. De um estado de histeria misturado com deceção, passei em segundos para um estado estático, emotivo e de gratidão profundo. Ir ao Grand Canyon era um sonho que já há muito florescia no meu coração e estava certa de que quando o realizasse, ia ser arrebatador. O que eu nunca pensei foi que o nível de abalo fosse ser tão intenso, ao ponto de me por a chorar. A areia vermelha, o vento forte, o rio lá no fundo, as curvas e contra curvas, o silêncio, as cores... tudo naquele lugar é mágico e não há palavras ou imagens que façam jus à imensidão daquele parque. Depois de diluir toda a comoção e de tirar centenas de fotos e vídeos que quis trazer comigo, arrancamos para o próximo ponto do parque. Se um dia forem ao Grand Canyon, entendam que atravessá-lo não é igual a atravessar o parque da cidade do Porto de uma ponta à outra. Foram, no mínimo, mais 3 horas de viagem até chegarmos ao lado Este e, para terem noção do quão especial é a sua natureza, conseguimos apanhar nevoeiro, sol e neve durante a viagem. Aproveitamos, muito, este milagre da Mãe Terra, mas chegou a hora de lhe dizer adeus e rumar à cidade que nunca dorme e onde tudo acontece: Vegas!


Já com o sol a pôr-se, paramos em tempo record numa estação de serviço à entrada da cidade e mudamos todo o outfit de montanha para um minimamente adequado a Las Vegas, nomeadamente umas calças de ganga, um top e umas sapatilhas (piada!). Lembro-me perfeitamente de termos jantado no In & Out, uma cadeia de fast food super conhecida nos Estados Unidos, e de rapidamente termos regressado ao carro. Quando demos por nós, estavamos em plena strip (rua principal de Las Vegas) e foi de rir a nossa reação a toda a luz e a todo o movimento daquela cidade. Limosines, casinos, néon, hotéis megalómanos, a torre Eiffel, mais néon, a fontana di Trevi, o hotel da Ressaca... continuo? Uma vez mais, o choque com um ambiente totalmente fora do nosso quotidiano foi algo que me marcou para sempre e, também de Las Vegas, trouxe uma lição: esta cidade vive única e exclusivamente da noite, do jogo e do sexo, a probabilidade de alguém se perder lá é grande e a mulher, em particular, é vista como um objeto. Carrinhas passavam de minuto a minuto na estrada, com publicidades enormes que arrendavam (sim, "Rent me", era o que dizia) mulheres por determinado tempo. É um sítio louco, luxuoso e frenético que vale muito a pena pela experiência, mas que, além do que já referi, pouco ou nada vos acrescenta.


Vimos o que tínhamos a ver e, depois de termos sido expulsos do Casino do Caesar Palace, regressamos a Los Angeles. Como era de esperar, sendo esta a segunda noite sem praticamente dormirmos, vi-mo-nos obrigados a parar no meio do nada e a descansar durante umas horas, garantindo a nossa chegada com segurança à cidade do lifestyle, isto já quinta-feira de manhã. Sobravam-nos uma tarde e um dia inteiro em LA. Por isso, cada minuto tinha de ser aproveitado ao máximo. E foi! Começar o dia em Beverly Hills, repleta de Rolls Royce's, Pradas e Guccis, almoçar mexicano em Venice Beach e acabar a ver o por do sol no pier de Santa Monica, fez desta viagem uma das mais especiais e icónicas de sempre. A energia de Los Angeles é inexplicável. Nesta cidade, toda a gente consegue e pode ser aquilo que é, livre de preconceitos ou crenças limitadoras. Já visitei muitas cidades turísticas e todas elas têm um ponto negativo em comum que é a pressa e a pressão com que as pessoas andam e vivem os seus dias. Apesar de LA ter um dos trânsitos mais caóticos de todo o mundo e de termos perdido muito tempo naquela a que chamamos a VCI de Los Angeles, nota-se perfeitamente que as pessoas lá vivem uma hora de cada vez, respeitam de igual forma um advogado e um artista e têm como objetivo máximo alcançar o maior estilo de vida possível.





Vivemos, hoje, um tempo difícil, mas que ele sirva, no mínimo, para colorir todos os sonhos e ideias malucas que pairam no vosso subconsciente, e vos dê a coragem para correrem por eles, mesmo antes do fim desta quarentena. Como vos disse no início, esta aventura aconteceu porque eu a partilhei com amigos, sem qualquer tipo de expectativa de que a iria viver com eles. Se nunca tivesse dito nada, provavelmente nem eu sozinha tinha ido, já que o medo costuma sempre falar mais alto quando ouve a palavra risco. Ainda assim, preferi torcer pela fé e agarrar-me a tudo de bom que ela me traz, que passa, também, por centenas de memórias e experiências que tenho vivido por todo o mundo. Já passou quase um ano depois desta aventura e a forma como escrevo sobre ela faz-me querer fazer as malas e voltar. Mesmo com todo o cansaço, tempos e contratempos que esta loucura envolveu, voltava a repeti-la, sem pensar duas vezes. E vocês? Têm muitas histórias para um dia contar aos vossos netos ou fazem apenas parte da equipa do medo, que vos mostra sempre o cenário catastrófico e faz de vós prisioneiros da vossa própria mente?

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