Yin yang
Fez ontem uma semana que estou de quarentena e, tal como o Newton teve uma epifania quando levou com a maçã na cabeça, também eu ontem, durante um banho refrescante e terapêutico, após um treino caseiro tendência março/abril 2020, tive um momento de luz. Não sei se foi do vapor de água do banho misturado com o cheiro do meu champô ou se foi da falta de oxigénio no cérebro graças à coça que este corpito levou, mas dei por mim a questionar e a refletir sobre várias coisas. Ainda não há muito tempo, ouvi falar num podcast sobre a luta interna pela qual muitos de nós passa. De um lado, temos o processo e o esforço de nos tornarmos melhores a cada dia que passa. Do outro, temos a capacidade de nos aceitarmos no presente e de o aproveitarmos com plenitude, não questionando o passado ou o futuro. Seguindo esta linha de pensamento, dei por mim a levantar duas questões essenciais: primeiro, como têm sidos os meus dias durante este tempo?; e segundo, o que é que tem sido bom e mau na minha rotina/o que é que tenho de manter e de mudar?
Garanto-vos que não demoro mais de dez minutos no banho, até porque a minha caldeira é do tamanho de um copo e presenteia-me com água gelada se passar muito os limites, mas as respostas a estas perguntas surgiram tão rápido, que enquanto me estava a preparar para vestir o #ootd, também conhecido como pijama, já tinhas todas as respostas que precisava e um plano de ação a construir-se para por em prática ainda na mesma noite.
Então, cheguei primeiro à conclusão que os meus dias nesta primeira semana foram todos iguais em termos de ocupação/atividades na prática e, ao mesmo tempo, todos diferentes dentro da caixa mirabolante que seguro no meio das minhas orelhas. No início, apesar de manter sempre a esperança acesa, deixei-me influenciar pelo pânico e medo nacional, resultado da incerteza quanto ao fim de tudo isto, do excesso de informação dos meios de comunicação e da absurda desinformação das mensagens fidedignas do whatsapp. Acordava e deitava-me a fazer refresh para ver a evolução dos números em Portugal e no mundo, comia coronavírus ao pequeno-almoço, almoço e jantar e tinha o meu tempo de ecrã a bater records. Não obstante, a capacidade que o ser humano tem de se adaptar é impressionante e, graças a ela, um ou dois dias depois aprendi a viver com esta nova realidade e poucas foram as vezes que fui atacada pelo medo, pela dúvida ou pelo tédio. No vazar de toda esta informação tóxica, obviamente que se arranjou espaço nos meus pensamentos para criar outras formas com o que me entreter e, apesar de ter estado conectada ao wi-fi 24 horas por dias, de ter visto 485009293 diretos no instagram e de ter esgotado oito dos dez gibas extra que a vodafone me deu, uma das coisas boas que fiz consistentemente na semana que passou foi ler e escrever. É sempre nos momentos de mais carência que surgem ou se acordam sonhos, vontades e paixões. No meu caso, desenterrar o meu gosto pela escrita e ter todo o tempo do mundo para dedicar aos meus livros, foram dois dos pontos mais positivos deste estado de emergência e, sendo assim, fazem parte dos hábitos que quero conservar para esta segunda semana. Contudo, a busca por me tornar na minha melhor versão diante as condições que este isolamento me oferece pesou uns bons quilos a mais na balança e, sem nunca me esquecer do bom dentro do mau, consegui facilmente descortinar o mau dentro do bom.
Assim, peguei numa caneta e num papel e construí um horário de quarentena, que começa às nove e meia da manhã e acaba à uma da noite. Nele, proponho-me a fazer tarefas que já fazia antes da quarentena e deixei de fazer, que queria fazer há muito tempo e nunca tinha feito e, pelo menos, uma tarefa diferente todos os dias para dar uma animadela à rotina. Hoje foi o primeiro dia de não sei quantos que ainda estão por vir e estou contente pelo resultado. Ainda não é meia noite e eu já meditei, treinei espanhol, estudei uma área de interesse, li vinte páginas de dois livros diferentes, treinei, cozinhei, tratei de vários assuntos profissionais e estou agora a escrever. No meio disto tudo, ainda sobrou tempo para praticar a arte de não fazer nada que esta quarentena nos tem dado o privilégio de gozar, que passa por interagir com os outros nas redes sociais, sentar-me na varanda a descobrir novos vizinhos, aprender com a minha gata a lavar bem as mãos ou ouvir e cantar as músicas todas do Rui Veloso. O não fazer nada antigo, em que temos aquela necessidade de chegar a casa, parar e ficar só a olhar para o teto, já não existe nos dias de hoje, pelo que o não fazer ponta ganhou momentaneamente um novo significado. Não fazer nada, nesta quarentena, tem sido significado de olhar o mundo com outros olhos, ouvir as canções com outros ouvidos, saborear a comida com outro paladar e sentir saudades de quem está longe, mesmo que a menos de um quilómetro de distância, com outro tato. O não fazer nada tem vindo a equilibrar a relação entre a minha Lua e o meu Sol e tem-me ensinado que é este balancear que falta nas nossas aceleradas e impacientes vidas. Estou certa que este é o momento em que vamos mudar de cor e substituir uma pele egoísta, intolerante, pretensiosa e ingrata por uma pele generosa, altruísta, humilde e condescendente.
Não duvidem quando vêem frases bonitas na internet que dizem que tudo isto não passa de um pedido de socorro da mãe Natureza. Aquilo que distinguiu e distingue o homo sapiens enquanto raça é a nossa capacidade de cooperar. Foi esta habilidade que nos fez evoluir até aos dias de hoje e foi precisamente a falta dela que, se não acabou connosco, pelo menos serviu para nos abalar e paralisar. Está nos genes da nossa espécie a relação direta entre o cooperar e o sobreviver e, a multiplicar esta equação, está a nossa particularidade em acreditar, alimentar e partilhar crenças. A história que nos contaram sobre o nascimento ou a morte de Cristo é o que faz milhões de homens e mulheres a cooperar entre si em prol de uma convicção em comum. É este acreditar em algo que não é palpável nem provado em laboratório que faz de nós a espécie dominante do planeta.
Neste sentido, este vírus pode ter sido a melhor coisa que nos aconteceu nos últimos tempos. Bastou uma pessoa. Uma única pessoa e um ser de tamanho microscópico foram suficientes para colapsar um mundo cego, surdo e mudo para aquilo que mais importa. Conseguem imaginar se a próxima pandemia for a propagação de uma crença na Natureza, na aceitação, no altruísmo e no amor? Conseguem imaginar que história comovente e orgulhosa iremos contar aos nossos netos se sairmos das quatro paredes da nossa casa pessoas mil vezes melhores do que éramos quando entramos? Acredito que a nossa espécie está longe do seu estado máximo de evolução e talvez seja este o passo que nos falta para eliminar de vez o egossistema por nós criado no ecossistema que já existia quando cá chegamos. Podemos não ter muito controlo neste momento, mas se há coisa que nos compete controlar é a forma como vamos sair desta e como, juntos, nos vamos salvar ou como, juntos, nos vamos destruir. A responsabilidade é nossa. Basta um. Apenas um é preciso para querer mudar o mundo. O resto, só tem de acreditar.
