Afinal, onde é que se posiciona a felicidade?

A sexta-feira que passou foi um dia importante para mim, porque celebrei em família as trinta primaveras da minha irmã. Sou pessoa que adora surpresas, quantas mais e mais inesperadas, melhor. Como tal, retiro um enorme prazer em surpreender também os outros e cada ideia maluca que me vem à cabeça é alimentada pela próxima, e pela próxima e por aí em diante. Quando planeio uma surpresa, não me fico só por uma, tamanha é a minha excitação pelo que a pessoa vai sentir, e isto apenas se deve ao facto de eu calçar sempre os sapatos dos outros e de prever, assim, a forma como tudo vai correr. O que me esqueço, muitas vezes, é que nem toda a gente calça o mesmo que eu nem gosta dos mesmos sapatos que eu gosto. Então, a possibilidade dos acontecimentos não baterem tal qual como eu os vejo é grande, gigante e, neste caso, o prazer que supostamente ia obter no futuro, acaba por se transformar em dor. Talvez se não forçasse ninguém a calçar os meus sapatos, esta dor não fosse tão aguda. Mas tal como o príncipe da Cinderela percebeu, se as irmãs más estão a forçar a entrada do sapatinho, então é porque este não lhes pertence.

Tudo isto para vos dizer que dei por mim a questionar onde é que se posiciona a felicidade. A minha felicidade. E tal como uma bala que perfura um coração a sangue frio, também a resposta que obtive a esta pergunta entrou no meu consciente sem bater à porta nem pedir autorização, mesmo de forma a que nunca mais me esqueça dela. Entendi que todos os meus créditos relativos a ser feliz estão depositados nas expectativas, nas que ainda me prendem ao passado, mas principalmente nas que tenho para amanhã. E isto é perigoso e nocivo por duas razões.

A primeira é que esta ânsia pelo futuro impede-me de viver o presente. Esqueci-me, há muito tempo, de apreciar o movimento, conectando-me apenas ao momento em que deitei a semente na terra e ao dia em que dela irá nascer uma árvore grande e saudável. Mas de que vale imaginar esta árvore se não estou disposta a sujar as mãos no presente? De que vale ansiar o pôr do sol, se não aprecio o pontinho de luz a ficar cada vez mais pequeno e a esconder-se por trás do horizonte? De que vale dizer que gosto de flores se só estou interessada no desabrochar daquele botão que, neste momento, ainda não está pronto para se abrir ao mundo? 

A segunda razão desta toxicidade é que quando faço all in nas expectativas, normalmente choro. Porque me magoei, porque não consegui levar-me a cabo, porque confiei no diabo. Outrora, chamaria a este deslize inocência. Quando não sabes o que não sabes, e quando não sabes distinguir as vozes que ecoam no teu pensamento, é comum caíres na armadilha, sendo o mais agoniante não saberes, agora, como te vais desarmadilhar. Mas a partir do momento em que és capaz de decifrar qual a voz que mais importa nessas todas que te visitam, caíres na armadilha passa a ser irresponsabilidade, sendo o oposto, escapar ao fado, ao destino, onde se posiciona a felicidade.

Finalmente entendi o sentido das frases feitas sobre felicidade, que dizem que ela não é o destino, mas sim a viagem. Por mais concentrado que o maratonista esteja na meta, jamais chegará lá sem aproveitar o lanço de cada passada, a libertação de cada respiração. Verdade seja dita: nunca nenhum maratonista disse que é apaixonado pela modalidade, porque esta lhe permite cortar uma fita com o peito no fim. Sempre que ouço um atleta destes a falar, o que lhes dá mais prazer em correr durante 42 km sem parar é apreciar a paisagem e as pessoas, levar com vento a bater na cara, sentir as dores nas pernas, resistir à vontade de desistir, ouvir o coração a acelerar e ver o relógio a contar o tempo. Obviamente que o objetivo é chegar ao fim. Óbvio. Mas se o que lhe dá verdadeiramente prazer é o caminho até lá, porquê pôr todas as expectativas na meta, no resultado, no ranking e na posição na tabela, cedendo à pressão constante e sufocante do ego? E se estes sapatos não lhe servirem, qual vai ser a sensação? Exatamente! Vai doer. Vai doer muito. 

Passando por esta dor ou não, a certeza que tenho sobre a felicidade é que ela vem com a clareza da coragem de ser quem somos e não com o potencial de pessoa que podemos vir a ser. Vem também com o entender que o amor não se mede e que o ato de dar não tem obrigatoriamente de dar as mãos ao antagonista receber. E tudo isto que hoje aqui escrevi vem com tempo e com um respeito enorme por ti. Se ainda não sabes o que te faz feliz, respira. Não és o único ou única. Pára por uns tempos e, se precisares, fala disso com os teus amigos, com a tua família. Leva o teu tempo, seja ele muito ou pouco. E nunca, nunca te esqueças, que a única coisa que rima com felicidade é responsabilidade. De não a entregares ao diabo, de não deixares que ele leve a cabo, de não viveres os teus dias com a cabeça no futuro ou no passado.

purple and white flower in persons hand

Mais lidos

Intimidade

Estava sem sono e decidi escrever

Um ano de terapia