As laranjas do Tua

Sou de um sítio bonito. Torga chamou-lhe o Reino Maravilhoso e aqueles que já cá vieram, entendem na perfeição de onde vem este ideal. Os que nunca se ousaram a visitá-lo, apenas gozam de um imaginário fictício de vazio e abandono que é o interior-norte de Portugal. Destes últimos, tenho pena. Por isso, falo tanto deste meu cantinho e dos benefícios que ele me traz. Mudei-me para a cidade há 8 anos, e adoro-a! O corridinho, o barulho, o movimento, a multi tudo e mais alguma coisa, o rigor, a vida. Mas, sempre que regresso às origens, reencontro-me com a minha artéria aorta, que por vezes se entope de coisas que não sou, mas que rapidamente se liberta quando identifica o oxigénio transmontano.
Ontem, desafiada pela minha irmã, pela minha mãe e pelo M., calcei as sapatilhas e as meias brancas pé de gesso e fiz uma caminhada de 7km pelas encostas do Rio Tua. O deslumbre foi inevitável: a paisagem, a primavera, as borboletas (tantas!), as lagartixas, as cores e, como era de esperar, as laranjas que são, por acaso, o meu fruto preferido. A cada passo, uma laranjeira carregada de flores e fruto.

- Eu sei que não se deve, mas estas laranjas estão mesmo aqui à mão de semear... - disse eu.
- Não, não vamos roubar laranjas. E se vem o dono? - repreendeu a minha irmã.
- Oh, eu conheço o dono. Se ele aparecer, digo-lhe que estava só a tirar uma ou duas para provar. Também, não se podem estragar nas árvores, não é? - disse o M., ansioso como eu por provar daquele sumo vitalizante que a terra quente do Tua dá.

Descemos uma encosta, fomos ao encontro da primeira laranjeira que encontramos e colhemos quatro laranjas, uma para cada um.


 E, assim, seguimos caminho, com a barriga mais feliz e aconchegada de sumo e amor. Uns metros mais à frente, a minha mãe vira-se e diz:

- Olha! Foi aqui que outro dia ofereceram laranjas ao teu pai. Estas também devem ser bem boas!
- Pois devem... mas já tiramos quatro laranjas ali atrás, não vamos fazer o mesmo aqui. - disse eu.
- Concordo - voltou a repreender a minha irmã, ainda que se tenha consolado com a laranja que eu lhe tinha dado uns minutos antes.
- Boa tarde! - ouviu-se.
- Ui... está aqui gente. - dissemos.

Surpreendidos pela companhia, paramos e respondemos quase em uníssono:

- Olá, boa tarde!
- Vocês tirem laranjas! Quantas quiserem! Estão aqui para se comerem! - disse o dono do pomar que, acompanhado pela sua esposa, andava como nós a namorar as margens do Tua e o sol de abril.
- Não queremos, muito obrigado! Já comemos ali atrás. - respondeu o M.
- Oh, já comeram ali atrás, mas não comeram destas! Aliás... espere lá... eu estou a conhecê-lo. Você não é filho de um senhor assim p'ró baixinho? - perguntou o senhor.
- Opá, por acaso sou filho de um senhor assim p'ró altinho. - respondeu o M. Todos nos rimos, porque, de facto, o pai do M. é tudo menos baixinho.

Durante este tempo, em que os olhos passam por nós de cima a baixo na tentativa de decifrar os nossos parentescos, o dono do pomar começou a colher laranjas e a oferecer-nos insistentemente. 

- Vá, pegue lá só estas para provar! - disse em tom de ordem.
- Está bem! Mas só uma, que nós não andamos aqui para comer as suas laranjas. - dissemos.
- Mas olhe lá, você não me conhece da Caixa? Estou lá todos os dias e já o atendi várias vezes. Aqui estou é sem gravata! - continuou o M.
- Ahhhh! Eu nem o estava a conhecer. Oh Sr. M., por amor de Deus! Você costuma andar por aqui?
- De vez em quando. Às vezes gosto de fazer esta caminhada. E chame-me só M., deixa lá o senhor!
- Então olhe, de cada vez que passar aqui, você atire-se às laranjeiras e coma!!! Aliás, venha cá acima e coma já estas, que são uma maravilha! Mas sem abraços e passou-bem, porque não se pode agora...

E assim foi. Eu e o M. subimos ao pomar, enquanto a minha mãe e a minha irmã mantinham uma conversa paralela com a esposa do senhor das laranjas.

- Eu já a estou a conhecer. Estas já são as suas duas meninas? - perguntou a Dona A.
- Já sim. Já estão as duas crescidas, formadas e a trabalhar. Agora que estamos em casa, andamos a aproveitar o bom tempo para espairecer a cabeça.  - respondeu a minha mãe.
- Fazem muito bem! Isto aqui é muito bonito e as laranjas são ainda melhores! Comam! Comam!
- Muito obrigada, Dona A.! A sério! Já enchemos a barriga de laranjas e não queremos mais, mas aceito essas que está a colher para levar para casa. Você não vende laranjas? Se vender e as levar até lá cima, eu vou a sua casa comprar-lhas. - disse honestamente a minha mãe.

Ao qual o dono respondeu:

- Vender? Nada disso! Isto é para se dar e se aproveitar. E você, Sr. M., sempre que aqui passar, suba cá cima e coma laranjas! E leve para casa! Assim até ajuda a guardar o sítio e espanta quem não vem por bem.
- Olhe, muito obrigado. - respondemos todos sensibilizados com o gesto, enquanto eu e a minha mãe enchíamos as mochilas de laranjas que a generosidade decidiu oferecer.
- Não têm de agradecer! O gosto é todo meu.
- Obrigado, a sério! Mas bem, vamos andando, que já se faz tarde e ainda temos p'rai 1km de caminho pela frente. - dissemos todos.
- Sim. Aproveitem! E já sabem: sempre que aqui passarem, sintam-se convidados a subir e a apreciar a vista com a companhia destas laranjas que, por acaso, são as melhores do mundo! - disse o casal.
- Com certeza! Iremos fazê-lo! Obrigada! Boa tarde!
- Boa tarde! Adeus.

E assim fomos. Mais carregados, na barriga e nas mochilas, mas também na alma e no coração. Sempre que me disserem que não é possível ouvir generosidade ou provar grandiosidade, eu vou-me lembrar desta conversa e do sabor destas laranjas. Quando eu cá vivia e isto era o pão nosso de cada dia, o valor que eu dava a estes gestos era pouco, porque os dava como garantidos, como corriqueiros, como coisas do dia-a-dia. Agora que a minha vida à cidade pertence, cada vez mais aprendo a apreciar os pequenos gestos que, apesar de existirem na cidade onde vivo, são cada vez menos comuns. O Porto deu-me muito, muito mesmo. Uma dessas coisas e das mais valiosas foi a distância física e emocional dos meus e, com ela, a capacidade de decifrar através dos cinco sentidos aquilo que verdadeiramente me faz feliz, me faz falta, me faz farta. E isso passa inteiramente por histórias destas como a que vos contei e que ao trigésimo quinto dia de quarentena me voltou a escarrapachar na frente o verdadeiro significado de gentileza, de dar sem receber e de amar por gestos e atitudes. Por isso, um obrigada. Ao senhor do pomar, à minha família, ao Tua, a Trás-os-Montes, às minhas raízes e a mim, que faço por alimentar sempre que posso esta paixão por Casa e espero nunca a deixar morrer.

Mais lidos

Intimidade

Estava sem sono e decidi escrever

Um ano de terapia