Cliché
Da mesma forma que não há mal em ter dias maus, também não há mal em levar com uma chapada de realidade, para ver se acordamos para a vida.
Na manhã seguinte a ter assumido aqui que me tinha ido abaixo, sem saber muito bem porquê, acordei com um vídeo da Renascença, onde a Catarina Furtado falava da situação dos refugiados na Grécia. Que o vírus já lá tinha chegado. Que estava o caos instalado. Que a vida daquelas pessoas estava deixada ao acaso. Pessoas normais, famílias como as nossas, fogem das suas cidades no momento em que estas são bombardeadas de ódio, obtusidade e corrupção, na esperança de encontrar a terra justa e humana da Europa. No entanto, ao contrário das suas expectativas, são recebidos com campos cheios de ratazanas, com casas de banho que servem 90 pessoas e com a ironia colada nas paredes, que se enchem de medidas preventivas contra o Covid-19, mas que não são coerentes com a inexistência de água nas torneiras.
Aquelas pessoas vão morrer ali, disse a Catarina. Soco no estômago. Ainda umas horas antes tinha estado com mimimis sobre uma dor de cabeça e, ao mesmo tempo, há pessoas longe das suas casas. E a causa deste êxodo é conhecido. Chama-se guerra, violência, desespero. Sou da opinião que não podemos estar sempre a comparar-nos com o extremo, porque nele existem diferentes polaridades e se há opostos, há também egos, conflitos e a incapacidade de viver o presente. Ainda assim, estes abanões de vez em quando só nos fazem bem. Porque tocam, mexem e remexem a ferida da ingratidão e esfregam-nos na cara que o bom e o mau é muito relativo. É subjetivo e dependente daquilo em que acreditamos, desde sempre, ser algo positivo ou negativo. Claro que é mau acordar sem vontade para nada, com dores de cabeça e com o norte perdido. Mas isto só é mau, porque nos comparamos aos dias fantásticos em que acordamos com molas nos pés, com vida para enfrentar mais um dia e, em vinte e quatro horas, somos super heróis no que respeita à produtividade. Agora, se nos compararmos à realidade alheia (e, por isso, tantas vezes não nos interessa) e infeliz dos refugiados, percebemos que tudo o que eles queriam neste momento era trocar de posição connosco, mesmo que isso implique acordar numa cama com roupa passada, ter uma mesa posta com uma refeição cozinhada pela mãe, ter água para beber e tomar banho e um olhar infinito que tem o som da paz.
Quando pomos as coisas nestes termos, entendemos que o facto de estarmos aqui é motivo mais do que suficiente para vermos o copo meio cheio. Um luxo que, nem nos pode impedir de querer mais e ser ambiciosos, mas, mais importante, tem de servir para nos lembrarmos todos os dias que somos abençoados com o melhor presente de todos: a vida. Cliché, eu sei. Mas os clichés só são clichés, porque são verdade. Então, mais clichés, por favor, se é isso que falta para nos avivar e nos despertar o sentimento do amor.
