Não há mal em ter dias maus

Ontem fui-me abaixo. Ao dia 13 de abril e dia 30 de isolamento, tive um dia pesado. Não sei se foi do tempo incerto lá fora, da falta de uma Páscoa normal e todos os lamentos à volta disso ou da quarentena já ser rotina. A causa do problema não sei bem qual foi, mas que um mau estar físico me bateu ontem à porta a fazer pendant com a pseudo insanidade mental com que acordei, lá isso é verdade. Estou a dizer isto, com todas as letras, vírgulas e pontos finais, porque tenho tentado ser honesta comigo. Entendi que a falta de honestidade própria traz dor. Que pode matar, mas que, primeiro e durante muito tempo, mói, porque não somos feitos de pregos e parafusos. É normal ter dias menos bons e não há mal nenhum nisso. O que é mau é entrar em negação e lutar com espadas e escudos contra a verdade. Tentei escapar à frustração ao escrever no meu diário as coisas boas que preciso de inspirar e as coisas menos boas que tenho de expirar. Depois, meditei e esforcei-me por aplicar na prática o que passei para o papel, mas não tive sucesso. Pelo menos imediato. Talvez este exercício tenha funcionado como sementes deitadas na terra que amanhã vão dar uma árvore de fruto. Talvez o esforço durante aqueles 5 minutos de meditação me dêem plenitude total no final da semana. Acredito que sim. Contudo, na inquietude desta segunda-feira e farta de ouvir a mente a dizer que dia de merda está a ser este, achei sensato tomar uma atitude que acreditei trazer-me alento imediato. 
Olhei para a janela e o sol estava a piscar-me o olho por trás das nuvens cinzentas de trovoada. Enfeitiçada por ele, enfiei-me na banheira, pus duas minis dentro da mochila, peguei no carro e na Catterfly e fugi. Ontem a casa não estava a ser boa companhia, pelo que procurei a paz e a felicidade no maior dos meus refúgios, que é verde, imenso e fresco, tem como banda sonora o chilrear dos pássaros e como horizonte as curvas e contracurvas das vinhas douradas. Bastaram duas meias horas para a dor de cabeça abrandar, o coração desacelerar, a energia sã se restabelecer e a esperança florescer. A natureza é perfeita e, como tal, tal qual a Capicua, eu também quero uma casa no campo. A quinze minutos da confusão e com uma vista magnífica para ela, mas com o maior privilégio de todos que é acordar com as folhas das árvores a bater nos galhos ou o galo da vizinha a fazer corococó. No betão, todos os sons da natureza se materializam através de músicas perdidas em playlists do spotify da categoria focus, relax ou meditation. No campo, não. No campo, a meditação é guiada pela música que entra pela janela, pelo cheiro da terra molhada quando chove ou pela buzina do padeiro que finalmente nos veio vender pão fresco à porta, com as mãos que o amor amassou. Ontem, apesar da nuvem negra que me deu os bons dias e me deu sombra durante algumas horas, também tive muito disto que a casa no campo dá sem pedir nada em troca. 
Afinal, analisando o que realmente me interessa, este dia 13 nem foi assim tão de azar. Pior, só mesmo achar que quase deixei que o dissabor me vencesse, que a negação me afundasse e que o pijama me impedisse de aproveitar um dos céus mais rosa algodão doce desta quarentena. Assim sendo, um brinde mim, a nós! Que, habituados anos e anos a viver em liberdade, ainda não sabemos muito bem lidar com isto do confinamento por tempo indeterminado e que, por isso e por termos sangue a correr-nos no corpo, é normal o fusível aumentar a temperatura. Vital é não deixar que ele queime, que aí é capaz de ser mais complicado. Agora, enquanto houver vontade de encontrar uma solução após levantar um problema, enquanto nos recusarmos a ser vencidos pelo desânimo e enquanto tivermos catarinas disponíveis para nos aturar, é agradecer. Muito e sempre, ao acordar e ao deitar. E, adaptando-nos aos dias de hoje e que não são certamente para durar, é sussurrar bem alto e a toda a gente como o Bruno faz: “aguenta-te firme que vai ficar tudo bem. Vai ficar tudo bem." 


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