Palmeira à beira caos plantada
Da janela da sala, perto do meio dia, com a luz a bater na cara, acordou. Água com limão, gengibre e curcuma, uma laranja e um café. Está outra vez sol! De fundo, vozes. Em primeiro plano, o livro. Fala do poder do agora desde o início e repete-o em todas as páginas. Tem feito questão de respeitar os princípios de tal obra e, por isso, enche-se de coragem. Almoça, veste-se, desabafa, boné na cabeça e sai. Segue os pássaros, o vento e o barulho da água a cair no chão. Senta-se e liga. Desliga e respira. E deixa que o passado apareça, exatamente no momento seguinte. Quão traiçoeiras são as doenças do ego! Volta a respirar, bem fundo, três vezes muitas vezes. E a paz do agora regressa. Que alívio! Está feito. E bem feito. Volta para casa e aprende um pouco mais sobre ser mais ela. Que inspiração és, girl on fire! Nisto, celebra-se hoje o dia mundial da consciencialização do autismo, que não é uma deficiência, não é uma doença, não é uma incapacidade, mas apenas uma forma diferente de ver o mundo. Pouco e pouco, as crenças dolorosas desfazem-se e dão lugar a outras tantas, estas vulneráveis. Vulnerabilidade é a palavra preferida do momento. Vulnerabilidade é poesia. É coragem. É força. E, por isso, inspira! Porque é de carne e osso. Os robôs nunca vão vingar, porque não sabem o que é vulnerabilidade. Da mesma forma que muitos de nós não vingam pelas mesmíssimas razões. Porque negligenciam o que os robôs mais querem e querem ter a todo o custo o que só os robôs têm. Já depois de jantar, desliga-se do mundo e mergulha no cinema turco. Quão arrebatadora é uma história que conta o significado de generosidade, transparência e amor incondicional. Quão verdade é que gentileza gera gentileza. Na presença de um coração puro e pleno, até os piores dos criminosos e porcos corruptos são capazes de quebrar. Amarras que se soltam, clarão que do interior aparece. Impactada, de várias formas e feitios, é como se sente hoje. Antes do fim do dia, ainda houve tempo para confidenciar o seu segredo à pessoa estrela iluminada da vida que sabe tão bem como ela que "não há luz nas trevas". Depois de terem partilhado o mesmo céu, acabam o dia a partilhar o mesmo amor, orgulhosas do percurso e de se inspirarem mutuamente muito além do veículo que as pôs no mesmo caminho. Pensar dói, mas quando há a capacidade de tornar a dor em força, pensar dá frutos, que só surgem depois de haver uma raiz. Essa, não mente. Ou se nasce para se ser dente de leão ou para se ser palmeira à beira caos plantada. Venha o que vier, digam o que disserem, toda a gente vai sempre preferir uma paisagem com palmeiras, mesmo que não tenham noção do quanto custa ser-se assim. Sem estrutura emocional para adicionar mais uma linha, com Mozart de fundo e com os gatos no fundo dos lençóis, despede-se deste segundo de abril comprometida a não deixar nada por dizer, nem nada por fazer. Também ela achava que o vírus não ia chegar cá. Mas chegou. O melhor momento para se deitar com a consciência tranquila foi ontem. O segundo melhor momento é hoje. E foi. Amanhã pode ser tarde de mais. Mas não vai ser.
