O racismo existe mesmo
Querida comunidade negra,
Hoje, é por vocês e para vocês que escrevo. Hoje, só vocês importam. Hoje, não é terça-feira nem o Instagram está cheio de imagens pretas. Hoje, a hashtag #BlackLivesMatter já não está trendy no Twitter. Hoje, o que aconteceu ao George Floyd está prestes a ser arquivado na gaveta de indignações efémeras que todos nós temos. Não obstante, hoje, ainda há racismo em Portugal e no mundo. E, por isso, a todos os homens, mulheres e crianças negras, as minhas desculpas.
Estou há praticamente sete dias para escrever este texto. Todos os dias durante esta semana, levantei-me da cama com esta tarefa em vista. Contudo, a informação nova a chegar era tanta que tive de tirar tempo para absorver, refletir e formar uma opinião sobre o assunto, de modo a escrever algo com pés e cabeça. Esta é a merda de desculpa que eu dou a mim própria por ainda não ter escrito acerca disto. Agora a verdade: o racismo existe mesmo! Tenho 26 anos, só agora despertei para esta problemática e não sei se estou preparada para falar sobre isso e para assumir que, consciente ou inconscientemente, eu já fui racista.
Esta minha verdade pode facilmente ser confundida ou até mesmo substituída por egoísmo. Sou a primeira a assumi-lo, até porque uma das conclusões às quais cheguei nestes últimos dias foi que, efetivamente, nós, seres humanos, somos profundamente egoístas, frutos de um sistema sujo, repugnante e ignorante, que insiste em semear nas nossas crenças que a linha imaginária que existe entre os países serve para nos segregar como raça humana. Tais fronteiras levam, como tal, a pensamentos racistas e preconceituosos, com base no ódio e na oposição, e que dão origem a posicionamentos que variam entre "porque é que te preocupas em ajudar os refugiados e os pretos e não te dedicas a ajudar os portugueses que passam mal?" ou "não é só a vida dos pretos que importam, a minha vida também é importante e os brancos também sofrem." Não, não vou cair mais sobre este assunto, porque a internet no geral já fez questão de ilustrar com bastante clareza que defender as vidas negras não é sinónimo de desvalorizar as outras vidas. O que eu aqui quero realçar é a forma automática e intuitiva como tornamos tudo à nossa volta sobre nós próprios. Parece ser cada vez mais difícil calçar os sapatos dos outros, ver através da sua perspetiva, e cabe-nos a nós, gerações presentes e futuras, não semear aos poucos estes valores na sociedade, mas sim lavrar, sachar, sujar as mãos de sol a sol, todos os dias da nossa vida, até ouvirmos falar do racismo como algo do passado. Li hoje num livro que as grandes mudanças não vêm aos poucos, mas sim em vagas. Esta é a nossa vaga. A morte do George Floyd veio escancarar a vergonha do mundo racista em que vivemos e cabe-nos a nós honrar e cumprir aquele que eu acredito que foi o propósito da sua vida: deixar de respirar em frente a todos nós para ser bomba de oxigénio que dá à luz um mundo que não distingue cor, cabelo, língua ou passaporte.
Podemos começar já pelas próximas eleições. Mais uma vez, aqui estou eu, a assumir o quão má cidadã tenho sido nos últimos anos. Não me lembro da última vez que fui às urnas votar. Antes chamava-lhe desinteresse político. Hoje chamo-lhe privilégio: não o de votar, mas o de não ir votar. E o que me deixa mais desiludida comigo própria é o facto de ter sido preciso filmar-se um assassinato no outro lado do oceano para me fazer entender a urgente e gritante necessidade de mudança. Nunca fui indiferente a este assunto e sempre me emocionaram muito os filmes, testemunhos e documentários que vi sobre abuso de poder e escravidão de branco para preto. Ainda assim, a achar que faria a diferença, a tendência inocente foi sempre ficar chocada durante umas horas, partilhar com algumas pessoas a perturbação que senti e acordar no dia a seguir com amnésia. Podia por as culpas na era da informação em demasia na qual vivemos, que nos bombardeia diariamente com causas e lutas, movimentos e petições, e que quase nos obriga a dar a cara por elas se não queremos ser julgados. No entanto, isto é nada mais do que uma distração do nosso ego para aquilo que realmente importa: agir, com a certeza de que o nosso ato vai realmente fazer a diferença. E um exemplo disso é o ir votar. Cheira a fascismo na televisão, nos jornais, na assembleia e nas ruas. Que não o deixemos vencer.
Vulnerável e nua, é como me sinto neste momento. Ontem saí à rua, misturei-me com as centenas de pessoas que deram voz a esta luta e limitei-me a calar-me. Observei, escutei e calei-me. Primeiro, porque me sentia envergonhada por ainda não ter contribuído ativamente na abolição do racismo. Segundo, porque para os meus olhos se encherem de água, a minha garganta teve de secar. Queria ter gritado com todas as forças "Não consigo respirar! Não consigo respirar!", mas não consegui. Emocionei-me muito, parei no tempo, congelei. A certa altura, olhei para o meu lado esquerdo e vi uns olhos negros e fixos, um corpo pesado e cansado, um punho firme a apontar para as estrelas e uma voz calada não pela vergonha, mas pela saturação. Apesar de não saber nada sobre aquele rapaz com uma camisola cinzenta às riscas vermelhas, vejo hoje nele a personificação de uma comunidade farta de viver com a desigualdade, quando, no fundo, a única coisa desigual que ela tem em relação a nós é a cor da sua pele. Hoje, tenho consciência da realidade, que nada tem que ver com aquela que nos chega através dos media. Hoje, quando me cruzo com alguém cuja cor da pele é diferente da minha, sem me esforçar muito, o primeiro pensamento que tenho é "F*da-se, estou contigo!". Hoje sei que sou uma priveligiada por ser branca e que nunca irei entender o movimento #BlackLivesMatter na totalidade.
Não obstante, hoje, estou aqui, desarmada e com a mente aberta, disposta a aprender, evoluir e estudar sobre o assunto. A argumentar contra qualquer tipo de ideologia racista/fascista e a ser uma cidadã ativa nesta luta que é de todos nós. A usar o meu privilégio por vocês, já que a vossa cor não tem sido suficiente. A viver a vida aos olhos de alguém que vê além da epiderme e a educar quem ainda não o faz, transmitindo, acima de tudo, que a raça que realmente interessa é única e só uma: a raça humana. Que apesar de estar a provar ser a maior pandemia da história do planeta, merece uma segunda oportunidade, desde que esta se baseie na tolerância, no respeito, na aceitação, na paz, na solidariedade e no amor.
Será pedir muito?
