Rescaldos de quarentena

Após 4 meses de ter sido mandada para casa à força, é claro como a água na minha cabeça o quão 2020 era necessário na minha vida. Nas nossas vidas.

Penso nisto e vou de volta a 2019. Aqui se deu o início de umas das mais bonitas jornadas de sempre: a da cura e do amor próprio. Talvez alguns de vocês, após terem lido a última frase, já desistiram deste texto. Não pelo seu tamanho ou qualidade, mas porque é cada vez mais difícil falar de amor. Já era. Aliás, sempre foi. Não me lembro de conhecer alguém que fale de amor aberta e livremente, independentemente do seu contexto. Falar de amor é tabu. Falar de amor é, também, necessário. E praticá-lo, então, é uma urgência. Ainda assim, não há amor nas ruas e o ódio gratuito deixou de ser considerado inaceitável para ser uma questão de opinião. A intocável. A inalterável. No entanto, esta lacuna no que diz respeito ao amor explica-se pela falta de coragem em amar de dentro para fora.

E é aqui que surge a cura. Não quando há falta de bravura, mas quando nos obrigamos a parar, sem que haja um despacho, uma lei, uma proibição de uma entidade superior que é também vulgarmente intocável. E foi isto que me aconteceu. Cansei-me de viver de heterónimo em heterónimo, de não conseguir ver o meu corpo por dentro, mas senti-lo doente, de não suportar mais o peso da capa de super heroína e de usar uma máscara que em vez de me proteger dos vírus do mundo, acabou por me transformar num deles. Então, decidi parar, como se de uma quarentena voluntária se tivesse tratado e longe de imaginar que, meses mais tardes, seria obrigada a parar novamente, desta vez não por escolha, mas por falta da mesma.

Encarar os meses de quarentena com a minha presença assídua 24 horas por dia foi uma das experiências mais gratificantes da minha vida, apenas porque, três meses antes, já tinha induzido este conceito de cura no meu dia-a-dia. Estou certa de que se não fosse esta pré-época no que diz respeito à competição que é a vida, que a altura do confinamento tinha acabado por me destruir. Como, de facto, acabou por destruir muitas vidas por este mundo fora. E não, não foi por tédio, aborrecimento, nada que fazer, angústia ou medo do futuro. Foi, sim, unicamente pelo primeiro e único confronto diário com o espelho, por não se suportar a própria companhia, por sermos, para nós próprios, demasiadas vezes, o nosso pior inimigo. A vulnerabilidade encontrada nestes momentos assusta-nos, porque junto dela vêm associados pensamentos de fracasso, insegurança, fragilidade ou expectativas traçadas, mas não cumpridas, e na correria do quotidiano é muito mais fácil esquecer tudo isto e encontrar refúgio no trabalho, no ginásio ou nos copos, do que encarar estes fantasmas de frente e decifrar se eles existem mesmo ou se não passam de uma fantasia de desenhos animados. O que acontece numa quarentena é que, na falta desses fatores distrativos, ao final de algum tempo, não sobra espaço ou tempo para se fugir mais à realidade, por mais que esta doa. E, digo-vos, dói. Muito. Da mesma forma que dói acordar todos os dias às 5 da manhã e trabalhar de sol a sol na vinha, a plantar amor, atenção e dedicação àquelas videiras que irão dar uvas, uvas essas que estarão presentes em forma de vinho nos nossos copos e que irão assistir a brindes de celebração, alegria e, uma vez mais, amor. 

O que eu descobri com 2019 e com esta metade de 2020 é que, durante muito tempo, eu fui uma agricultora esforçada, trabalhadora e guerreira, que plantou muitas sementes, que colheu muitos frutos, que fez muitos brindes, mas que tarde percebeu que se esse cultivar não começar no lugar onde moram os sentimentos, os valores e a consciência, por mais cheio que estejam os copos, os olhos vão sempre vê-los meios vazios. E foi isto que este tempo me deu. O despertar e estar em paz cá dentro para ajudar e ser tolerante lá fora. Ainda me esqueço de como é saber o que sou, o que quero, porque estou aqui e como amar-me primeira e incondicionalmente. No entanto, é cada vez mais inata a capacidade de me ajoelhar perante a dor e perguntar-lhe se tem a honra desta dança. Às vezes, dançamos salsa e deixamo-nos levar pelos ritmos latinos quentes; outras vezes, somos dupla no hip hop que, com irreverência e excentricidade, conquistamos o público; também há dias em que a calmaria, complexidade e delicadeza do contemporâneo toma conta de nós; não obstante, assumo que sambar com a dor tem sido o nosso estilo preferido, servindo cada passo, movimento de anca ou balançar de braços para excluir toda a maldade, toxicidade e impiedade que pratiquei, tantas vezes, contra mim mesma. Continuam a haver muitos picos, muitos vales, muito questionamento e muita inquietação. A diferença agora é que recorro às coisas certas para me restabelecer que são, na grande maioria das vezes, grátis. Aqueles que não desistiram do texto lá cima, se calhar acabaram de se arrepender de ter chegado até aqui, porque cliché. A estes, força. Ainda há um caminho muito longo para percorreres e espero sinceramente que o pises antes do teu dia chegar. Aos outros, os que estão neste momento a sorrir e a acenar com a cabeça por concordarem comigo, obrigada. Por me lerem, por estarem desse lado, por partilharem comigo esta quimera e por sentirem, mais do que nunca, que este é o lado certo da barricada: o do amor.


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