Not today, Satan
Li há uns dias uma frase que me ficou na cabeça por ser tão simples e tão verdadeira. Dizia que "o problema do mundo é a quantidade de pessoas boas que se acham uma merda e a quantidade de pessoas de merda que se acham boas". Parem para pensar nisto e vejam se é ou não verdade. A prova disso é, por exemplo, a praga de pequenos nazis que se está a propagar como ervas daninhas e que, em alto e bom som, sempre e cada vez mais, ousam gritar a sua opinião extremista e preconceituosa. Para ter esta coragem é preciso ter-se a certeza absoluta da segurança das nossas palavras. E tendo em conta a voz que estão a ganhar, faz parecer que se acham mesmo boas pessoas, capazes de mudar o mundo para melhor, apesar de não passarem de um valente montinho de merda.
Por outro lado, se querem um bom exemplo de pessoas boas que não se acham assim tão boas: olá, muito prazer, o meu nome é Inês. Sou a favor da vulnerabilidade e acredito que ninguém se inspira pela perfeição de alguém, mas sim pela forma como esse alguém lida com as suas imperfeições. Já passou o tempo de negar aquilo que sinto e de deixar morar na minha garganta aquele caroço sufocante, de quem quer dizer e não tem coragem. Sou assumidamente o meu maior inimigo e descobri recentemente que esta sensação de nunca ser suficiente, este sentimento de fraude, tem um nome. Chama-se síndrome do impostor, afeta homens e mulheres, manifesta-se através de uma voz, não mata, mas mói. Os sintomas variam, mas pensamentos entre "eu não sei fazer nada e ando a enganar toda a gente" ou "eu não sou motivo de orgulho para ninguém, mas sim uma desilusão" aparecem muitas vezes. Há dias em que dá vontade de mandar a toalha ao chão e abraçar esta voz, tal ato de rendição; há outros em que o perdão é o elixir, não dando lugar à culpa; e os dias que eu mais gosto são aqueles em que é tão forte a minha muralha que, mesmo que o vento esteja a favor da voz e venha com toda a fezada do mundo que vai conseguir invadir o meu castelo, os meus soldados não lhe dão a mínima hipótese.
É fácil decifrar os fatores que influenciam os meus dias e que enfraquecem ou fortalecem a minha armadura. Sempre que eu me esqueço do que sou, de onde venho e para onde quero ir, é vitória garantida para o impostor. Sem esforço, ele rapidamente passa de um pequeno satanás em cima do ombro para a corrente sanguínea, transformando-me nele próprio. É como uma intoxicação alimentar: depois de absorvido o que nos faz mal, ainda demora uns quantos sintomas e dias até recuperarmos novamente a nossa melhor forma. E é aqui, quando vamos lá em baixo ao vale que temos de parar no tempo e voltar a relembrar o que somos, de onde viemos e para onde queremos ir. Neste processo, bem como todos os dias, a todas as horas, é fundamental estarmos atentos para que a nossa linguagem mais profunda, verdadeira e genuína não se confunda com a da voz. Caso contrário, a visita ao vale será garantida. Por outro lado, a boa notícia é que a seguir a um vale há sempre um pico. E é a esta beleza colateral e a esta esperança de que amanhã será sempre um dia melhor que eu me tento agarrar com unhas, dentes, cabeça e coração.
Acredito que a era da informação na qual vivemos nos estrangula diariamente e que se não formos inteligentes a filtrar o que vemos, quem ouvimos ou por quem nos rodeamos, é muito fácil a transição de alguém com confiança e segurança para alguém com incertezas e inquietações. Ler todos os dias as coisas pelas quais estou grata, os meus objetivos a curto, médio e longo prazo, escrever os meus dias num diário e buscar satisfação intelectual nas páginas dos meus livros e não nas redes sociais ou nas notícias dos jornais, ajuda-me a fintar com brio este impostor que, apesar de viver dentro de mim, não pode ser parte de mim. Peco por não ser consistente nestes hábitos e, por essa razão, tantas vezes o impostor vence a batalha. Ainda assim, se há cliché que se aplica muito bem aqui é que não é por se vencer uma batalha que se vence a guerra. Por isso, podes ter ganho ontem, anteontem ou até a maioria dos meus dias passados... but not today, Satan. Hoje, sou eu dona e senhora do meu destino, da minha mente, dos meus sonhos, das minhas ideias, do meu presente, do meu futuro e da minha certeza de que, apesar do mundo estar cheio de pessoas de merda que se acham boas, eu pertenço efetivamente ao grupo das pessoas boas que vão fazer a diferença no mundo, que lutam por aquilo em que acreditam contra todas as odes e que, vendo bem com o coração, não são assim tão uma merda.