A masculinidade tóxica
"Os meninos não choram!"; "Se chorares, chamo o polícia!"; "És o homem da casa, ganha coragem!"; "O homem é forte, não vacila, muito menos em frente à família"; "Homem sensível é homem fraco"; "Não sejas maricas/menina!"; “E as namoradas, já tens? Quantas?”. Conseguem ouvir os vossos pais, avós, tios e tias a dizer isto, não conseguem? Pois bem. Estas são apenas algumas crenças que se entranham no subconsciente desses meninos e que, mais tarde, já homens, os faz verdadeiramente acreditar que assumir a sua masculinidade passa por muita coisa, menos praticar uma verdade que se coaduna a duzentos por cento com a vulnerabilidade. Não mostrar emoções, dizer que está tudo bem, ganhar mais do que a mulher, ter conversas ordinárias e muitas vezes constrangedoras quando se juntam com os amigos-homens, assediar uma mulher só para se afirmar, gostar e consumir pornografia, ter um grupo no Whatsapp cujo conteúdo é para lá de desrespeitoso e obsceno, partilhar esse conteúdo, perder a virgindade mal descubra o que é o sexo, não dizer que está verdadeiramente apaixonado ou não chorar, são apenas alguns destes tristes exemplos que, além de estarem totalmente carregados de toxicidade, exercem uma pressão no sexo masculino que termina, em casos de acentuada escuridão e desespero, no termo à própria vida.
Penso que tudo isto tem origem nos nossos antepassados que, por sobrevivência, acreditavam que caçar e lutar pertencia ao homem e cuidar e amar pertencia à mulher. Os anos passaram, muitos anos até. Revolucionou-se a agricultura e a indústria, desenvolveu-se a ciência e criou-se a internet. Ainda assim, a sobreposição do homem à mulher continua presente no nosso quotidiano e, apesar da desvantagem ser claramente a favor da mulher, também o homem sofre com este machismo nefasto que ainda perdura na nossa sociedade. Se já deram por vocês a ser prejudicados no vosso contexto familiar, na vossa relação amorosa, no vosso grupo de amigos ou no vosso trabalho por apenas exercerem a condição de homem, talvez valha a pena pensar sobre isto e entender definitivamente que o ideal de homem macho, que não fracassa, que é duro de roer, e que e, no pior dos cenários, é violento, já não está na moda.
Vou contar-vos uma história que ficará para sempre gravada na minha memória. Em 26 anos de vida, só vi uma vez o meu pai a chorar. Foi na morte do meu avô, no velório, e aquele estado de extrema vulnerabilidade, mesmo que tenha durado apenas alguns minutos (porque ele rapidamente teve de se recompor e dar a cara pela família de mulheres a todos os pêsames que não paravam de chegar), mexeu eternamente comigo. "O meu pai está a chorar...", lembro-me de pensar com espanto, angústia e, simultaneamente, algum alívio. “Afinal, os homens também choram, quebram e têm emoções! E está tudo bem com isso!!!". Contudo, depois deste dia, nunca mais vi o meu pai a expor de forma tão nua os seus sentimentos e, tudo isto, talvez tenha origem na educação rígida, diria até militar, que ele recebeu. A forma de amor de pai para filho é muitas vezes demasiado rigorosa e tem-se perpetuado de geração em geração. Sei que há pais e filhos que dizem um ao outro que se amam, que se beijam ao sair e chegar a casa e que choram no colo um do outro os desgostos de amor e não só quando o Benfica perde contra o Porto (e que bonito que isso é!). No entanto, creio que estes casos ainda não significam uma representatividade suficiente para dizer que estamos a dar a volta neste sentido e, assim, é vital que comecemos a ter uma consciência mais plena daquilo que iremos transmitir às gerações futuras, para que tenhamos meninos-homens saudáveis, confortáveis e felizes ao assumir sem vergonha a sua sexualidade, a sua (in)sanidade mental, os seus sentimentos, os seus medos e a sua verdade.
No dia em que vocês se recusarem a fazer algo "só porque são homens", a vossa vida, além de ser aproveitada com muita mais paz, confiança e harmonia, irá brindar-vos com as formas mais puras e genuínas de amor, tanto o próprio, como o vindo de alguém, quer seja ele homem ou mulher. Desta feita, homens desta vida, por favor: dêem-se à vulnerabilidade! Digam que amam quando amam, chorem no colo da vossa mãe e do vosso pai, liguem a um amigo e desabafem os vossos demónios, procurem um terapeuta se acham que precisam de ajuda profissional, gritem ao mundo que estão apaixonados e assumam a vossa sensibilidade perante os outros. Tirar a capa de super-herói e usá-la como lenço para limpar as lágrimas não é mais sinal de fraqueza, mas sim a personificação perfeita daquilo que é a coragem. E isso sim, conquista um lugar no coração de todos aqueles que têm o privilégio de se cruzar convosco. A depressão e a ansiedade existem, e não só moem, como também matam. Respeitem-nas, cuidem-se e abracem definitivamente esta aventura da verdade própria. Além de se tornarem melhores amigos, melhores pais e melhores filhos, garanto-vos que, no final do dia, as vozes que vos assombram constantemente irão facilmente ser destruídas pela paz interior que vos ilumina e que vos faz ter a certeza que todos os dias são dias de serem homens à vossa maneira e não à maneira do que vos disseram para ser.
E se precisarem de alguém para falar, sou toda ouvidos :)
*fonte: https://observador.pt/2019/09/09/ha-um-suicidio-a-cada-40-segundos-e-a-maior-parte-foi-de-pessoas-com-menos-de-45-anos/
**fonte: https://medium.com/revista-subjetiva/por-que-a-taxa-de-suic%C3%ADdio-%C3%A9-maior-entre-os-homens-1e558ca2a061
linhas de apoio à depressão/ansiedade: http://www.adcl.org.pt/observatorio/servicos.php?titulo=Linhas
