O tempo
Nunca subestimes o tempo. Começar este texto com a palavra nunca e referir-me ao tempo pode ser perigoso. Porque nunca, é muito tempo. Assim como o sempre é tempo a mais. No entanto, se desconstruirmos o tempo, percebemos que a sua intensidade varia na forma como olhamos para ele. Há horas que não passam, os dias são longos, os anos são curtos. E é quando nos distanciamos do tempo e observamos o que fizemos no último ano, nos últimos anos, que percebemos que o tempo, curto ou longo, tem muitas vezes o poder de nos surpreender.
Há 1 ano passava pela pior fase da minha vida.
15h15. Manteigaria. Céu nublado e camisolinha de lã. Já treinei, já meditei, já li e estou agora a escrever para me redimir de não o ter feito ontem (...)
Fez esta semana um ano que estive em Nice, que me declarei, que ao dia 4 tinha 20€ na conta e 0€ na conta poupança e que carregava dentro de mim um vazio absurdo. Estava há 1 ano na fase mais escura de sempre e foi há 1 ano que tomei a decisão de parar, olhar para dentro, ouvir-me e entender que se eu não me pusesse em primeiro lugar, o meu fim não ia ser só solitário, como também muito breve.
Escrevi estas linhas no meu diário, no dia 5 de novembro, e sempre que volto a este período enublado de 2019, apetece-me chorar. Primeiro, porque revivo a dor; mas principalmente porque me emociono. E é aqui que entra a história do tempo. Vivi muito tempo a subestimá-lo. Nunca me pareceu suficiente. Os dias passavam a correr e sempre que me deitava na almofada parecia-me sempre que não tinha sido razoavelmente produtiva. Se adiava 15 minutos o despertador sentia-me mal, se não rentabilizasse o tempo da manhã sentia-me abaixo de merda. Dizia que não tinha tempo, falhei com pessoas devido ao tempo e muitas vezes não fui a tempo de pedir desculpa. Fazia tempo que já não gostava de mim e que não sabia o que era a felicidade de ter tempo comigo. Viciei-me nele e culpei-o por tudo o que se passava na minha vida: ou não era o tempo certo, ou era tarde de mais, ou ainda tinha muito tempo. Até que decidi parar o tempo. Tirei as pilhas ao relógio, silenciei o ensurdecedor tic-tac na minha mente, ouvi o silêncio e entendi finalmente: a culpa não é do tempo. É minha.
Foi então que iniciei aquilo a que eu gosto de chamar de cura. E para eu iniciar esta cura foi preciso, primeiro, assumir que estava doente. Esta frase pode chocar, principalmente quem me conhece. Associamos frequentemente doença a algo visível e orgânico, como o cancro ou a diabetes, e por isso parece exagero assumir que há 1 ano eu estava doente. Mas não é. No dicionário, doença significa "falta de saúde" e saúde significa "estado de bem estar físico, mental e psicológico". Pois bem. Se se tratasse de um teste de saúde, eu chumbavam, porque nem física, nem mental nem psicologicamente eu estava bem. Acordei para esta realidade com um tratamento de choque, após um episódio na minha vida que pôs em causa todos os princípios e valores pelos quais me regia até então, e foi também aqui que decidi procurar ajuda perto de pessoas que me queriam bem pelo que eu era e não pelo que tinha ou pela potencial pessoa que podia ser. Junto dessas pessoas, no meio de intermináveis conversas, fui fazendo uma lista daquilo que eu tinha de priorizar para me curar e fui rigorosa em cumpri-la. Pela primeira vez, em muito tempo, tirei tempo para mim e despi-me da culpa de não fazer nada. Lembro-me de ter passado um dia inteiro de pijama, a fazer o que me apetecia, sem olhar para o tempo e a perceber aos pouquinhos que a importância do tempo está na forma como o relativizamos. Comecei a sentir-me livre. Uma liberdade que já não recordava, unicamente porque pela primeira vez, em muito tempo, pus-me em primeiro lugar. Qualquer decisão que eu tinha de tomar diariamente era sempre na base da mesma pergunta: "o que é que vai ser melhor para mim?". Na altura senti-me algumas vezes egoísta e perdi pessoas por causa disto. Em contrapartida, descobri que há uma alternativa para a palavra solidão, a solitude, e que é ela a base de toda e qualquer cura: cuidar de mim, gostar de mim, expressar o que sinto e o que penso e ser a pessoa mais importante da minha vida não é egoísmo, é amor próprio.
No dia em que descobri o que era o amor próprio, descobri também uma série de palavras bonitas que a ele estão associadas: vulnerabilidade, limites, respeito, verdade, tolerância, aceitação, transparência. Não quero com isto dizer que o amor próprio é como um tesouro, que está sinalizado com um X num mapa, com todas as coordenadas indicadas e que, quando encontrado, acaba-se o propósito. Não. Diria antes que o amor próprio é mais como uma planta. Começa como uma semente e é a dedicação diária e repetida de pequenas coisas que faz com que ela sobreviva, dê flores e frutos. Sempre que lhe falta o essencial, como luz ou água, a plantinha começa a definhar-se. E é o regresso aos processos mais básicos que faz com que ela se volte a erguer. Com o amor próprio é igual. Todos nós temos uma semente cá dentro que, assim que é descoberta, começa a mexer connosco, mas se não lhe dedicarmos todos os dias um bocadinho de tempo, ela não se vai tornar numa planta, nem talvez numa árvore, que dará flores e frutos. A árvore somos nós e, tal como as plantas precisam de luz e água, também nós precisamos de coisas simples para viver em amor incondicional com nós próprios. Foi preciso eu parar o meu tempo para perceber que a minha luz e a minha água passava por me vestir da forma que queria e me sentia bem, não cobrir a minha autoestima com base e pó compacto, beber um copo de vinho com os meus amigos sem preconceito, tirar tempo da manhã para mim, reduzir o uso das redes sociais, comer bem, treinar quando o meu corpo me pedia, ler livros que me tornassem uma melhor pessoa, escrever diariamente, meditar ao acordar e, acima de tudo, assumir as minhas vulnerabilidades como maior expressão de coragem. Nunca mais deixei que ninguém me dissesse como é que eu me devia comportar e respeitei com todas as minhas forças a minha essência. Há dias em que vacilo e que não cumpro aquilo que planeei no dia anterior, mas aprendi a ver o copo meio cheio e a olhar não para aquilo em que falhei, mas para aquilo que conquistei.
No início de 2020, tracei alguns objetivos profissionais e pessoais e, apesar de todas as ratoeiras que este ano nos trouxe, há uma premissa que eu escrevi em janeiro e que continuo a respeitar até ao dia de hoje: "2020 vai ser um ano para semear e trabalhar o meu lado mais humano. Se colher algo, é bónus. Se não colher, está tudo bem, desde que nunca pares de semear aquilo em que acreditas". Eu acredito que todos os dias posso ser um bocadinho melhor. Eu acredito que nasci diferente e para fazer a diferença. Eu acredito que a única forma de amar é amar-me primeiro. Eu acredito que a única forma de ajudar é ajudar-me primeiro. Eu acredito no poder do perdão. Eu acredito que controlar os pensamentos é sinónimo de sanidade mental. Eu acredito que uma relação não passa pela necessidade, mas pela complementação. Eu acredito que não sou superior ou inferior a nenhum ser vivo e vice-versa. Eu acredito que devemos praticar diariamente a mudança que queremos ver no mundo. Eu acredito na lei da atração. Eu acredito que nada é impossível. Eu acredito que a nossa verdade irá sempre libertar-nos. E tudo isto combinado, trabalhado e cimentado, trouxe-me uma noção de propósito e um alinhamento espiritual que hoje me traz uma paz interior e uma fonte de energia e inspiração inexplicável. O primeiro passo está em aceitar quem somos; o segundo passo está em amar quem somos; o terceiro deixo com o tempo, que hoje respeito e não me atrevo mais a subestimar.
Já não tenho 20€ na conta nem zero nas poupanças. Cuido de mim todos os dias, invisto em mim todos os dias e sou feliz na minha solitude. Tenho uma casa, amigos que me amam e aceitam, um emprego que me paga as contas e me mostra que trabalhar assim custa e não é o que quero para a vida, uma família com saúde e uma gata que passados 4 anos continua a deitar-se no meu peito ao adormecer e que ronrona como se fosse a primeira vez. Tenho muitos motivos para ser feliz e mal posso esperar pelo que a vida me reserva. Até lá, vou continuar a procurar significados nos números, a encontrar nuvens em forma de pessoas, animais ou coração, a cuidar das minhas plantas, a rir-me com a Bumba na Fofinha e a pedir uma colher de verdade na Manteigaria, não para mexer o café, mas para comer a nata às colheres e dizer sempre: "Esta foi a melhor nata que comi na minha vida!"
