Viana
Tenho pensado muito na morte. Não a temo, não deixo que ela me atormente, mas ultimamente tento encontrar um propósito para a morte, de forma a torná-la menos traiçoeira. Todo este filosofar começou devido a um vaso de crisântemos.
Quando saí do trabalho, fui ao Pingo Doce encher o frigorífico. Comprei mais uma planta, desta vez um crisântemo de flor amarela. A minha mãe disse que são as flores que se põem no cemitério agora no inverno, por se darem no frio. Agora, sempre que olho para o vaso, lembro-me da morte! No entanto, tal como li estes dias, "death is only the end if you assume the story is about you". E como eu não quero que a vida seja só sobre mim, talvez associar as flores à morte seja uma bonita homenagem ao legado que cada um de nós deixa quando parte para outra aventura. (14 outubro 2020, no meu diário)
Esta ideia ficou-me na cabeça. A morte é só o final de tudo quando assumimos que a vida é só sobre nós. Sempre que pensava nesta frase, ela fazia cada vez mais sentido, e o meu cuidado em ser boa pessoa com qualquer pessoa todos os dias passou a ser pensamento constante. Acho que é quando praticamos a bondade diária que estamos livres do peso na consciência quando a vida nos prega rasteiras e nos leva um pai, uma mãe, um amigo. Ainda assim, passar de pensamento a prática é um salto grande que poucos de nós dá. Por isso é que insistimos em encarar o 2020 como um ano muito cruel, enquanto continuamos a varrer poeira para debaixo do tapete. Não, 2020 não é só um ano muito mau. 2020 é um grito de desespero do Planeta, do Universo, de Deus ou seja do que for, que já perceberam que não é com falinhas mansas que vamos lá. Estamos a ser postos à prova e entrar em negacionismo de que é urgente mudar, não é a solução.
Tudo isto ecoa na minha mente todos os dias. Todos. Os. Dias. E vejo-me constantemente perdida no seio de um mundo barulhento. Então, por conforto e conformismo, frequentemente deixo-me envolver por este barulho e, em vez de silenciar o ódio e a falta de empatia exterior, silencio a voz da consciência interior e tento, como todos nós, passar pelos pingos da chuva sem me molhar.
Até que um dia acordamos com a notícia de que uma jovem cantora de 21 anos morreu.
Tenho sentido uma vontade de estar com os meus amigos, porque no dia 5 morreu a Sara Carreira, filha do Tony Carreira. Tenho visto muitas homenagens, mas um vídeo dela a cantar com os amigos não me sai do pensamento. "Fica só, só mais um pouco, para que não fique mais nada por dizer, entre nós, nós os dois". Assim diz a letra da canção. Toda esta situação comoveu-me e tenho pensado e filosofado sobre a morte. Já há uns tempos escrevi sobre ela, mas estes dias tenho-me questionado muito sobre o que quero deixar cá quando morrer. Esforçar-me-ei todos os dias para não tornar esta viagem apenas sobre mim, para a minha presença ser sentida durante muito tempo depois de eu ir. Não por mim, mas por eles, os que me amam. A vida é uma loucura que eu gosto cada vez mais de viver, mas é também efémera. Por isso, que nunca me falte clareza para ser todos os dias boa pessoa, porque nunca se sabe se irei a tempo, se não o for, de pedir desculpa. (9 de dezembro 2020, no meu diário)
E lá vamos nós outra vez. Falar com os amigos, ligar à família, prestar uma homenagem, pedir desculpa e dizer aos nossos que os amamos, num puro ato de desespero de limpar a consciência. "Nem quero imaginar se fosse comigo...". Egoisticamente, tornamos a tragédia do outro num medo muito nosso e aprendemos a ver a beleza colateral na morte de alguém que não nos pertence. "Isto serviu para eu me relembrar do quão grata sou por ter família, amigos, casa, comida, saúde. Deixa-me agradecer aos meus antes que seja tarde de mais". Se o infortúnio servir para injetarmos esta dose de egoísmo no sentido de sermos boas pessoas e ajudar o outro, que assim seja. Agora, que não seja só por horas ou dias. Se é para ser, é para ser todos os dias, sem limite de plafond, porque o amor não é um tarifário de dados móveis que tem de ser gerido para não se esgotar antes da próxima renovação. Digo isto, porque sei que vai haver um dia em que o barulho exterior vai voltar a estourar com a escala dos decibéis, até que alguém nos vai ligar e vai dizer: "Não sei se já sabes, mas o nosso amigo hoje partiu".
Sabem quando voltam de uma festa em que estiveram horas em frente a uma coluna e quando se deitam a única coisa que ouvem é um piiii agonizante? Foi exatamente o que eu senti hoje quando recebi esta chamada. Não, não é uma metáfora. Eu hoje recebi mesmo esta chamada e ouvi mesmo o piiii, exatamente igual ao que se segue após demasiado tempo em exposição ao ruído externo e extremo. Eram 13h57 quando recebi esta notícia e tentei durante o dia de hoje encontrar um propósito para esta injustiça. Dói-me a cabeça de chorar e o coração por não ter ido a tempo de lhe dizer que gostava muito dele. Quando um dia nos encontrarmos, sei que vamos fazer um festão, porque era sempre assim que acontecia quando nos víamos, como de facto aconteceu, casualmente, em 2019, na última vez que o vi. O que vivemos foi de tal forma intenso e bonito que não precisámos de muito tempo para tornar a nossa relação verdadeira, e hoje acredito que isto só aconteceu, porque ele não era um dos bons, mas sim um dos melhores. Parece que temos sempre tendência em dizer isto quando alguém muito novo nos deixa, mas a verdade é que todos os novos que nos têm deixado têm sido simultaneamente dos muito bons. E no meio do ruído de hoje, que num instante se fez silêncio, tentei encontrar uma explicação para o término desta viagem para aqueles que são bons: a Terra é um local demasiado inabitável e radioativo para seres de luz e de amor como eles. Gosto de acreditar que o meu amigo, juntamente com todos os outros bons que nos deixaram, está hoje num lugar que o permite ser amor sem limites e cuja sua missão passou a ser a mais nobre e altruísta de todas: a de nos alertar, abanar, acordar para a urgência de empatia, compreensão, compaixão e amor pelo outro. Até porque ele era era assim, nobre, altruísta, trabalhador, dedicado e generoso, capaz de inspirar pelo sorriso qualquer um que tivesse o privilégio de se cruzar com ele.
Sei que já não vou a tempo, mas gosto mesmo muito de ti. Obrigada, por teres passado na FCDEF e te teres dado a conhecer. Estejas onde estiveres, continua a ser luz e a ensinar-nos que isso não é nada sobre bilhar, mas tudo sobre iluminar.
Até já.
