Matrioska
Fechem os olhos. Imaginem uma multidão. Agora imaginem que cada cabeça de cada pessoa dessa multidão é uma caixa. Estão a imaginar? Boa. Agora imaginem que em vez de uma caixa no lugar de uma cabeça estão várias caixas. Qual é a imagem visual? Algo parecido com uma aberração com várias cabeças? Um extraterrestre? Algo do outro mundo, incompreensível? Ótimo. Bem-vindos à sociedade.
Tenho perdido o sono a pensar neste assunto. O mundo está desenhado tal e qual uma boneca matrioska. Caixa após caixa, nunca damos um passo sem saber se nos vamos encaixar no seguinte. Se substituirmos o conceito de caixa por educação, facilmente entendemos que, aos olhos do mundo, a boneca maior é o ensino superior, a que se exibe numa prateleira algures na sala, tal diploma de licenciatura ou mestrado emoldurado. Dentro desta boneca, está o ensino secundário, a seguir o ensino básico e, por fim, o pré-escolar. A escalada de um até ao outro é valorizada com base no que fazemos e não no que somos, sendo o número mais valorizado que a palavra, a razão mais valorizada que o coração, o ego mais valorizado que a consciência. No início, tudo isto é normal. Mas com o passar do tempo e com o processo de descoberta individual a surgir e a florescer, começamos a perceber que o que tentaram fazer connosco desde sempre foi en"caixa"r-nos. E das duas, uma: ou rendemo-nos e aceitamos a caixa que nos foi atribuída; ou não nos rendemos e procuramos uma caixa diferente.
Quando optamos pela rendição, também há um de dois cenários. O primeiro, ainda que aconteça com rara frequência, é que a caixa que nos foi atribuída é a que efetivamente nos pertence. As expectativas cumprem-se, tanto as nossas como as que os outros criaram sobre nós, e a vida segue com plenitude e realização. Por outro lado, o segundo cenário, além de muito comum, é também o mais triste de todos: aceitamos a caixa que nos deram, baseada naquilo que temos aptidão para fazer, e esquecemo-nos completamente daquilo que somos, associando o nosso ser à nossa caixa. Trocado por miúdos, é mais ou menos assim que isto acontece: nasço, vou para a escola e estudo. Um número define aquilo que eu vou fazer para o resto da vida. Se der para pintar, eu serei pintor; se der para ensinar, eu serei professor. A linha ténue que separa o ser e o fazer rapidamente é destruída e de uma realidade em que nós éramos muitas coisas passamos para uma realidade em que somos uma só: já não faço só pinturas, eu sou pintor; já não ensino só alguma coisa, eu sou professor; já não sei quem sou, já só sei o que faço. E se coincidir eu não gostar daquilo que faço, vai coincidir também não gostar daquilo que eu sou. A pergunta que eu faço é: como não gostar de alguém que nunca se chegou a conhecer?
Entramos então assim no universo daqueles que não se rendem à caixa que lhe foi atribuída e procuram uma caixa diferente. Se esta busca acontece cedo de mais, será alguém condenado à marginalização, porque não gosta da escola, não gosta de estudar e nunca será alguém na vida (mesmo que o facto de estar vivo já faça desta pessoa alguém que é). Se esta busca acontece já na fase adulta, então será alguém condenado à marginalização, porque não sabe o que quer, não se contenta com o que tem, vive num mundo de fantasia, quer ser diferente e nunca será alguém na vida. Pior ainda é se esta jornada for rumo à descoberta não de uma, mas de várias caixas! Estudou para ser pintor e agora também quer ser advogado; formou-se em psicologia, mas afinal também quer ser cozinheiro; é engenheiro, mas afinal quer ir para a Índia fazer yoga e transformar-se num monge. É a ruína total. Um desperdício de talento. O futuro de alguém completamente comprometido, que se recusou a ser uma profissão, uma função, uma tarefa, e decidiu ser, apenas ser.
Se já se perderam no raciocínio deste texto, não são os únicos. Eu também me perdi, como aliás me perco diariamente. Carrego uma mente inquieta que frequentemente se descontrola. Assemelho os meus pensamentos a um macaco que salta de galho em galho. Ainda não terminei o raciocínio de um e já estou a saltar para o próximo, e para o próximo, e para o próximo. E, de repente, começo com os pés no chão e acabo numa quimera longínqua que me leva para os mundos vários que eu quero ser. Conscientemente, eu sei o que vim ser à Terra e sei igualmente que para ser eu, não serei apenas uma caixa nem darei passos apenas rumo ao conhecido. Muito pelo contrário. Quando me dedico a viver o presente, apesar de ser difícil, sinto-me não só em paz, como cada passo que dou é uma surpresa do lado de lá da matrioska. E mais vos digo: é tão bom! 2020 ficou marcado como o ano da incerteza. Mas desde quando é que o mundo é certo? Desde quando sabemos o dia de amanhã? Desde que temos essa crença acesa dentro de nós. Desde que nos rendemos à caixa que nos atribuem e nos cegamos perante as infinitas possibilidades de sermos. Não é por acaso que desemprego e falta de saúde mental andam vulgarmente de mão dada. Quando deixamos de fazer aquilo que desde sempre acreditamos ser, deixamos de saber quem somos. Angustiamo-nos, perdemo-nos e, muitas vezes, achamos que já não temos nada a acrescentar a este mundo. O sentido da vida desvanece-se e, na dor angustiante de desespero, por já não termos o fazer, por já não identificarmos a matrioska como nossa, pomos fim com as próprias mãos àquilo que sempre tivemos connosco: o que somos. E com ironia e até perversão diria, o mundo que nos encaixotou, no dia da nossa morte, não relembra mais essa caixa. Não refere o quanto ganhamos, mas o quanto amamos; não relembra o quanto trabalhamos, mas o quanto vivemos; não quer saber do que fizemos, mas daquilo que fomos.
