Porque é que a educação é fundamental para a justiça e empatia social

Uma das minhas atividades preferidas é conversar. Muitas vezes, estas conversas acontecem com pessoas que são a minha bolha, sentindo-me frequentemente compreendida e grata por ter ao meu lado alguém que partilha os meus ideais. Outras vezes, estas conversas, que com facilidade se transformam em discussões educadas, acontecem com pessoas que, apesar de estarem na minha bolha quotidiana, não se enquadram naquilo que defendo como valores primordiais para um funcionamento justo e inclusivo da sociedade. A luta pela defesa de uma posição fala vulgarmente mais alto, levando acima de tudo a uma discussão de egos. A sensação com que termino estas acesas conversas é sempre de impotência. "Devia ter dito isto e saber os números específicos em relação a x ou y. Quando chegar a casa, vou estudar de fio a pavio cada ponto deste assunto para não me esquecer para a próxima!". Ego. Ego. Ego. Continuar ligada ao que se passou no passado e ter uma vontade de me superiorizar nas ideias em relação ao meu "adversário", são atividades que ao ego pertencem. Felizmente, vou tendo consciência desta inconsciência egóica que muitas vezes me visita e, sendo assim, acabo por desvalorizar este desejo de sair por cima. E é quando isto acontece, quando me desligo do ego e retomo ao meu estado consciente de vulnerabilidade, que normalmente se dá magia: a magia da evolução. Inteligência não é manter a opinião durante anos, mas ter a capacidade de perceber que, tal como as árvores mudam de cor ao longo das estações, também o mundo muda de necessidades conforme a situação social em que vive. Sendo assim, não há mal nenhum em alterar a nossa perceção sobre algo, desde que esta seja fundamentada com base na verdade.

Toda esta introdução serviu nada mais nada menos para dizer que, há uns dias, num debate de ideias, dei por mim a chegar a uma conclusão sobre a educação e a forma como ela representa o tratamento para a doença crónica do mundo em que vivemos. Ponhamos as coisas desta forma: a justiça é o comprimido que o médico dá a alguém que sofre de depressão; a educação é o desconstruir da depressão até chegar às crenças do doente, curando as raízes da depressão e, consequentemente, curando-o da doença. Vamos a exemplos práticos:

Um homem que bate na mulher, um(a) adulto(a) que manda os pretos irem para a terra deles e um(a) assassino(a) de uma mulher transsexual entram num bar. 

- "O que vos traz aos três a este bar?", pergunta o dono do bar.

- "Todos nós temos algo em comum e, por isso, achamos que seria bom convivermos, falarmos, debatermos ideias…", respondem.

- "Ai sim? E que coisas em comum são essas?"

- "Bem... são várias. Mas achamos que as principais são três: temos a justiça à perna, carregamos dentro de nós muita dor e, a maior de todas, o sistema falhou connosco quanto à nossa educação. Agora que somos adultos, parece impossível evoluirmos na forma como percecionamos o mundo, mas sempre que calamos a voz que habita dentro de nós e retomamos à nossa consciência, por mais curto que seja o tempo, conseguimos ver a luz. Percebemos que se tivéssemos crescido numa sociedade feminista, inclusiva e representativa e que nos tivesse ensinado o significado de vulnerabilidade, amor, altruísmo e empatia, hoje não nutríamos este sentimento de superioridade, inferioridade e, em alguns casos, de ódio por mulheres, por pessoas não caucasianas, por pessoas da comunidade LGBT+, por minorias em geral. Sempre nos disseram que chamar menina a um menino é uma vergonha, que as meninas são menos fortes que os meninos, que os pretos são maus e roubam, que o lugar dos ciganos é nas feiras e que um homem gostar de homens ou querer ser uma mulher é algo anti natura e, por isso, deve ser negligenciado. Achamos que foi isso que nos levou a cometer estes crimes e viemos a este bar para estudar de que forma nos podíamos curar desta doença que carregamos desde a infância. Ao contrário dos candidatos à Presidência da República, que se preocupam mais em debater, atacar e contra-atacar as falhas dos frutos (a justiça e a economia, por exemplo), percebemos que a solução pode estar na raiz, isto é, nas nossas crenças, nos nossos valores, na nossa educação."

Eu não percebo nada de política. Aliás, como já disse neste texto, assumo o quão má cidadã tenho sido nos últimos anos por não me lembrar da última vez que fui às urnas votar. Ainda assim, viver em 2020 e assistir às catástrofes sociais atuais, leva-me a querer que a solução passa mesmo por nos educarmos relativamente aos assuntos que realmente importam. A justiça importa. A economia importa. A saúde importa. Mas nada mais importa do que a força, visão, compaixão e sentido de empatia de um povo educado e bem informado. Tudo aquilo que sei hoje, e que é muito pouco, surgiu de uma vontade autodidata de procurar conhecimento através da cultura, de formações e do debate de ideias com pessoas, quer estejam dentro ou fora da minha bolha. No entanto, sei também da machista, racista, xenófoba e homofóbica em desconstrução que sou. Grande parte da nossa educação foi baseada numa falta de representatividade quase bizarra, que me fez sentir inferior a alguns homens e ter medo de andar à noite sozinha na rua, que me fez acreditar que as mulheres são más umas para as outras, que me fez dizer muitas piadas ofensivas sobre negros, que me fez ter nojo de ciganos, que me fez achar que amor e sexo socialmente aceite só existe entre um homem e uma mulher e que me fez usar palavras como "paneleiro" ou "sapatona" para insultar a alguém. A nossa educação faz-nos acreditar que só há um lugar no pedestal do privilégio e que este pertence ao homem branco cis género heterossexual. E sim, este homem privilegiado também sofre de preconceito de alguma forma. Ainda assim, nunca esta discriminação o impediu de arrendar uma casa, exibir confortavelmente o seu corpo ou arranjar um emprego por ele ser simplesmente quem é. Pode ter sido rejeitado por falta de competências ou valores morais, mas nunca o fator de desempate foi o género, a cor da pele ou a orientação sexual.

Assim sendo, é com honestidade, sem condescendência e nua de moralismos que apelo a que se eduquem enquanto não pudermos contar com uma reforma na educação sistémica. Vejam filmes, leiam livros, conversem com os mais antigos e filtrem a informação da comunicação social, que vive muito à custa de difamação e fake news. O país e o mundo atravessam uma crise não só económica, mas acima de tudo humanitária, que faz com que muitos idiotas se aproveitem do desespero das pessoas. Estes idiotas, normalmente acreditam ser os salvadores de todos os problemas do mundo e gritam desavergonhadamente o que a angústia e o aperto no peito querem ouvir. Têm também o dom de oprimir qualquer pessoa que não se enquadre na sua bolha, desvalorizando o debate de ideias com base no respeito, na compreensão e no bom senso, interrompendo frequentemente o raciocínio dos seus "oponentes", passando a ideia errada de que eles sabem tudo e os outros não sabem nada. Sempre que paro cinco minutos numa caixa de comentários nas redes sociais, vejo um país polarizado, onde há uns que cumprem à risca o confinamento e os negacionistas que acham que tudo isto é moda e uma teoria da conspiração; onde há os que valorizam um discurso honesto e os que se deixam levar pelo demagógico; onde há os que são pela paz e pela autorresponsabilização e os que são pelo sangue, pela crítica e pela vitimização.

Um dia, numa praxe da faculdade, em que eu estava na posição de prancha sob uma pressão psicológica muito grande, pediram-me para dizer a minha palavra preferida. Nunca entendi muito bem o porquê, mas o que me saiu na altura foi “liberdade”. Passados uns anos e estando eu mais consciente do que nunca da importância da política na nossa vida, talvez comece a juntar 1+1 e perceba que a origem desta história esteja na forma feliz como recordo os meus avós, pais, padrinhos e professores a falar Revolução dos Cravos. O dia em que o povo, unido, jamais será vencido… até ver. A poucos dias das eleições presidenciais, vejo-me assustada por ver que muitos estão a querer marcar o seu grito de revolta e agonia optando pelo lado errado da barricada: o da ditadura. E é por isso, por estar com medo e por não saber se posso contar com o meu país, que peço, caso ainda não o tenham feito dia 17, que votem no dia 24. Hierarquizem a vossa pirâmide de valores éticos e morais e votem naquele que mais vos representa. E se nenhum vos representar, votem em branco. Mas votem! Não numa mulher, não num homem, não numa cor, não à direita, não à esquerda, não ao centro. Votem sim na educação, no amor, na empatia, na justiça, na igualdade, na vulnerabilidade, na verdade, na democracia, na liberdade. Que não nos deixemos cegar pelas areias movediças provenientes dos discursos vazios de café e que não paremos nunca de nos educar através da cultura, pois tal como alguém disse um dia,

"A cultura assusta muito. É uma coisa apavorante para os ditadores. Um povo que lê nunca será um povo de escravos."

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