A escola
Numa das noites da semana que passou, tive uma conversa com uma das pessoas mais importantes da minha vida que já andava a adiar há muito tempo. Sempre que olhava para as horas, lá estavam os números em sintonia a dar-me sinais vindos do Universo de como este momento tinha mesmo de acontecer. Um assunto puxou o outro e, quando dei por mim, estava a verbalizar pela primeira vez na vida os meus pensamentos em relação à escola. Conversamos sobre variadíssimos assuntos, mas foi sobre o ensino e a educação atual que retirei a maior aprendizagem.
Já sem certezas, penso que este tema surgiu, porque eu perguntei como é que eu era na infância. Faço frequentemente esta pergunta a quem me viu crescer, porque reavivo os meus sonhos de criança antes de ter sofrido da lapidação obtusa da sociedade. Acredito cada vez mais que no momento em que pisamos o planeta Terra, já temos um propósito e uma paixão definidos. O propósito é um e comum a todos os seres humanos: viver e amar. Por isso é que não há sentimento mais avassalador do que o sentimento de nos sentirmos vivos e amados. Já a paixão, também ela nasce connosco, mas varia de pessoa para pessoa. O filme Soul explica na perfeição esta minha crença. Muito resumidamente, a premissa do filme é que antes da vida, existe um céu no qual todas as almas habitam, afirmando desde logo que a alma nasce antes do corpo. Neste pré-vida, o objetivo destas almas é encontrar a sua paixão, pelo que só quando a descobrem é que são posteriormente atribuídas a um corpo e estão, assim, prontas para encarar a vida terrestre. Até aqui, tudo bem. O problema é que esta virgindade na alma só dura até aos seis anos, idade com que a maioria de nós vai para a escola. A partir desta idade, o que fazem às nossas almas cheias de paixão e certezas é tremendamente cruel, tanto ao nível da formação de personalidade, como ao nível da proteção dos sonhos.
Começando pela questão da personalidade, a minha visão ainda utópica diz-me que enquanto se ensina uma criança a ler, a escrever, a fazer contas de somar e subtrair e a aprender os nomes dos rios e das serras de Portugal, seria de extrema sensatez e inteligência ensinar-lhe também, por exemplo, os valores éticos, morais e cívicos de uma sociedade justa e saudável, os direitos humanos e os direitos dos animais. Neste momento, muitos de vocês talvez estejam a dizer que para isso existem os pais, ao qual eu tenho três respostas: primeiro, o tempo que uma criança passa na escola é muito superior ao tempo passado com os pais; segundo, o tempo passado com os pais na maioria das vezes não é tempo de qualidade dado o refúgio no trabalho e nos grandes ecrãs de parte a parte; e terceiro, se os pais fossem apenas a solução, então o mundo já tinha obrigação de ser um lugar melhor para todos. E em que sentido este modelo de ensino ia ajudar a tornar o mundo melhor?, perguntam vocês. No sentido em que se eu for de uma etnia não branca, mulher, portador/a de uma deficiência física/intelectual ou homossexual, poder ver positivamente representadas as minhas particularidades nos livros da escola. Livros esses que me vão dizer que uma cor de pele não é motivo para exclusão; que ser mulher não é ser-se inferior ao homem, não é ser-se mais fraca e mais frágil nem é viver-se uma vida inteira de mão dada com o medo, com a desigualdade e debaixo da falsa necessidade da proteção masculina; que está tudo bem em não se ser heterossexual e não há mal em assumir a minha verdadeira sexualidade; e que "atirei o pau ao gato-to, mas o gato-to, não morreu-eu-eu" é tudo menos uma canção educativa sobre como se deve tratar um animal. No fundo, este ensino de conceitos como respeito, amor, amor próprio, empatia, vulnerabilidade, ambição, honestidade, aceitação, humildade, racismo, feminismo, capacitismo e homofobia, deviam ser também objeto de avaliação e não apenas a capacidade de somar 10+3 e de decorar os nomes de todos os reis da primeira dinastia.
Passando agora para o campo das paixões: em suma, é criminoso o que fazem com elas. Vou pegar num exemplo prático para ser mais fácil perceber. Imaginem uma criança cuja paixão é cantar e compor canções. Fora eventuais atividades extracurriculares que a maioria das famílias não tem como suportar (vejam o preço de um piano ou a mensalidade de um conservatório), o apoio que a escola dá a esta criança que tem o sonho de ser artista é pouco mais que zero. Dia após dia, teste após teste, matéria após matéria, este sonho vai sendo apagado por um sistema que nos avalia tendo em conta as nossas aptidões e não as nossas paixões. Chegado o 9º ano, esta criança faz testes psicotécnicos que, dizem eles, lhe dirá a área que deve seguir. Ela pode querer ser artista e ter simultaneamente aptidões fantásticas para a matemática, a física e a química, mas será que as Humanidades não farão mais sentido para o seu percurso? Será que a Psicologia não lhe dará as bases do comportamento humano tão importantes para a sua carreira, uma vez que a vai pôr tantas vezes à prova e em contacto com tantas pessoas diferentes? Será que o aprofundar de várias línguas não será crucial para aperfeiçoar a sua capacidade de compor canções? Será que a Filosofia, essa que ninguém gosta, porque se tem de decorar aquilo tudo, não será absolutamente essencial na sua compreensão do sentido da vida? Ou será mais importante saber que H2O é água, que a força é igual à massa vezes a aceleração e que o quadrado da hipotenusa é igual à soma do quadrado dos catetos? Claro que isto é mais importante, para uma criança que nasceu com a paixão da ciência e sonha um dia ser astronauta na NASA. Agora para uma criança que quer ser artista? Duvido.
No meu caso, eu nunca soube bem o que queria ser, porque, na verdade, eu queria ser muitas coisas. Desde a ciência à música, da medicina ao desporto, eu sempre fui uma criança com muitas paixões e cujas aptidões acompanhavam, o que me baralhava ainda mais. Então, a base da minha decisão quando fui para a faculdade foi escolher, entre tantas coisas, aquela que mais prazer me dava. Lembro-me de dizer muitas vezes que o meu curso podia não ter muita saída profissional, mas pelo menos durante 3 a 5 anos, eu ia estar feliz, a fazer aquilo que mais gostava que era, na altura, praticar desporto. Ainda assim, terminada uma licenciatura e um mestrado, continuei sem saber o que seria de mim no futuro, já que a minha formação académica só me disse o que é que eu não queria fazer, o que não foi de todo negativo. Isto foi motivo mais do que suficiente para começar a procurar respostas noutro lugar, especificamente em áreas não convencionais. Foi aqui que surgiu o desenvolvimento pessoal, a par de uma oportunidade que agarrei com unhas e dentes, por ter despertado em mim o fator risco e diferença. Pela primeira vez na vida em muitos anos, o acesso a uma ideia fora da caixa coloriu os meus sonhos que até então permaneciam monocromáticos, desde a altura em que me disseram que menos de medicina para mim, face às minhas notas, era derrota. Quando o horizonte se abre, torna-se impossível fechá-lo. Por isso, agora sei que todos estes desafios surgiram na minha vida para reavivar a criança alegre, talentosa e entusiasta que sempre fui, e para ter a esperança de um dia poder salvar almas semelhantes à minha através de um sistema que ainda não existe, mas vai certamente existir.
Para terminar, vou partilhar algo curioso convosco. Na primeira quarentena, ao ver fotografias do meu batizado, alguém da minha família comentou o facto de toda a gente estar vestida de preto pelo luto de um familiar muito próximo e muito querido. "Inês, quando tu nasceste, a nossa família ganhou luz. Foste uma bênção enorme para todos nós, porque iluminaste-nos num momento muito escuro". Não estou a contar esta história para tornar tudo isto sobre mim. Muito pelo contrário. Conto-vos isto para vos dizer que eu ganhei aqui muita motivação para continuar a esmiuçar o meu passado e a investir mais no meu autoconhecimento (coisa que a escola não fez), até perceber o porquê de em idade adulta me sentir tão perdida. Ouvir isto de um familiar meu fez-me perceber que talvez na minha pré-vida me tenha sido atribuído o destino de iluminar outras vidas, daí ter sido uma criança que "ia com toda a gente", cativante, sorridente, bem disposta, líder, perspicaz e cheia de vida. Supor tudo isto hoje e perceber que a escola e o sistema me fez duvidar do que sou, da minha autenticidade e da minha utilidade no mundo, leva-me mesmo a crer que as nossas almas, que sabem tudo desde o primeiro dia, são simplesmente desrespeitadas por uma sociedade que privilegia as aptidões em detrimento das paixões.
Sendo o nosso propósito de vida amar e viver, nada me convence do contrário que só quando nos amamos e amamos viver é que conseguimos cumprir com o nosso destino maior. Ir-se para um curso pelas notas que se tirou ou pela decisão de alguém superior a nós, insistir-se num emprego que se odeia ou desacreditar no bom e no belo da vida, faz de nós seres humanos desiludidos com o nosso fado, infelizes nas nossas relações e prisioneiros de uma sociedade tóxica e viciada. O objetivo deste texto não é assumir uma posição antissistema, até porque as soluções que tenho para tudo o que aqui escrevi começaram a formar-se há uma semana. Aquilo que quero dizer com tudo isto, e obrigada/o se chegaste até aqui, é pedir-vos encarecidamente para investirem em vocês, para resgatarem a criança que foram, para ganharem consciência da educação que praticam, para terem cuidado com a forma como impactam a vida das vossas crianças (irmãos, filhos, sobrinhos, afilhados, netos, atletas...) e para nunca desistirem da vossa paixão. Os dias são longos, mas os anos são curtos. Não desperdicem a vossa vida a viver a vida que alguém quis para vocês. E mesmo que cheguem aos 90 anos sem a concretização do vosso grande sonho de menina/o cumprido, que seja com a plena consciência de que não houve um dia em que desistiram de ser felizes, cumprindo, pelo menos, o vosso, o nosso propósito maior: viver, amar e ser amado!
