Afinal, o que é o ego?

Na primeiro quarentena, em abril de 2020, li o livro que mudou a minha vida para sempre: O Poder do Agora. A minha relação com este livro deu luta. Lembro-me de, em fevereiro, ter ido à neve e ter levado este livro comigo, na esperança de o ler ao final do dia, depois de levar com o peso absurdo de dois skis e o pânico constante de quem nunca tinha esquiado na vida e decidiu fazer-se à estrada sem ter uma aula antes. Quem já leu este livro, neste momento está a rir-se certamente, já que é impossível lê-lo nestas condições. Para mim foi. Li até à página 40, antes, durante e após esta viagem, e desisti. Nestas páginas todas, a única coisa que apanhei foi o nome do livro e do autor. Frustrada, encostei o livro e comecei outro. Até que, meses depois, fui mandada para casa pelo covid e lembrei-me de pegar novamente nele. Comprometida a sair da quarentena melhor do que entrei, e com alguns meses de avanço em termos desenvolvimento espiritual relativamente a fevereiro, comecei o livro do início e fiz o que o autor sugere: ler a mesma página várias vezes, com calma e foco, até entender a mensagem. Todas as manhãs, após o pequeno almoço e o meu treino, acompanhada de um café e do sol do meu terraço, dedicava tempo a esta leitura. E eis que magia aconteceu: seguindo os conselhos do autor, entrei no livro, entendi a sua linguagem e termos e dei-me totalmente à sua profundidade. A partir daqui, a forma como eu olhei o mundo mudou. Aprendi o que era viver no presente, as suas vantagens, a diferença entre estar feliz e estar em paz e o poder do perdão. E foi também aqui que tive aqui as primeiras luzes daquilo que seria o ego e do quão nocivo ele é para nós enquanto seres individuais e coletivos.

Estando o autor sempre a insistir no poder do agora, não fosse este o título do livro, comecei a juntar os pontos da minha história e a entender porque é que passei por um processo tão doloroso no passado: vivi intensa e permanentemente no futuro. Percebo, agora, que desde muito cedo funcionei à base de expectativas. Da minha família, dos meus professores, dos meus colegas de equipa, dos meus treinadores, dos meus amigos. A verdade é que quando temos a certeza de que somos capazes de cumprir com estas expectativas e quando muitas delas correspondem às nossas, está tudo bem. Treinar era bom pelo prazer do presente, bem como estudar era bom pelas expectativas que eu tinha em ser boa aluna. Contudo, o desafio surge quando as expectativas externas se distinguem das internas e, pior ainda, quando não fazemos absoluta ideia se seremos capazes de as cumprir. Quando isto acontece, dá-se um fenómeno de encobrimento de tudo aquilo que são emoções, fragilidades e medos. Passamos a ser super heróis com uma muralha de ferro a proteger um castelo de cristal que, à mínima pedrada, vai quebrar. E, quer a guerra chegue amanhã, quer chegue daqui a dez anos, o medo que este castelo se despedace é alimentado diariamente com atitudes que em nada se prendem àquilo que nós verdadeiramente somos. É alimentado com a carência de aprovação externa e reconhecimento; com o querer ter opinião sobre tudo; com o tentar sempre causar boa impressão; com o levar as coisas a peito; com o sentimento de solidão e de culpa; com o queixume e a vitimização; com pensamentos destrutivos e, muitas vezes, suicidas; com, resumidamente, o ego.

Eu também pensava que o ego era apenas uma expressão que usávamos para descrever alguém exibicionista e cujo bem estar depende de elogios de terceiros, mas quando li O Poder do Agora e, no mês passado, Um novo mundo, ambos do mesmo autor, percebi claramente que o ego é nada mais nada menos do que uma relação disfuncional com o momento presente. Sendo assim, tudo aquilo que me levou a um lugar menos luminoso deveu-se simplesmente ao facto de eu viver o presente nos únicos tempos que não existem: no passado e no futuro. No passado, porque vivia em constante comparação com uma versão minha que achava melhor do que a atual; e no futuro, porque usava apenas o presente como um meio para atingir um fim. Com isto, impus a mim própria objetivos com prazos de validade curtíssimos, objetivos irrealistas, mas que ficava bem verbalizar, ou objetivos que sabia, porque o coração não mente, que no fundo não queria alcançar. Viver assim é sufocante, ainda para mais quando cedemos à pressão de uma sociedade que nos impinge padrões de beleza e conquistas externas e não nos ensina que o padrão mais bonito que devemos seguir é o da paz interior. Tudo isto se resume também em duas palavras: depressão e ansiedade. A primeira, refere-se ao refúgio numa dor do passado. Uma relação que não correu bem, a morte de alguém importante, um trauma na infância. São apenas alguns exemplos; a segunda, refere-se, lá está, à procura incessante por um propósito no futuro, culminando na perda de identidade, na falta de gratidão pelo que se tem hoje e na máscara identitária para esconder tudo aquilo que não somos, mas um dia vamos ser.

Este texto serve-me como terapia, porque nunca é demais relembrar o lugar aonde a doença do ego me levou. Ainda assim, quero com estes parágrafos dizer que a noção que nós temos de ego está na maioria das vezes errada e é por isso também que cada vez mais pessoas sofrem de doenças do foro mental. Sempre ouvir a minha mãe dizer que "a cisma é pior que uma doença". Hoje entendo porquê. Só se pode curar aquilo que existe. O cancro existe, a diabetes existe, mas a cisma, o medo, o ego, tudo isto não passa de uma ilusão. Tudo isto não passa da nossa mente a identificar-se com histórias criadas pelo ego e que definem aquilo em que nos tornamos. Atenção que eu não disse aquilo que somos, porque o que somos é real e nasce connosco desde o primeiro dia em que pisamos este planeta. Agora aquilo em que nos tornamos não passa da nossa identificação com sistemas de crenças que nos dizem o que é bom e mau, bonito e feio, sucesso e insucesso. Ganhar esta consciência de que os nossos pensamentos não passam da consequência das nossas crenças e que muitas delas só servem para ofuscar o nosso ser, é um passo essencial na direção do poder do agora. Se continuarmos a acreditar que sofremos de violência doméstica, porque fomos merecedoras/es disso, vamos continuar a procurar parceiros/as violentos/as; se continuarmos a achar que a nossa felicidade está no futuro e depende da aquisição de bens materiais, vamos continuar a desperdiçar o nosso dinheiro em coisas fúteis que apenas nos dão uma sensação momentânea de felicidade; se continuarmos a identificação com a dor, vamos continuar presos a ela, perpetuando-a e intensificando-a à medida que o tempo passa; se continuarmos a crer que o que quiseram para nós um dia é aquilo que nós temos de ser, vamos continuar a depender das respostas dos outros sempre que nos perdemos no caminho. É uma espiral viciante de inferiorização e superiorização que apenas pára quando ganhamos consciência da quantidade de vozes que vivem dentro da nossa cabeça e as distinguimos com brio e certeza.

Então, o que temos a fazer é: sempre que nos vier à cabeça um pensamento de superiorização, inferiorização, refém do passado ou ansioso pelo futuro (e agora com a pandemia o que não falta são pensamentos do género), temos de imaginar um holograma a surgir ao nosso lado que corresponde ao nosso verdadeiro eu e cuja função é única e exclusivamente dizer: "Hei! Lá estás tu a viver no ego! É bom que o cales e voltes ao momento presente, se não queres acabar perdido, infeliz e de mal com a vida por não fazeres ideia de que todas as respostas que precisas estão no espaço que abres na tua cabeça quando o decides derrotar!". Tudo isto parece muito simples, ainda que abstrato, mas é bastante desafiante, principalmente quando todos nós temos objetivos futuros que queremos muito cumprir e trabalhamos cada vez mais o amor próprio. Creio que este equilíbrio é dos mais difíceis que a vida nos oferece e, aos poucos, vou aprendendo a lidar com ele. Ter um ego disfuncional não é olhar-me ao espelho e achar-me incrível, mas sim olhar-me ao espelho e achar-me superior a toda a gente; não é ambicionar mais e melhor, mas ser refém da concretização dessas metas. Acima de tudo, aquilo que aprendi é que não posso simplesmente por a minha felicidade e paz interior nas mãos de tudo aquilo que não seja o momento presente. Eu quero e vou escrever um livro, mas não é este sonho tornar-se realidade que me vai trazer felicidade, mas sim a minha capacidade de viver a jornada até lá. Se tudo o que queremos, fazemos e somos está nas mãos de algo que não controlamos, jamais seremos capazes de perceber que só do fundo do poço se vê a luz. Por isso, quer estejas no cimo do poço, a meio do poço ou bem lá no fundo, nunca te esqueças que essa é a tua posição presente e que tudo aquilo que tens de fazer para a alterar é focares-te nas soluções, ferramentas e respostas que ela te dá, aqui e agora. Tudo o resto, é ruído, é treva, é ilusão, é ego. E, na submissão ao ego, das duas, uma: ou quebras ou quebras recordes. Durante muito tempo, escolhi chorar, escolhi o altar, escolhi quebrar. Hoje, decido quebrar recordes. Não os dos outros, não os do passado, não os do futuro, mas os recordes da capacidade que tenho em ser consciente, em viver o presente e em derrotar o cabrão do ego, simplesmente.

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