O Último Samurai: há beleza no fim

A semana passada estive em Lisboa e almocei com uma amiga que vive lá e que me levou a passear. Acabamos o dia em frente ao Rio Tejo a beber um fino e a ter uma conversa bonita e séria de urgente que é. Ela começou por partilhar comigo que tinha feito recentemente um trabalho sobre o luto no aborto. Contou-me que existem dois tipos de luto, um mais físico e outro mais emocional, mas que, para ambos, é preciso tempo para que a pessoa se despeça: ou de alguém ou de uma expectativa não cumprida. Com o surgimento deste tema, lembrei-me de lhe partilhar algo que já anda na minha cabeça há algum tempo e que já partilhei inclusivamente com vários amigos meus. Hoje, partilho-o convosco, com receio de ser ingrata com quem perdeu, mas consciente da beleza colateral que pode existir na morte ou, pelo menos, no luto. Respeito quem esteja a passar por um processo de luto, seja ele qual for. A minha empatia é toda vossa, já que, no vosso lugar, não sei como iria reagir. Efetivamente a morte assusta e a ideia do desaparecimento de alguém ou algo que amamos faz-nos quase automaticamente chorar de dor, mesmo que ela não seja real. Nada do que eu vou escrever aqui invalida a dor de perder, nem é esse o meu objetivo. Ela existe e deve ser vivida com a intensidade necessária. A repressão das emoções só leva a que elas persistam, mas aí já lá vamos. Até lá, abram o horizonte que define as nossas crenças e a nossa sociedade e vejam se pode ou não haver beleza no fim.

Já foi há muito tempo que vi o filme "O Último Samurai" e há pormenores da história que não me lembro mais. Ainda assim, se há algo muito presente na minha cabeça é a última deixa do filme. Após perguntarem ao mestre do samurai como é que ele morreu, o mestre responde: "Deixa-me antes contar-te como é que ele viveu". Neste dia, fez-se luz na minha cabeça. Todas/os sabemos que a única consequência certa da vida é a morte. O que não somos ensinadas/os a perceber é que a morte é instantânea e a vida não. A vida é cor, é aventura, é mil e uma histórias, é relações, é amor, é muito mais do que um fenómeno físico. Em que medida não será mais justo honrar e sorrir da vida de quem partiu (como fazem muitas culturas não ocidentais) ao invés de prolongar desumanamente a dor da sua partida (velório, funeral, missa de sétimo dia, missa do mês, ...)? Acredito que a homenagem mais bonita que podemos fazer a uma pessoa (ou a um animal) que termina o seu caminho na Terra é relembrar com prazer os momentos que vivemos com ela. É relembrar o legado que esse alguém deixou no nosso coração e prolongá-lo pelas várias gerações, ao falar dele a toda a gente que se cruza connosco. O problema aqui é que por haver um tabu tão grande envolto da morte, raras são as pessoas que ousam se quer falar da sua perda. E são raras também as pessoas em seu redor que ousam falar-lhe do mesmo. Serei a única ou vocês também já tiveram medo de interagir com alguém que está de luto, com medo de a magoar? Com medo de dizer de mais ou de menos? Com medo de a pessoa levar a mal? Com medo de ser demasiado invasivo? Todos estes comportamentos são culturais e só alimentam a treva da pessoa que está a sofrer. Por um lado, porque fazem-na acreditar na sua fragilidade; por outro, porque estão a contribuir para a proteção exagerada de emoções que têm de ser vividas para a saúde de quem vive a morte.

Às crianças, é passado um atestado de ignorância e finge-se que nada se passou quando, no fundo, elas sabem perfeitamente o que se está a passar. É nesta atitude que começa a ser alimentado o tabu da morte e tudo o que dele, mais tarde, advém. Não quero com isto dizer que devemos expor a criança a tudo, porque o seu desenvolvimento emocional e cognitivo não se compara ao de um adulto. Em simultâneo, também não me parece correto ocultar-se a verdade a alguém que já distingue a mentira nos olhos e nas expressões. Por outro lado, temos o homem. A este, quase que lhe é interdita a função de sofrer. O "fardo" de cuidar a partir do momento em que alguém importante morre é logo dado à figura masculina da família, que tem de ser forte e firme. Homem não chora, homem não mostra fraqueza. A vulnerabilidade do choro e do sofrimento não lhe é permitida, alimentando mais a masculinidade tóxica segundo a qual, provavelmente, ele vive desde que nasceu. Quando é o homem que morre, este peso é herdado pela pessoa suposta e visivelmente mais forte que é, na maioria dos casos, a mais insegura de si mesma. Com isto, é inevitável a avalanche futura de traumas e dores, por simplesmente acreditarmos que a solução é fechar tudo a sete chaves numa caixinha e nunca mais a abrir. Lamento informar-vos, mas ela abre-se. Todos os dias. Num ou noutro momento, de uma forma ou de outra, as nossas dores falam. Na nossa saúde física e mental, nas nossas relações amorosas ou familiares, no nosso trabalho, no nosso sono, no nosso futuro. É impossível curar uma ferida que fingimos não existir e, tal como uma úlcera que não é tratada, também estas feridas emocionais têm tendência a alastrar-se. Um dia, a caixinha fechada a sete chaves não vai aguentar mais a pressão e vai explodir. Há vezes em que explode no sentido da terapia, da conversa, da vulnerabilidade, da cura; há outras em que explode no sentido da dor, contra nós mesmos ou contra o outro. Em qualquer um dos cenários, adiar a abertura desta caixa é adiar a libertação interior e pode ser, às vezes, tarde de mais.

Enterrada nos meus pensamentos, vieram-me várias soluções para minimizar o sofrimento no luto, que valem o que valem. A primeira e que referi anteriormente, é mudar o paradigma sobre a morte e festejar a vida. É entender que a vida sem a morte não teria qualquer sentido. Tudo o que tem sentido na nossa vida, como trabalhar, cuidar ou aproveitar, é feito para evitar a morte. Há poesia nesta perspetiva, quer custe muito ou pouco aceitá-la. Outra solução que encontrei foi acreditar que a pessoa continua connosco, ainda que jamais fisicamente. "Quem me dera ter ido a tempo de lhe dizer isto, espero que ela me esteja a ouvir". E quem nos diz que ainda não vamos a tempo? Quem nos diz que ela ou ele não nos está a ouvir? Acredito que perder alguém que amamos com palavras entaladas é dos maiores arrependimentos da vida. Sair de casa de costas viradas com um pai e ele não voltar mais a casa causa um sentimento de culpa destruidor. Por mais que nos digam que não nos devemos sentir culpados, nenhuma palavra ou reconforto substitui a nossa vontade de voltar a ter aquela pessoa, nem que fosse apenas pelo tempo suficiente de lhe dizermos o quanto a amamos. Contudo, podemos sempre fazê-lo após a perda se acreditarmos que a pessoa em questão nos está a ouvir. Pessoalmente, acredito que todas as nossas estrelas nos continuam a ouvir. Porque não escrever-lhes uma carta? Porque não desabafar-lhes os nossos arrependimentos? Porque não dizer-lhes o quão agradecidos estamos pelo tempo em que partilhamos a vida? Porque não declararmos o nosso amor eterno por elas? No fundo, é nisto que também somos ensinados a acreditar: que o corpo morre, mas o espírito vive. Vamos então usar esta crença a nossa favor e amenizar a dor da morte, que existe, mas que pode tornar-se como o ato de morrer: um instante.

A todas/os as/os que carregam traumas de uma perda, seja por que razão for, peço-vos que falem do que consistentemente vos destrói a alegria de viver. Façam as pazes com o passado, perdoem e perdoem-se. Só assim o sentimento de injustiça, revolta e culpa irá desaparecer. Levem o tempo que precisarem, despeçam-se da forma que fizer mais sentido para vocês e não deixem que seja alguém a decidir a forma como devem lidar com o que vos aconteceu. Nós não somos ninguém além de nós. A autenticidade também se prende à forma como sentimos. Sendo o processo de luto um dos estados mais vulneráveis pelo qual o ser humano passa, é também nele que devemos procurar a solução para a pujança da fé de dias melhores. 

Está tudo bem em estar tudo uma merda. O que não está tudo bem é aceitarmos essa realidade como eterna, fruto da incapacidade de nos rendermos à vida, de perdoarmos o passado e de vivermos o agora. Este texto, agora que está terminado, além de ter sido um dos mais difíceis para mim de tornar público, tem como objetivo ensinar-me a lidar de forma mais natural com a morte, já que é o assunto que mais desconfortável me deixa. Gosto de acreditar que ter esta visão me irá ajudar no futuro, com toda a ingratidão e falta de noção que possam parecer agora as minhas palavras. Se calhar amanhã nada disto me fará sentido, mas hoje faz. Assim, vamos viver a vida com a maior paz, transparência e o maior amor possível para que, no nosso dia, não hajam motivos para chorar com desespero e incompreensão a nossa partida, mas sim para festejar e homenagear com alegria e gratidão a nossa passagem bonita de efémera. 

P.S.: se a minha hora chegar primeiro que a vossa, cumpram pf a minha vontade e façam uma festa com pão transmontano, pataniscas de bacalhau, amendoins, tinto e cerveja :)

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