Quem muda, Deus ajuda

É preciso tudo se desmoronar para voltar a ser construído. Li isto hoje num livro e veio mesmo a calhar na fase da vida pela qual passo neste momento. Passados quase 10 anos, vou deixar o Porto e tudo o que aqui tenho e vou regressar à terra que me viu nascer e na qual tenho muito do meu coração. A terra onde vivem os meus pais e a minha irmã e que mais do que nunca chama por mim. Não sei durante quanto tempo. Só sei que agora tenho de ir.

O Porto sempre foi a oportunidade. Ter vindo estudar para esta cidade foi precisamente na busca do mundo dos sonhos. A minha terra viu-me nascer, mas o Porto viu-me crescer. Foi no Porto que me encontrei, que me perdi e que me voltei a encontrar. A mais recente descoberta, tatuada eternamente no meu braço, mostrou-me que andei muito tempo distraída com o futuro e que tudo o que fazia hoje de mais frustrante tinha a justificação de não ser para sempre. O meu estado de espírito não seria para sempre. O meu emprego não seria para sempre. A minha conta bancária não seria para sempre. As dificuldades não seriam para sempre. Nada seria para sempre, porque, no futuro, eu ia dar a volta. Só que este "não seria para sempre" transformou-se lenta e dissimuladamente em muitos dias, que se transformaram em muitas semanas, muitos meses e muitos anos. E, de repente, o Porto, terra dos sonhos, do anonimato, da vida e da oportunidade, transformou-se, também ele, em casa, conforto, rotina e estagnação.

Foi então que comecei a equacionar sair do Porto e ir à procura da adrenalina e dos estímulos alucinantes do novo e desconhecido. Viajar a solo estava nos meus planos mais prioritários e emigrar ou, pelo menos, mudar de cidade, passou-me muitas vezes pela cabeça. Só que Covid. Parecendo que não, a Covid habituou-nos, numa dúzia de meses, a aceitar a nova realidade restrita de liberdade. O peso das restrições ganha frequentemente ao peso de querermos viver a vida e viver a vida ganhou outro significado. Do dia para a noite, viver a vida é sair do trabalho e ir a toque de caixa para casa. É reunir amigos e amigas para jantar na casa de alguém e tentar ao máximo simular o ambiente do Plano B através de uma JBL de 29,95€ que compramos na Fnac. É ir ao supermercado antes das 20h00 e conseguir, por pouco, comprar uma Super Bock e ir bebê-la a algum lado, desde que não esteja muita gente à nossa volta. Viver a vida, no meu caso, transformou-se num raio de poucos quilómetros, nos quais vejo todos os dias as mesmas pessoas, a fazer as mesmas coisas, às mesmas horas, desde a D. Nanda que vende meias quando está sol e guarda-chuvas quando está chuva em Santa Catarina ao Luís que pede dinheiro em frente ao Pingo Doce para conseguir um quarto num albergue ao final do dia. E neste loop de dia-a-dia de cidade com síndrome de aldeia, eu paro e pergunto: mas o que é que eu ando aqui a fazer?

Na solitude (que se aproxima muitos dias da solidão) do Porto e na tentativa de a disfarçar com uma vida social cujo lema é desequilibradamente viver o agora, vejo lentamente a minha criatividade, a minha motivação, a minha ambição e o meu desenvolvimento pessoal a morrer. Os hábitos que me fazem bem estão fechados num armário há uns meses. Olho ao espelho e já não gosto como gostei do que vejo. Há livros que comprei e que ainda não abri. Começo a temer voltar a ser a pessoa que era e retroceder no meu processo de metamorfose. Observo a minha borboleta e vejo-a cada vez mais em estado de larva. Em simultâneo, do outro lado do Marão, ouço vozes que me dizem que a melhor forma de lutar pelo que mereço é carregar no botão de reset e começar de novo junto dos que nunca me esqueceram, mesmo que tenha demonstrado equivocamente que, por alguns tempos, os esqueci. Sempre que vou a casa, é real a dor de voltar. Por ser tão real, é não só sentida por mim, mas por todos os que me veem partir. O que não ajuda à dissipação da dor. Pelo contrário: multiplica-a. E é então que chega o momento em que admito o que já sei há muito tempo. Sei o que mereço, mas continuo a viver em função do que quero. Tudo isto tem um preço: o de perceber que sou um desperdício de talento, preso numa mente que busca o caminho mais fácil e que recusa a disciplina e a consistência que se relacionam simbioticamente com a coragem de se lutar pelos sonhos.

Dia 5 de julho entreguei a minha carta de demissão e dia 3 de agosto estou oficial e financeiramente por minha conta. Sou grata pela inteligência financeira dos últimos meses que me permitiu criar um fundo de emergência e que me vai dar tempo para me dedicar ao meu talento, às minhas ideias e à minha família sem ter uma corda ao pescoço. Dou muito, mas sinto que tenho muito mais para dar. Embarco na segunda metade de 2021 num novo processo de metamorfose, só que desta vez com muito medo. Ainda assim, tenho consciência de que os meus sonhos merecem uma oportunidade e se isto significar voltar para casa, não ter um emprego e acartar com o perigo do tempo a mais, que seja. Eu mereço tentar a minha sorte na minha liberdade, que vai ser eternamente construída por mim e levada até onde eu permitir.

Mudar assusta, mas mudar também injeta motivação, esperança, responsabilidade e fé em nós. Nunca na vida pensei que, ao dia de hoje, eu estaria a 15 dias de sair do Porto e voltar a casa. Não porque voltar não era opção, mas porque voltar não era opção para já. Espero ter muita força para cumprir tudo o que tenho vindo a visualizar e isto de escrever, partilhar-me e comunicar, seja de que forma for, faz inteiramente parte dos planos. A ti que me lês, obrigada. Fizeste parte desta decisão sem saberes. E se queres mudar como eu, vai! Eu estou aqui a torcer por ti.


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