A bolha
Há uns tempos, ouvi a Capicua falar numa entrevista sobre viver-se numa bolha e a dificuldade de sair dela. Referia-se essencialmente ao grupo de pessoas com as quais ela convive diariamente e as quais cumprem obrigatoriamente determinados "requisitos" no seu carácter para que esta relação seja possível. No último texto, falei um pouco sobre isto. Sobre peer group que é, no fundo, a nossa bolha.
Todas/os nós, de uma maneira ou de outra, conseguimos identificar-nos com esta linha de pensamento da Capicua. E quanto mais crescemos e evoluímos, mais pequena é a nossa bolha. Falo várias vezes sobre isto com as minhas amigas, principalmente no que toca ao amor. Temos saudades de estar apaixonadas e refletimos no quão difícil parece ser encontrar uma pessoa que se encaixe em nós. Muito mais do que um encaixe físico, quando filosofamos sobre esta questão, referimo-nos essencialmente a um encaixe mental e emocional. A tesão intelectual, como habitualmente lhe chamamos. Antes, era mais simples cairmos em paixões loucas, porque estávamos ainda a formar-nos enquanto pessoas e parecia-nos menos solitário fazer este caminho de descoberta com alguém do nosso lado. Hoje em dia, as coisas já não são bem assim. É, por exemplo, tremendamente incompreensível que ainda haja pessoas a sofrer de homofobia ou que ainda haja homens que acham que as mulheres, só por serem mulheres, lhes são submissas e inferiores. Pessoas com este pensamento da idade dos nossos pais ou avós, mesmo que não se aceite, compreende-se. Agora, pessoas da minha geração? Só não se informa sobre os assuntos quem não quer. Eu, durante muito tempo, não quis. Era homofóbica, pouco ou nada sabia sobre racismo e aceitava o machismo como algo natural. Contudo, se 2020 teve algo de bom, foi a minha disponibilidade para aprender mais sobre os direitos humanos e desenvolver empatia pelas minorias.
Acredito que isto não aconteceu só comigo. Pelo menos, dentro da minha bolha, várias pessoas despertaram para esta consciência e procuraram melhorar neste sentido. Sou hoje uma pessoa muito mais empática do que era há 2 anos, porque percebi que, se eu quero ajudar pessoas, tenho obrigatoriamente de me conseguir por nos seus sapatos. E quanto maior for a variedade dos meus sapatos, melhor. Comecei, então, a decifrar as situações mais enraizadas na nossa sociedade e contra as quais é o meu papel lutar. Posso já não conseguir mudar a minha geração nem as gerações anteriores às minhas, mas quero garantir que, quando tiver filhas/os, elas/es vivam num mundo que os deixa ser o que elas/es quiserem. E por falar em filhas/os, se há uma atitude que me dá náuseas e que antes era eu que a praticava é quando nos cruzamos com uma criança. A abordagem a um rapaz é totalmente diferente da que fazemos a uma rapariga. Talvez nunca tenham refletido sobre isto, mas digam-me lá se não é verdade. Quando é um rapaz, quantas vezes damos por nós a perguntar e/ou a ouvir perguntar "E então, quantas namoradas tens? Três? Uau!". Digam-me, quantas? Agora, porque é que isto é totalmente errado? Por essencialmente duas razões: em primeiro lugar, estamos a semear na mente daquele rapaz que é suposto ele gostar de mulheres, limitando-o à heteronormatividade; em segundo lugar, estamos a dizer àquele rapaz que é normal ter mais do que uma namorada e que é, até, um espetáculo. Na minha cabeça, a única pergunta que surge na minha cabeça após despertar para este tipo de pormenores é: "Será que alguém vai gostar se perguntarmos ao pai deste puto quantas mulheres ele tem?". E por ser tão estúpida esta pergunta é que se percebe claramente que estas abordagens aos rapazes são erradas, ainda que o pão nosso de cada dia. Depois, temos a abordagem feminina. A heteronormatividade é também semeada, porque se pergunta sempre se já tem namorado. Mas não ficamos por aqui. Muitas vezes, a resposta dos pais a esta pergunta é: "Ela ainda não tem idade para namorar". Ok. Então, o rapaz tem idade para várias namoradas, mas a rapariga, pura, santa e recatada, não pode se quer saber o que é namoro. Porquê?
Episódios como este existem aos pontapés e saem-nos da boca sem conta darmos. O problema desta nossa inconsciência é que, na mesma sala em que nós estamos (ou não, não interessa), pode também estar uma pessoa que vai sair magoada pela nossa ignorância. E se não queres saber do sofrimento dos outros, então quem precisa de ajuda és tu. Não é só uma piada sobre pretos. Não é só uma piada sobre gays. Não é só um comentário machista. Tudo isto, ao dia de hoje, ainda significa depressão, infelicidade, ansiedade, suicídio, homicídio e desigualdade. Ainda há pessoas que não têm acesso a um emprego pela cor da sua pele; ainda há pessoas a ser espancadas ou assassinadas por serem gays, lésbicas ou transsexuais; e ainda há mulheres, muitas mulheres, a serem assediadas no seu local de trabalho ou a serem desvalorizadas por terem um V no meu das pernas. E não, não é uma questão de opinião. Quem se refugia cegamente atrás da liberdade de expressão e do "25 de abril sempre" para justificar um facto (porque racismo, homofobia e machismo não são opiniões, são factos), não merece minimamente um segundo da minha atenção. Chamem-me extremista ou inflexível por isto. Eu chamo-lhe maturidade e respeito pelos direitos humanos básicos. Posso cair em falsos e injustos julgamentos por vezes, mas raramente me engano quando ainda ouço, mesmo que de forma pontual e isolada, barbaridades como: "E se o teu filho nascer paneleiro?"
A meu ver, esta é a maior dificuldade: lidar esporadicamente com este tipo de comentários. Este assunto surge-me agora, porque com o levantar das restrições e com a vontade que todas/os temos em socializar, será inevitável estarmos em contextos cujo ambiente não é tão limpo como o da nossa bolha. Em aniversários, em casamentos, seja em que ocasião for. 2020 foi um separador de águas e, se houve pessoas que passaram do lado da desinformação para o lado da educação, ainda há muita gente à deriva no cinzento. Eu já fui testada neste sentido e percebi com os meus erros que a melhor forma de mostrar a uma pessoa que ela está errada é sem tomar posições fundamentalistas e agressivas. Quando assumimos fervorosamente um lado, a outra pessoa vê isto como um conflito e vai defender-se. Vai ser um desperdício de energia da nossa parte se tentarmos alterar um ponto de vista com base no ódio. Agora, não dizer nada também não é solução. Repararem que, normalmente, quem manda uma posta de pescada sobre uma minoria fá-lo habitualmente num tom de voz mais baixo. Este é o primeiro e mais verdadeiro sinal de que a pessoa sabe que o que disse é errado e que pode sofrer represálias à custa disso. Questionar a pessoa sobre o que disse e fazê-la refletir é, na grande maioria das vezes, uma boa estratégia, porque quem vai responder às questões vai ser ela e não nós. As pessoas podem andar desinformadas, mas não são burras (embora muitas se façam passar por tal). Assim, o nosso papel enquanto pessoa que luta pelas mais variadas formas de igualdade, não é esgotar uma causa pela nossa falta de inteligência emocional, mas dar-lhe mais força pela nossa clareza de pensamento, forma de estar e carácter. Quando estão consolidadas estas questões, facilmente sabemos, por intuição e por recurso aos factos, o que fazer. Dá trabalho chegar a este nível, porque exige tempo para estudar sobre a história e a evolução das coisas. Ainda assim, acredito que o nosso propósito comum enquanto seres humanos é tornar este mundo físico melhor do que quando o encontramos.
Por isso, aos que se debruçam sobre estes assuntos, aos que vivem numa bolha e aos que gostavam que a bolha fosse a regra e não a exceção, não desistam. O mundo é mágico pelas suas diferenças. Aceitá-las já não devia ser uma luta deste século, mas já que assim é, lutemos. As nossas filhas e netas, os nossos filhos e netos merecem que façamos isso por elas/es para que, um dia, não sofram do preconceito e do ódio que nós, infelizmente, ainda sofremos.
