A vida não une pessoas, une propósitos

Para começar este texto, vou contar-vos uma história que ouvi há uns anos numa formação de desenvolvimento pessoal. É a seguinte:

Era uma vez um rapaz que se ia casar. Chegada a altura de entregar os convites de casamento, este rapaz, sem tempo para se dedicar à lista dos seus convidados, pediu ao pai para ser ele a tratar de entregar os convites. Passados uns meses, chegou o dia do casamento. De um lado, a noiva com os seus 100 convidados; do outro, o noivo, com sensivelmente 10 convidados. Incrédulo, o rapaz foi de imediato questionar o pai sobre o que tinha acontecido. "Pai, dei-te uma lista de mais de 100 pessoas para a mão que queria que convidasses e como é que só estão aqui 10?". Ao qual o pai respondeu: "Filho, ontem há noite, liguei a essas 100 pessoas e disse-lhes que tinhas tido um acidente ao qual provavelmente não ias sobreviver. Pedi-lhes para hoje, a esta hora, se dirigirem a esta igreja para rezarmos por ti e pela tua vida. Das 100, apareceram estas 10. Não te chateies comigo. Usa antes essa energia para agradecer e preservar estas pessoas, pois são as que verdadeiramente te amam e merecem presenciar um dos dias mais felizes da tua vida."

Desde o dia em que ouvi esta história até ao dia de hoje que nunca mais a esqueci. São várias as vezes que recorro a ela quando preciso de encontrar respostas sobre as pessoas que tenho na minha vida. Recentemente, senti necessidade de me sentir integrada num grupo e dei por mim a moldar-me por uns dias à sua forma de ser e estar. Na grande maioria das vezes, eu não concordava com o que era dito ou discutido e, inicialmente, não me calava e expressava a minha opinião. Contudo, pouco tempo foi preciso para entender que não vale a pena forçar relações nem gastar uma voz que não quer simplesmente ser ouvida. A necessidade de fazer parte, faz parte da natureza humana. Todas/os queremos sentir-nos identificados com coisas e pessoas. O problema desta necessidade é que, quando não nos conhecemos verdadeiramente, acabamos por andar ao sabor do vento do que os outros dizem e fazem, mesmo que estes outros sejam tão distintos entre si. Isto acontece, porque por não sabermos quem somos, o que queremos e o que gostamos, também não somos autocríticas/os o suficiente para saber dizer que não. Tanto nos inserimos num grupo interessado pelos direitos humanos como nos inserimos num grupo totalmente racista, machista ou homofóbico. Temos uma ligeira sensação do que é certo ou do que é errado, mas a vontade de fazer parte supera com frequência a lealdade aos nossos valores primordiais.

A história do casamento espelha um pouco esta nossa tendência para a aceitação e aprovação social. Recentemente, fomos "testados" neste sentido com as restrições da pandemia, nas quais há a limitação de pessoas por mesa (ou por casamento!). Se tivesses de escolher 6 pessoas para o teu aniversário, quem seriam? Ou então com os amigos chegados no Instagram. Quem são? Porque o são? E mais interessante: quantos desses estão na lista desde o início e quantos desses vão sendo adicionados e removidos? Não estou com isto a dizer que sou anti casamentos ou que sou contra ou a favor de casamentos com muitos convidados. Essa escolha depende de quem se casa e da sua intenção que, seja qual ela for, é válida. O que quero transmitir com a história do casamento é o paralelismo que ela tem para muitas coisas na nossa vida. E a forma como e porque escolhemos o nosso peer group é uma delas, sendo que peer group é tudo. "Diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és", disse alguém sabiamente não sei quando. Somos a média das pessoas com quem passamos mais tempo. Por isso é que, muitas vezes, é necessário passarmos tempo sozinhas/os. É neste tempo que nos descobrimos, nos definimos, nos emancipamos e nos tornamos na média equivalente àquilo que somos.

Quando isto acontece, é quase inata a formação de um peer group à nossa medida. Aqui, não interessa quantas pessoas dele fazem parte, mas o carácter de cada uma delas. E, no que diz respeito a carácter, é como o algodão: não engana. O dia em que tiramos tempo para nos descobrirmos é também o dia em que percebemos que não vale a pena sacrificar uma identidade em prol da aprovação social, seja isso ter um grupo de pessoas para apanhar umas bebedeiras, seja isso ter um casamento com mais ou menos aparato. Neste dia, a vida encarrega-se de tudo. Vi um vídeo esta semana de uma entrevista na qual a entrevistada disse: "Tenho uma amiga que me está sempre a dizer que a vida não une pessoas, une propósitos". Numa frase, está resumida a mensagem que quis transmitir com este texto. Quando não nos conhecemos, está no topo das nossas prioridades unirmo-nos a pessoas e vendermos a nossa alma ao que é suposto. Por outro lado, quando nos conhecemos, a prioridade muda e passa então a ser respeitarmo-nos enquanto individualidade, independentemente do suposto. E é nesta clareza de ser e estar que a vida nos brinda com pessoas cujo propósito é convergente com o nosso. Esta é uma boa explicação para as relações que, em pouco tempo, se tornam tudo; e para aquelas que durante tanto tempo foram tudo, mas que chega a um ponto em que divergem. Mais do que as pessoas, é o propósito e, contra isso, não há politicamente correto, tradições culturais ou imposições sociais que resistam.

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