Como está a ser o processo criativo de escrever um livro
Como vão poder perceber quando lerem o meu livro, esta ideia de eternizar em páginas e palavras uma história, surgiu em força a meio do ano de 2020. Impulsionada pela consistência mensal de escrita que ia tendo no blogue, parte da rotina que ia definindo, era com vista a criar as condições ideias para passar para papel o livro que já existia dentro da minha cabeça. Contudo, quem já me acompanha há uns tempos, sabe que eu sofro do Síndrome do Impostor e, por isso, a minha impostora, foi-me convencendo frequentemente que eu não era ninguém para escrever um livro. Quem é que ia querer ler a minha história? Por que razão me achava com legitimidade para o fazer? Assim, entre a rotina do dia-a-dia e a procrastinação constante e tóxica, fui adiando o momento de iniciar o meu processo criativo. Por outro lado, este deixar andar acabou por ser bom, porque me foi dando mais conteúdo, vivências e histórias para contar. Quando em julho deste ano decidi despedir-me, deixar o Porto e voltar a casa para parar, já vinha com a ideia de que esta pausa não ia ser passada a olhar para as paredes. O fazer reset à minha vida aos 27 anos, sempre teve um fim em vista: dar uma oportunidade às minhas ideias, agora que conheço a minha paixão por comunicar. Entre muito sumo que ainda divaga pela minha cabeça, o livro era o equivalente à polpa. E assim foi. Após tirar um prazeroso mês de férias, no dia 7 de setembro peguei em papel e caneta e delineei o meu livro. Dia 8, comecei a escrevê-lo.
Este processo, que leva ao dia de hoje já quase dois meses, tem sido uma autêntica autodescoberta. Por ter este blogue e por escrever diariamente no instagram, o exercício de articular frases e palavras não é o mais desafiante. Deve ser neste sentido que o talento pode eventualmente estar associado, a uma aptidão inata e natural de, no meu caso, produzir texto. Contudo, como se costuma dizer, o trabalho árduo vence o talento, se o talento não quiser trabalhar. E por mais que eu tenha ambicionado trabalhar no meu livro todos os dias, de segunda a sexta-feira, nem sempre foi possível. Aqui, sim, surgiu o primeiro desafio.
Esperar que acorde todos os dias inspirada para escrever, é deixar-me cair na narrativa inocente de que basta um respirar fundo e uma meditação para pôr a mente e o espírito alinhados. Não, nem sempre é assim. Pelo menos, comigo não tem sido. A disciplina treina-se. Ou melhor. O treino, independentemente do objetivo, vem da disciplina. Quando me auto propus à produção de um livro, sabia que era fundamental ter uma estratégia que me obrigasse ao esforço de escrever nos dias menos bons. Comprometer-me publicamente a lançar um texto novo todas as quintas-feiras neste blogue, fez inteiramente parte dela. Tendencialmente, esforçamo-nos mais para não falhar com os outros do que propriamente connosco. Por isso é que quando nos comprometemos a treinar com um/a parceiro/a, a probabilidade de sucedermos é superior do que se nos comprometermos a treinar sozinhas/os. Dinamizar o blogue como “rubrica” semanal, era um objetivo que tinha vindo a definir há já algum tempo, mas que acaba por apenas conseguir cumprir uma vez por mês, quando me apetecia ou sentia pronta. Queria tornar-me mais consistente aqui, não só por ser um espaço aberto onde posso discorrer livremente sobre qualquer assunto, mas porque me faz bem o contacto com as pessoas que me leem. Assim, olhando para esta minha ambição e para as dificuldades antecipadas que iria ter no processo criativo do livro, juntei o útil ao agradável. Houve várias quintas-feiras cuja minha vontade de escrever era nula, mas foi o compromisso convosco que me fez acreditar que eu era capaz.
Obviamente que, da mesma forma que tenho conseguido fazer este exercício funcionar para textos no blogue, também o tenho feito para os capítulos do meu livro que, by the way, tem neste momento quase seis capítulos fechados. No entanto, fosse tão fácil a aplicação desta estratégia todos os dias como é à quinta-feira e eu já tinha o livro à venda. Há dias em que por mais que tente forçar, não sai uma palavra. Passei por esta fase de forma mais intensa a semana passada, que corresponde à altura em que escrevi o quinto capítulo. Por ter delineado todo o livro no início de setembro, já sei à partida do que quero falar em cada uma das suas partes. O desafio, neste caso em específico, foi ter olhado para o que tinha definido e não ver potencial em nada. Já partilhei que o livro vai ser, à semelhança do meu blogue, sobre as coisas que me foram e vão acontecendo, e as formas como dei a volta. Mais do que uma autobiografia, quero que este livro seja uma viagem cronológica pela minha autodescoberta e que acrescente, através da partilha crua e vulnerável da minha verdade, valor à vida de quem me lê. Quando começo a achar que não vou conseguir cumprir o propósito máximo deste projeto, por mais que tente, não flui.
Então, pela primeira vez desde que comecei nesta peregrinação, parei voluntariamente. Senti que estava demasiado dentro do livro e que precisava de me distanciar do que me aconteceu na época detalhada no capítulo 5. Isto também se deveu ao facto de relatar a minha segunda metade de 2020, um ano marcado por ser igual, mês após mês. Por mais evolução que tenha sentido ao longo dos últimos 2 anos, foi-me difícil distinguir por qual mudança estava a passar nesta altura. Valeu-me os meus diários para me ler e relembrar que inquietações preenchiam a minha alma. Assim que respeitei o meu tempo e a minha autorreflexão, num fenómeno que não sei explicar, volto a acordar inspirada. Aqui, é também importante a disciplina, porque estando em casa e sendo eu a dona e senhora dos meus horários, é fácil vacilar. No entanto, se quando não há inspiração é importante o hábito de escrever, quando ela aparece, é fundamental a disciplina para agarrá-la com tudo o que tenho. Hoje, por exemplo, foi um bom exemplo disso. Comecei a escrever às 14h00, ainda não parei (são 18h42) e, mais importante do que isso, não me sinto cansada nem saturada. Acho que posso dizer que o talento hoje fez o trabalho árduo por mim. Não saber bem com o que contar quando acordo e desconhecer a intensidade da minha inspiração quando me sento em frente ao computador, tem sido a incerteza mais bonita deste percurso, porque me mostra que todos os dias são diferentes. Não há monotonia na minha criatividade, apesar da vida monótona de alguém que escreve livros.
Quanto às questões mais burocráticas que estão envolvidas na edição e publicação de um livro, não estou ainda preocupada. É importante para mim trazê-lo todo cá para fora e, depois disso, cair na real de que o sonho do livro já não é mais imaginação. Porém, o bichinho criativo do design que vive dentro de mim não descansou enquanto não encontrou uma capa. Assim, mais do que uma resma de folhas brancas com palavras impressas a tinta preta, o meu livro, ao dia de hoje, já tem uma cara. Ainda não está fechada a ideia, mas dificilmente agora consigo imaginar outra capa para o livro diferente da que construí na segunda-feira que passou.
Este tempo tem-me mostrado que fazer o que faço hoje é algo que faria para o resto da vida sem receber um cêntimo. Tenho habilidades para muitas outras coisas, mas não há nada que faça com tanto coração como escrever. E não há nada, também, que me liberte tanto como o ato de comunicar através de períodos e parágrafos. Acho que este não será o meu único livro, mas vai ser, sem dúvida, o livro da minha vida. Um dia destes, partilho-vos a capa. Não me canso de dizer que quem me lê, é participante ativo nas decisões que tenho vindo a tomar. Espero, nas páginas do meu livro, fazer justiça à gratidão que sinto por ti que estás até aqui, e que, se um dia o chegares a ler, não te esqueças que é também por ti que ele existe.
