Porque é que a nossa insegurança influencia as nossas relações?

Para começar este texto, decidi ir ao dicionário e ver a definição de insegurança. Diz assim:

· situação em que alguém se sente ameaçado ou se encontra exposto a um perigo;
· atitude de quem sente falta de confiança em si próprio.

Todas/os nós carregamos na nossa vida algum tipo de insegurança. Tirem este momento para pensar quais os fatores que vos deixam inseguras/os. É o vosso trabalho? É a vossa relação com a/o vossa/o parceira/o? É o vosso corpo? É a vossa inaptidão para falar um idioma que não seja português? Quais são as vossas maiores inseguranças? Agora que já pensamos juntas/os sobre isto, vamos refletir sobre o seguinte: nessas situações que vos deixam, tal como diz a definição acima, ameaçadas/os ou expostas/os a um perigo, qual é o vosso primeiro instinto para contornar essa insegurança? Será que passa pela coragem em assumirem o que sentem, falarem abertamente sobre isso e procurarem evoluir? Ou será que passa pela cegueira doentia de que essa insegurança não existe e pela tentativa de esquecer o problema na esperança que ele desapareça?

Muitas/os de vocês já conhecem um pouquinho da minha história pelas partilhas que vou fazendo neste blogue e no meu instagram. Aproprio-me frequentemente do que me foi acontecendo para passar uma mensagem, podendo correr às vezes o risco de ser repetitiva. Peço-vos desculpa por isso. Ainda assim, como não conheço outro percurso tão bem como o meu, vou voltar a fazer uso do que me foi acontecendo para vos elucidar acerca do que tenho para dizer hoje. Fui, durante algum tempo, uma mulher muito insegura. Não o sabia, na altura, e por isso vivia na ilusão do ego, que com alguma frequência me fazia acreditar na minha superioridade ou inferioridade em relação às outras pessoas, na tentativa nociva de anular a minha insegurança. A linha ténue entre confiança e arrogância, relaciona-se precisamente com isto: confiança é reconhecermos que somos boas/bons; arrogância é acharmos e dizermos aos outros que somos melhores do que eles. Optar por aceitar esta história criada pela nossa mente, nunca nos fará felizes, pelo simples facto de basearmos a nossa vida numa mentira. A mentira do ego que nos coloca no pedestal. Por outro lado, temos também a mentira do ego que nos inferioriza relativamente a todos os mortais, transformando a arrogância em autocondescendência. A vulgar narrativa da vitimização, que nos faz acreditar que nenhum problema do mundo é superior ao nosso e que a dor que carregamos apenas serve o propósito de nos fazer sofrer. Escusado será dizer que, tanto a identificação com a arrogância como com a condescendência, só nos impede de evoluir, e faz de nós seres permanentes e dependentes.

Começando pela permanência, li há uns tempos uma frase que me fez muito sentido. Dizia que nós não somos, nós estamos. Enquanto que o ser pertence às milhões de combinações indecifráveis que fazem de nós uma/um num bilião, o estar pertence à forma como as nossas vivências nos influenciam. Eu sou criativa, mas a forma como o dia me corre, pode colocar-me num estado de maior ou menos inspiração. Por isso é que dizemos que somos criativas/os e estamos mais ou menos inspiradas/os. Isto mostra-nos que o ser não se altera com as circunstâncias, mas o estar sim. Quando falamos de insegurança, o cenário é parecido. Há determinadas situações que nos fazem estar mais seguras/os ou menos seguras/os, mas será que somos inseguras/os por natureza ou foram as próprias vivências que nos tornaram assim? Será que nascemos com uma insegurança inata ou foi uma infância conturbada, um fracasso num trabalho ou um desgosto numa relação que nos fez assim? A insegurança pertence ao ser ou ao estar?

A resposta parece-me óbvia. Nós estamos inseguras/os, não somos inseguras/os. Mas a incapacidade de segmentar o que sentimos do que somos, leva-nos a acreditar que as nossas inseguranças são parte de nós e, por inconsciência e irreflexão, carregamo-las como uma parte nossa para todo o lado. Por isso é que sentimos "atrair" sempre o mesmo tipo de problema para nós. A partir daqui, entramos numa espiral de fingimento e convertemo-nos em pessoas incapazes de falar abertamente sobre o que nos angustia, pelo medo do julgamento e da exposição. Assim, sempre que nos sentimos desconfortáveis no trabalho, porque a/o nossa/o chefe faz disparar um trauma ou uma dor antiga, em vez de nos dirigirmos a ela/e e expormos a nossa intenção em arranjar soluções para evoluir, escondemo-nos antes atrás da nossa insegurança, alimentando essa dor e fingindo que está tudo bem. Ou então, sempre que nos sentimos desconfiadas/os na nossa relação, porque fomos outrora traídas/os ou profundamente magoadas/os, em vez de esclarecermos as pontas soltas com a/o nossa/o parceira/o para procurarmos junto dela/e uma estratégia que evite o ricochete do nosso passado, sustentamos antes o monstro da nossa cabeça que aos poucos nos destrói. Parece-nos mais fácil adotarmos uma atitude de falsidade, do que sermos vulneráveis e comunicarmos com transparência e verdade. A curto prazo, até pode resultar. A longo prazo, tudo isto só leva a uma falta de paz interior insuportável e, na pior das hipóteses, à ruína de algo que outrora foi respeito e amor, mas que agora não passa de dependência.

Aqui, entramos na zona perigosa de nos tornarmos dependentes de uma relação, profissional ou pessoal, por não entendermos que nunca seremos capazes de controlar o que os outros fazem, dizem ou sentem. Acredito que uma forma inteligente de fugir ou, pelo menos, de minimizar o sofrimento, é aceitarmos o facto de que nunca vamos conseguir controlar as intenções, as atitudes e os sentimentos da outra pessoa. Por mais boa ou má intenção que o outro tenha; por mais correta ou incorreta que seja uma atitude alheia; ou por mais que a outra pessoa já não sinta o mesmo por nós, a única coisa que conseguimos controlar é a forma como lidamos com isso e como somos fiéis aos nossos valores e limites. E aqui, é crucial que trabalhemos diariamente nas nossas inseguranças, pois vão ser elas que vão ditar a nossa coragem em sermos nuas/nus em emoções, medos e preconceitos. Alguém que quer o nosso trabalho ou que nos ama verdadeiramente, vai querer-nos como um todo. Vai aceitar cada cicatriz e trauma da nossa alma e vai ser parceiro no sentido inteiro da palavra. O que não podemos esperar, é que quem nos rodeia nos aceite, se nós não somos capazes de o fazer. Não podemos também esperar que alguém entenda as mensagens que nós só estamos dispostas/os a deixar nas entrelinhas. O óbvio preciso de ser dito, todos os dias. Mas para que este óbvio ser torne assim tão evidente, tem de partir de nós a bravura de enfrentar o passado e dele sair uma fénix.

Olhar para o que nos aconteceu com olhos de arrogância ou condescendência, vai fazer de nós eternas/os inseguros em relação ao que de melhor ou pior isso nos trouxe. A emancipação surge no dia em que olhamos para o nosso passado, nos orgulhamos da nossa força e nos inspiramos nela para nos tornarmos melhores pessoas, não só para o outro, mas principalmente para nós mesmas/os. Da mesma forma que somos descontroladamente impermanentes, também a outra pessoa o é. Cair na inocência de querer controlar o que nos é externo, é perpetuar a dependência, o sofrimento e a dor, é dar alento à insegurança. Se já controlar o nosso interior é desafiante, imaginem a frustração ininterrupta que é querer controlar os outros. Assim, é fundamental entendermos que qualquer que seja o acontecimento, a nossa insegurança vai normalmente fazer dele maior, mais grave e mais doloroso. É urgente desconstruirmos o que somos para que entendamos, de uma vez por todas, que isso não se pode alterar pelo modo como algo ou alguém nos faz estar. A nossa única preocupação tem de passar por nos conhecermos ao ponto de sermos leais à nossa essência e autenticidade. O resto, é impermanente. Pessoas e oportunidades vêm e vão. E mesmo que fiquem, essa relação terá sempre de ser vista com olhos de aprendizagem mútua, companheirismo e evolução, e não com olhos de dependência, submissão ou posse. Estes últimos, e não os olhos verdes, é que são cruéis como punhais. E os olhos bons com coração, independentemente da cor, são os teus e os meus, quando aprendermos que a única permanência da vida é a do nosso valor individual.

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