Distopia interior

Voltaram as minhas maratonas de silêncio. Quase 24h sem falar. Interrompi o silêncio das quatro paredes para expulsar em palavrões a raiva que senti a cada episódio da série que estou a ver. Ou melhor, a devorar. Chama-se The Handmaids Tale e, para quem não conhece, é uma distopia dramática e assustadora. Adoro distopias, porque me fazem sempre pensar num futuro que pode acontecer, mas que ninguém deseja. Talvez por isso os últimos dias tenham sido passados entre a distopia da séria e a minha distopia mental que, no silêncio dos meus dias, me tem ensurdecido os pensamentos.

Ter regressado ao Porto e ter ficado por cá uns dias a trabalhar, foi a prova que precisava de que não pertenço aqui. Ainda assim, quando penso onde vou estar, também acho que não pertenço a esse lugar. Não acho que pertenço a lugar nenhum, além do lugar no qual me sinto livre. E, nos últimos dias, tem sido difícil posicionar-me nessas coordenadas. Com o terminar do meu livro a aproximar-se, começam a surgir muitos medos. O medo do que vai ser de mim a seguir; o medo de que as expectativas, as minhas e as dos outros, não sejam cumpridas; e o medo de transformar a minha história, numa história do mundo. Acho que este último medo é o que mais me assombra. Pensar nas pessoas que vão ler o que nunca disse, apesar de me terem visto crescer, assusta-me. A fuga aparece-me como solução. Fugir do ambiente vulnerável e das perguntas que eventualmente vou ter de responder. Eventualmente. Tudo não passa de uma suposição e, contrariar esta tendência, tem sido desafiante. Sinto que estou prestes a pôr-me em situações e conversas com as quais não estou preparada para lidar. E isso atraiçoa-me. Ainda assim, li agora num livro que a traição é o golpe que não esperamos. Talvez no futuro, que não existe, a realidade não seja assim tão assustadora por já estar a antever a eventualidade dos acontecimentos. Outra vez, a eventualidade.

Escrever um livro está a ser o maior exercício de meditação ativa pelo qual já passei. Sempre que penso em mim a escrever, não consigo identificar um som, um cheiro, um sentido ou um pensamento. Apenas recordo o barulho das teclas a tentar acompanhar a velocidade com que me surgem os pensamentos, e a música clássica de fundo a contrastar com a ânsia que tenho de trazer tudo cá para fora; não tanto por achar que tenho muitas coisas para dizer, mas pelo prazer de abstração do mundo real que escrever me dá. Por outro lado, quando o botão do coma se desliga e volto aos pés na terra, surge o medo. Apercebo-me que, aquilo que escrevi durante horas, vai ser lido por qualquer pessoa que tenha vontade de o fazer, as vezes que forem precisas, para sempre. Não pus isto na balança quando decidi escrever um livro. Só pus as coisas boas, não as coisas que causam desconforto. Mas, na verdade, as coisas boas e as descontáveis não serão a mesma coisa?

Deram-me ontem os parabéns pela coragem. Respondi que receber esse elogio era irónico pelo tremor entre as pernas que sinto. Pela boca que seca; pelo descontrolo de uma rotina que durou meses a consolidar; e, agora que penso, pelas estratégias fáceis, fracas e inconscientes que tenho arranjado para adiar o dia em que esta distopia interior vai acontecer. O problema da palavra distopia, é que ela prevê um futuro opressor. A contrastar todos os dias de esperança e entusiasmo que tenho vivido a imaginar uma vida livre como criadora orgânica de pensamentos que não se veem, floresceu-me nestes dias das entranhas toda a cobardia e ousadia de equacionar desistir. Sei hoje que desistir não é dos fracos. Desistir, às vezes, é renascer, por abrirmos mão a algo que só nos faz mal. Mas eu não quero renascer de um medo de um futuro trágico, mas da fé nas escolhas do presente que me levarão a um futuro mágico. Independentemente de as situações hipotéticas sobre as quais vivo hoje se tornarem ou não realidade, a certeza profunda que tenho é que quero passar por isso. O pior cenário de me lerem, é ficarem a conhecer-me. E se o meu medo tem por base o julgamento que vou receber depois disso, então mais vale não viver mesmo. Porque a única forma de evitar a crítica é, como disse Aristóteles, fazer nada, dizer nada, ser nada. E entre o fazer, o dizer e o ser, eu vou preferir sempre o ser. O ser eu, o ser feliz, o ser livre. Definido por mim, definido apenas por mim. Seja lá o que for isto de ser eu, livre e feliz.



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