Seremos assim tão fracassadas/os?
Sinto que hoje em dia se fala muito de fracasso. Já todas/os passamos pelo sentimento de fracassar e sabemos que isso não é nada bom. Por um lado, o julgamos alheio; por outro lado, e o que mais pesa e mais magoa, a automática e inevitável autocomiseração. Sou especialista em sentir-me um fracasso e se pudesse mudar alguma coisa na minha vida, era o discurso feio e pesado que tenho muitas vezes para mim própria. O facto de transmitir uma mensagem positiva e vulnerável na minha escrita, faz-me, lá está, sentir frequentemente um fracasso, precisamente por nem sempre conseguir aplicar aquilo que preconizo. Ainda assim, considero que esta tendência doentia de nos acharmos uma merda, pode relacionar-se com a exigência do mundo atual e com a consequente indefinição de sucesso. Ou melhor, com a definição de sucesso engavetada, onde, qualquer que seja o campo da nossa vida, há sempre um padrão de referência que deve ser cumprido. Se o desvio padrão for muito grande, é-nos automaticamente colado o rótulo de fracasso, fazendo-nos esquecer das coisas boas que conquistamos até “fracassar”. Tendemos a ver o copo sempre meio vazio quando, muitas das vezes, temos motivos mais que suficientes para o ver transbordar.
A propósito disto, a semana passada foi difícil para mim, porque me deixei invadir por todo o tipo de pensamentos derrotistas que diariamente me visitam, mas que consigo controlar ao ponto de não arruinarem o meu dia. Em desabafo com a minha amiga Marcela (que vão poder conhecer no meu livro com mais pormenor), disse-lhe que me sentia a Valéria da vida real. A Valéria é uma personagem de uma série (que se chama Valéria), que vive num caos profissional e pessoal, causado pelas suas milhares de inseguranças que ela tem. Quando disse à minha amiga que me revia na Valéria, estava a falar obviamente do lado sombra; ao que ela me respondeu: “Sim, és a Valéria. Superação e sucesso”. Não sei se já viram a série ou não, mas para contextualizar, a personagem, após muito batalhar e sofrer, acaba por ver realizado com sucesso um dos seus maiores sonhos: ser uma escritora reconhecida. Ao ouvir a minha amiga Marcela dizer-me isto, acordei para a vida. Nunca me ocorrera esta perspetiva. Fez-me ver o copo meio cheio e relembrou-me de que, além dos resultados quantificáveis e padronizados que queremos ver, importam também todas as coisas que conquistamos até lá chegar. Ou todas as coisas boas que restam de algo que outrora foi considerado um sucesso. Um bom exemplo disso, são os casamentos que acabam. Um divórcio é um fracasso de acordo com as regras da sociedade. Mas e se desse casamento que terminou, houver um filho? E se essa relação que acabou nos leva na direção do autoconhecimento e na definição de limites para experiências futuras? E se esse casamento nos trouxer bons amigos que se mantém após o divórcio? O fracasso associado ao divórcio deve apenas referir-se ao termo de algo que se expectou ser eterno, mas não acho justo considerar um filho, um amigo ou uma experiência de emancipação, um fracasso. O mesmo acontece com um emprego (e aqui, falo por experiência própria). Sinto-me frequentemente um fracasso em termos profissionais. Por não trabalhar na área para a qual estudei durante 5 anos; por, aos 27 anos, estar desempregada e a viver em casa dos meus pais; por não ter ainda a minha total liberdade financeira. Porém, se não fosse este fracasso na minha carreira, provavelmente nunca estaria ao dia de hoje a acabar um livro e a trabalhar naquilo que me apaixona; nunca tinha conhecido a Tânia, as Dianas, a Letícia, o Bernardo, o Marcelo, o Matheus, a Shirley, a Camila, o Edgar, a Francisca, a Inês, o João, a Carlinha, a Ester ou a Lara; nunca tinha viajado por mais de 30 destinos em 4 anos, em três continentes diferentes; e nunca tinha tido acesso ao autoconhecimento, que me salvou de uma vida sem sentido. Ingratidão era chamar a todas estas coisas e pessoas um fracasso, simplesmente porque o meu desvio padrão à norma está a tender para mais ou menos infinito.
Algo que pode ajudar a afagar estes pensamentos derrotistas relativamente ao que é o fracasso, é arranjar a definição de sucesso que mais se relaciona com os vossos valores individuais. Para mim, sucesso é conhecermo-nos e sermos boas pessoas todos os dias. A sentir-me um fracasso, devia ser apenas nos dias em que falho neste sentido e não nos dias em que não me encaixo. Eu sei que é difícil pensar desta forma e aplicar estes princípios no dia-a-dia. Sei-o, porque, como já disse, falho várias vezes nisto. Mas também é difícil aguentar a carga de insucesso e reprovação que pomos nos ombros, por nos compararmos constantemente ao mundo regrado do qual fazemos parte. Seguir os padrões é o que nos leva habitualmente a adiar o término de uma relação que nos corrói ou a ter uma carreira infeliz para sucedermos em números. Pois bem. Mais do que a forma como a minha vida se parece, estou preocupada na forma como a minha vida me faz sentir. E se o preço por não seguir a norma é sentir que se morresse hoje, morria viva, então eu estou eternamente disposta a pagá-lo. Talvez sejamos muito mais bem-sucedidas/os do que pensamos. Não saber cozinhar, não querer ter filhos, não ter um talento especial, não saber o que fazer da vida, não estar numa relação, acabar uma relação, ser traída/o, não ir ao ginásio, não saber o que é uma Bitcoin, não gostar de ler, não investir na bolsa, não saber falar inglês, não ter um negócio próprio, não ter um emprego ou querer alguma coisa que ninguém habitualmente quer, não faz de nós um fracasso. Faz de nós seres humanas/os. O que nos falta é só mesmo uma Marcela na nossa vida, de manhã e à noite, a lembrar-nos do quanto já conquistamos até ao “fracasso” que somos hoje. E amor também, já que na sociedade utópica movida a amor jamais seríamos capazes de apontar o dedo a alguém por ser simplesmente diferente de nós.