Imagina uma vida sem segredos

Tenho falado muito na verdade, na minha verdade, numa tentativa de me preparar para todas as emoções que me esperam quando as páginas do meu livro passarem a ser lidas por muitas pessoas. O meu maior medo durante o processo criativo foi a reação dos outros. “Esta pessoa vai ler isto e vai perceber que é ela. E se leva a mal?” Muitos destes pensamentos povoaram a minha mente, mas felizmente tive sempre os meus anjos da guarda a dizerem-me que não era minha responsabilidade a interpretação dos outros. E é verdade. Quando somos honestas/os connosco mesmas/os, tem de deixar de ser preocupação a forma como os outros vão lidar com isso, até porque focarmo-nos neste aspeto é focarmo-nos em algo que não controlamos. Só por aí não vale um pingo da nossa energia, ainda que naturalmente tenhamos medo do julgamento e da crítica.

Vivendo eu em casa dos meus pais, a primeira pessoa a ler o meu livro foi a minha mãe. Nele, falo muito das minhas angústias, na repressão autoimposta e do facto de ter sofrido muito em silêncio desde que me lembro. É-me muito difícil a tarefa de falar as minhas angústias com quem me viu crescer e por isso obtenho tanta satisfação na escrita, uma vez que através do pressionar infinito de teclas de computador, permito-me comunicar sem filtros nem pudor. Escusado será dizer que este medo que desenvolvi de quem me ia ler muito se relaciona com a minha família. Tenho noção da transparência da minha Quimera e por isso tenho também noção do impacto que pode causar em quem, durante tanto tempo, achou que estava tudo bem. Pouco depois da minha mãe ter começado a ler o meu livro, começou a chorar. Estávamos na sala e ela não foi capaz de conter as emoções pelo que se refugiou no quarto e leu o livro ininterruptamente durante duas horas. Enquanto eu e o meu pai estávamos a ver o Porto a ser eliminado da Champions, a minha mãe estava a ler e a chorar na fronha da almofada. E por incrível que pareça, o medo que senti até este momento transformou-se em liberdade. O que me leva a uma conclusão: ter escrito este livro foi o inconsciente ato final de libertação.

“Agora percebo”, disse-me a minha mãe e a minha madrinha que também ela já começou a ler o livro. Senti-me a sair de um armário escuro no qual me fechei a sete chaves desde a minha adolescência, desde a altura da bolha 1.0. que refiro no livro. O meu livro é o deixar cair pleno de segredos e de angústias e é um passo em frente numa nova vida onde não vou ter mais medo de dizer quem sou, o que quero, o que gosto, o que vivi e o que quero viver. Não antecipei estas emoções e, desta forma, todo este processo está a ser uma surpresa. Ontem entreguei um livro em mãos às dezanove e perto da uma da manhã recebi mensagem da pessoa a agradecer-me. Pela primeira vez na vida, começou e acabou um livro no mesmo dia. Depois do choque e do turbilhão que me abananou as ideias, sentei-me na minha secretária e escrevi no meu diário. O sonho do livro, mais do que de escrever um livro, foi tornar-me escritora, tornar-me artista no sentido de fazer mexer com entranhas e deixar quem consome a minha arte no desconforto do confronto com a realidade. Nas últimas páginas, digo que dei o corpo às balas por todas as pessoas que se sentem perdidas na vontade desesperada de se tornarem melhores. E digo também que o fiz, porque alguém um dia também deu o corpo às balas por mim, ajudando-me a transitar de um estado em que não tinha vontade de viver para um estado em que sou muito grata e muito feliz pela dádiva da vida.

Desde que escrevo que premeio a vulnerabilidade como ingrediente essencial nas minhas palavras. Efetivamente a força e a coragem que ela nos dá é imensurável ao nível da liberdade. O ato de se ser livro não tem tamanho, porque ultrapassa os limites daquilo que é palpável. Tentar explicar a liberdade é como tentar explicar a eletricidade: ninguém sabe muito bem como é que ela funciona, mas toda a gente sabe que se puser um dedo dentro de uma tomada, vai provavelmente apanhar um choque. Ser-se livro é isto. É a energia em movimento, que não se vê, mas que se sente, numa alma que deixou de se preocupar com a verdade alheia a partir do momento em que escolheu a própria verdade.



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