O amor não é uma relação
Desafiaram-me a falar de amor em todas as suas vertentes. Creio que isto significa as várias formas de amor. O amor por um amigo, o amor por um amante, o amor por um animal, o amor por um trabalho. Esta tendência para fragmentar o amor leva-nos a categorizá-lo e a torná-lo num barómetro: temos o nosso amor preferido, aquele que mais nos faz vibrar, e é este o que indica se os restantes amores estão acima ou abaixo. Com isto, há uma inevitável comparação de “este amor é melhor que esse”. E é aqui que o amor se perde. Aliás, o amor perdeu-se lá atrás quando lhe atribuímos categorias baseadas nas relações que temos. Porque quando o verbo do amor passa a ser o verbo “ter”, então o amor passa a fazer parte do plano da posse. E não há amor verdadeiro que possui. O amor que possui pertence ao ego e amor e ego não coexistem.
Tudo o que escrevi anteriormente foi com a ajuda de um livro que estou a ler e que aprofunda intensamente isto do amor. Ainda não o terminei, mas nas oitenta páginas que já li, o conceito que mais me marcou foi precisamente este de que o amor não é uma relação, o amor é relacionar-se. À primeira leitura parece ser a mesma coisa, uma relação e o ato de nos relacionarmos, mas se desconstruirmos o que está por de trás destas palavras, entendemos a profundidade do significado que lhes é atribuído. Vou tentar simplificar.
Numa relação há amor, mas o amor não pode significar ter uma relação. Quando atribuímos ao amor o ato de ter uma relação, estamos inconscientemente a objetificá-lo. Isto é perigoso, porque estamos no fundo a acreditar que essa relação que temos é como um objeto. E se por um lado isso nos dá conforto (red flag!), porque a qualidade inalterável de um objeto garante-nos que vamos gostar sempre dele, por outro lado estamos em simultâneo a cair no erro grave de acreditar que uma relação é inalterável. Não é, pelo simples facto de uma relação ser feita de pessoas, que todos os dias se modificam e se expandem, tal e qual como o cosmos.
Aqui entra o conflito. Vai haver um dia, resultado do somatório de vários dias de transformação, em que a pessoa com quem temos uma relação já não vai ser igual àquela com a qual estabelecemos uma relação. De repente, sentimo-nos enganadas/os, porque afinal essa pessoa não é permanente; e enganamos, porque, a certa altura, prometemos amar e respeitar a pessoa que temos ao nosso lado, e já não conseguimos cumprir com a promessa. Este é o perigo de tornar o amor num bem, numa pessoa. Confuso? Então vamos à outra parte que diz que o amor é relacionarmo-nos.
Retirar o verbo “ter” da equação transforma automaticamente o amor num verbo e não num substantivo, num bem. Ao deixarmos cair por terra a crença da permanência, acontece algo mágico: como não assumimos que a outra pessoa vai ser sempre igual, sempre garantida, temos plena consciência de que quem se deita connosco não vai ser igual a quem se levanta. Ter uma relação é assumir que a pessoa é o móvel do quarto; relacionarmo-nos é assumir que a pessoa é como um rio, sempre em movimento. E, segundo esta consciência, damos o significado certo ao amor: o da liberdade, da fluidez e da descoberta, tal e qual como um verbo. Amor é todos os dias começar de novo; é apresentarmo-nos diariamente ao outro; é a vontade de decifrar a pessoa que está ao nosso lado, de aprofundar o seu espectro de vivências, das mais leves às mais densas; é, no fundo, a exploração da consciência. É isto que é relacionarmo-nos com algo ou alguém. Não é sobre ter uma relação porque te amo, mas amar simplesmente relacionar-me contigo.
Quantas vezes já ouvimos alguém dizer “acabamos, porque as coisas mudaram” como justificação para o fim de uma relação? Se o amor não sobreviveu à mudança, é porque não era amor verdadeiro; é porque um e outro viveram na ilusão da permanência e não se entregaram à exploração mútua e diária da consciência. Tenho exemplos claros na minha vida que são prova de amor que é verdadeiro e amor que não é. No meu processo de metamorfose tive muito gente a dizer-me “afastamo-nos, porque tu mudaste. Já não é a Inês que eu conheci”. Mas simultaneamente também tive pessoas que mais do que apontar a minha mudança, mantiveram-se interessadas em acompanhá-la, percebê-la e recebê-la. Ao dia de hoje, quem me disse que mudei são apenas pessoas com as quais tive uma relação; quem abraçou a minha mudança são pessoas com as quais me continuo a relacionar.
Considerando tudo isto, e voltando ao assunto do amor em todas as suas vertentes, acho que esta visão de que o amor tem categorias vem precisamente da limitação em atribuirmos matéria a algo que só se sabe sentir. Convido-vos a refletirem sobre as vossas relações e a tentarem decifrar quais delas estão no campo da posse e no campo da liberdade. Por mais que custe, façam-no. A verdade está ao serviço da liberdade, usem e abusem.
Por último, importa também referir que nada do que escrevi anteriormente existe sem o amor próprio, pelo simples motivo de ninguém amar quem não se ama. Há dias escrevi “tantos anos de escola e ninguém nos ensinou o amor próprio”. Agora talvez perceba que não interessa uma sociedade que se ame, porque onde há amor, não há medo; e onde não há medo, não há política nem religião. Assim, que a exploração da consciência parta em primeiro lugar de nós e para nós, pois é isso que vai ditar a qualidade das nossas relações. O amor próprio é isso: é ensinar ao outro, sem medo, a forma como vocês amam e gostam de ser amadas/os. E por mais egoísta que isto possa soar, garanto-vos que é por aqui o caminho da consciência, da libertação, da alegria e do amor verdadeiro.