Ser demasiado

Esta semana desabafei sobre sentir-me demasiado. Depois desabafei sobre o oxigénio que ganhamos quando libertamos o que nos sufoca. E hoje venho falar destas duas coisas aliadas ao facto de me sentir um macaco a saltar de galho em galho ao longo do dia, sem capacidade de me focar numa coisa só. Vamos por partes.

Sentir-me demasiado não é de agora. Conto no meu livro de que forma a minha infância fez de mim uma mulher insegura e em conflito constante entre o querer vencer e o não querer ofuscar ninguém com isso. Fui rotulada, quando ainda era criança, como a melhor. Na escola, na música, no desporto, felizmente eu era boa em muita coisa. Mas, por outro lado, o facto de eu ter uma inata facilidade em aprender e em fazer a minha criatividade dar frutos, fez com que eu sofresse muito na escola com isso. Ninguém, desde colegas a encarregados de educação, disfarçava o descontentamento quando me viam no primeiro lugar do pódio. Na altura, tudo isto foi lenha para a minha fogueira que, apesar de solitária, era maioritariamente feita de determinação, coragem e foco. Anos mais tarde, já mulher, foram vários os desafios profissionais que me puseram em posições de competição e de lutar por um resultado quantitativo. Aguentei-me nesta situação o tempo suficiente até perceber que os números, o pódio ou o pedestal não fazem sentido para mim se chegar e ficar no topo sozinha. Do altruísta e do sentido de propósito coletivo que isto tem, tem também uma boa dose de autossabotagem disfarçada (porque é desequilibrada) e que me levou e leva a anular várias das minhas potencialidades devido a um medo de voltar a ser excluída por quem não chega tão longe ou tão alto quanto eu. A transferência que isto tem para a vida fora do profissional é quase total. Daí achar-me, muitas vezes, demasiado. Acho que falei demasiado quando estive com os meus amigos; acho que tornei o assunto demasiado sobre mim; acho que fui demasiado entusiasta. E das muitas vezes em que sim, isto até pode ser verdade, há umas outras tantas em que tudo não passa de uma perceção minha que tem por base o medo de perder quem amo, o medo de ser insuportável, o medo de usar muitas vezes a palavra “eu”, o medo de incomodar.

Este sentimento intensificou-se esta semana que coincidiu com o meu aniversário e com a primeira semana de pré-venda da segunda edição do meu livro. Como já previa, a venda do livro não está a dar-se ao ritmo da primeira edição e percebo hoje que devia ter optado por uma estratégia de marketing diferente para chegar a mais gente. A minha amiga Lara tem razão quando diz que por mais incrível que seja o meu livro, não me adianta de nada se as pessoas não souberem que ele existe. A análise cirúrgica que ela fez ao meu bloqueio levou-me a entender que se não for eu a falar daquilo que mais prazer na vida me deu a fazer, absolutamente ninguém o vai fazer por mim. Mas é aqui que, novamente, entra o achar-me demasiado. Não estarei a falar demasiado do meu livro? Não serei demasiado chata? Insistente? Não estarei a impingir o livro às pessoas? Eu sei que a resposta é isto é não, porque tudo aquilo que eu faço vai ao encontro da minha verdade que não coexiste com a dependência, com o desespero e com o fingimento. Pelo contrário. A minha verdade anda de mãos dadas com o fracasso, que é efetivamente daquilo que sou feita: de fracassos emocionais consequentes das minhas eternas tentativas em ser livre e feliz.

Contudo, o somatório deste medo em estar a cansar quem gosta de mim com um produto que eu acredito genuinamente e sem pretensão nenhuma que pode melhorar o dia de alguém, bloqueou-me ao ponto de, no meu dia de anos, o dia que eu mais aguardo no ano inteiro, tenha tido uma vontade estúpida e egoísta de me isolar. Como é habitual, os meus amigos ligam-me à meia-noite para me dar os parabéns e para me surpreender da forma que é possível tendo em conta a distância. Admitir que vi a chamada deles, que os vi acordados e expectantes para que eu atendesse e que optei por os ignorar e por mentir no dia a seguir, não me enche de orgulho. Pelo contrário. Enche-me de consciência do quão overwhelmed me ando a sentir ultimamente. Para não deixar que este confronto triste e desonesto com a verdade me perturbasse, quando me consegui distanciar o suficiente do meu ego, liguei-lhes e disse-lhes o que tinha acontecido. Chorei baba e ranho e fruto da minha infinita sorte, senti o abraço virtual de cada um deles. Pedi-lhes desculpa por ter agido mal, ainda que não tenha apresentando nenhuma justificação aparente para o sucedido. Eu também não sei o que é isto de, de vez em quando, me sentir triste sem motivo aparente. É mercúrio? É o período? É a lua?

Não sei o que é, mas desconfio que venha da pressão de ter muitas ideias, muita vontade de tenho me dedicar àquilo que gosto e me faz bem (e felizmente são tantas essas coisas) e de sentir que tenho bombardeado o mundo ao meu redor com tanto caos e tanta informação. O livro, as ilustrações, as parcerias que aceitei, o recente desafio “Reage, mulher!”, os meus objetivos mais ambiciosos, a vida entre casa e Porto, a minha vida pessoal e os tempos mortos que também me fazem bem, tudo isto borbulha na minha cabeça e não me tem dado espaço para parar, pensar, planear, aplicar e aproveitar. Mas comprometo-me aqui que as coisas vão ter de mudar. Daí estar também a iniciar um desafio convosco que me vai dar de volta os pequenos hábitos diários que me devolver a paz interior que tinha há 6 meses.

Com isto quero dizer-vos, a vocês que me leem, que me seguem e que me apoiam, que quando eu digo que uma mensagem vossa faz a diferença é neste sentido: é perceber que, apesar de eu me estar a achar constantemente demasiado e em fase de teste e descoberta, houve uma pessoa que me ouviu até ao fim, que se identificou com a minha partilha e que tirou um minuto do seu dia para me dar amor. É inegável o impacto positivo que isso tem no meu dia e o alento que me dá para não mandar tudo à m*rda e optar pelo caminho da certeza, do conforto e da vida a preto e branco. O mundo, esse sim, anda demasiado rápido, demasiado intenso, demasiado exigente e demasiado superficial. Talvez o problema seja do mundo e não nosso. Mas mesmo que isso seja verdade, é para as soluções que temos de olhar e não para os cento e um remendos que o mundo prestes a explodir tem. Que esta self talk que aqui acabei de ter vos ilumine e encoraje e que, se tal como eu se acharem demasiado, pensem sempre que há alguém neste mundo que se inspira e se revê nessa vossa loucura de ter pouco coração para uma alma tão jovem, tão alegre, tão viva, tão livre. Estamos juntas/os.

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