Hoje o teu mínimo foi suciente
Quem me acompanha no instagram sabe que a semana passada
partilhei aleatoriamente que tinha iniciado um desafio de noventa dias na busca
de uma versão minha melhorada. Dei-lhe o nome “Reage, mulher!” apropriando-me
de um meme que viralizou há dias na internet, pela necessidade que estava
a sentir disso mesmo, de reagir. Creio que o texto da semana passada deixou bem
claro a confusão mental em que encontrava. Assim, depositei todas as minhas
fichas num desafio que ia fazer sozinha e que decidi partilhá-lo em voz alta
para a minha comunidade do instagram muito honestamente para me obrigar a não
falhar. O compromisso é comigo, mas conheço-me ao ponto de saber que numa fase
inicial é importante este compromisso com os outros. O que eu não estava a
contar quando “mandei para o ar” esta conversa do desafio era que mais mulheres
estivessem com vontade de reagir e de, de certa forma, fazer o desafio comigo.
No próprio dia, criei um grupo no Telegram para quem se quisesse juntar e, de
repente, éramos mais de 50. No espaço de 48h, vi-me obrigada a estruturar de
forma clara o desafio que tinha desenhado para mim há uns dias para conseguir
ajudar o máximo de pessoas, mulher e homens, a reagir e a sentirem-se, acima de
tudo, menos sozinhas nos dias em que é difícil cuidarmos de nós.
Desta forma, dividi os 90 dias por 9 ciclo de 10 dias com o
objetivo de tornar o progresso leve, exequível e ajustável a cada ciclo; depois
decidi definir os objetivos através de um “porquê” e de um “como”, sendo estas
duas perguntas o que dá propósito e orientação aos objetivos a 90 dias que
definimos; e por fim escolhemos certos hábitos diários, definidos por um
mínimo, que temos de ir cumprindo a fim de chegarmos ao final deste campeonato
de 3 meses em primeiro lugar no pódio da realização, superação e evolução
pessoal em todos os campos do ser humano: físico, mental, espiritual,
profissional e emocional. Indissociáveis uns dos outros, influenciados uns
pelos outros e, por isso, trabalhados diariamente e em conjunto.
Estou atualmente no sétimo dia do primeiro ciclo e toda esta
loucura organizada em cima do joelho em menos de 24h já me trouxe muito mais do
que alguma vez imaginei. Em primeiro lugar, as mudanças na minha saúde mental.
Sentia-me sobrecarregada e abafada com tantas ideias e tanta inércia em pô-las
em prática. O planeamento do meu dia com base numa estratégia holística de
emancipação fez toda a diferença. Todas as noites, antes de me deitar, escrevo
os meus compromissos, os meus hábitos e o conteúdo a ser partilhado. Assim,
quando acordo, depois de agradecer, espreguiçar, fazer a minha rotina de skin
care e meditar, pego no meu planner e tenho já a programação do meu dia.
Em primeiro lugar, está a minha slow morning durante a qual me hidrato,
preparo o meu pequeno-almoço, leio e escrevo no meu diário como me sinto, como
foi o dia anterior e quais são os meus objetivos a 90 dias (isto tem-me ajudado
na visualização). Depois disto, treino, tomo banho e preparo o almoço. E a
seguir ao almoço, entro em modo trabalho. Nos últimos dias tenho andado a
entregar os meus livros e a trabalhar em dois projetos de ilustração que me têm
dado muito prazer e estaleca para aprimorar a minha arte. A minha prenda de
anos para mim mesma foi um curso de ilustração, pelo que pôr em prática o que
vou aprendendo nas minhas ideias é muito gratificante. Depois do jantar,
dedico-me a relaxar e às 23h30 é a minha hora de dormir.
Esta é a rotina que tenho pensada para mim. Se a cumpro
todos os dias de forma rigorosa, disciplinada e sem falhas? Não. Porquê? Porque
não sou perfeita. Há dias em que não me levanto quando o despertador toca; há
dias em que não treino como tinha planeado; há dias em que me perco nas redes
sociais; há dias em que a meditação não surte qualquer efeito. E garanto-vos
que, nestes dias, a impostora que dentro de mim vive agiganta-se e serve-se do
dedo indicador para me apontar as falhas. “Quem és tu para orientar um desafio
se tu falhas? Já pensaste na fraude que és? Ganha noção e faz-te à vida!”. São
coisas deste género que a minha mente me diz tão carinhosamente logo após eu
cair. Infelizmente, durante toda a nossa vida, habituamo-nos a ouvir este tipo
de comentários e somos programadas/os para os aceitar. O problema aqui é que
nos esquecemos de que uma falha não anula dois acertos. Um dia não anula uma
semana; um mês não anula um ano. E precisamente por causa disso é que desenhei
este desafio com base no amor próprio, na consciência e na leveza. Os 10 dias
não são ao acaso. Os 10 dias são a margem que eu tenho para me alinhar no dia
seguinte ao erro, porque mais importante do que é feito ou não é feito, é a
qualidade de tudo isso. No dia em que eu estiver cansada, triste, com dores do
período, ocupada ou simplesmente num dia de merda sem razão aparente,
será mais produtivo não fazer nada do que fazer só porque tem de ser. Este dia
no meio de 10 não vai anular os que já passaram ou os que estão por vir. Pelo
contrário. Só tornam os outros dias o barómetro da qualidade de vida que eu
quero e mereço ter. Por isso é que os dias maus são igualmente necessários como
os dias bons. O que não pode acontecer é deixar que estes dias maus
acompanhados de pensamentos maus se transformem na nossa realidade. Ter
consciência é perceber que nós somos muito mais do que a nossa mente e que o
mínimo que fazemos para nos tornarmos melhores a cada dia é o suficiente. E que
este mínimo, numa escala de 0 a 10, hoje pode ser um 2, amanhã pode ser um 7 e
depois de amanhã pode ser um 10. Quem defini isso somos nós, porque só nós
sabemos o estado da nossa vida de uma forma global. Somos muito mais do que o
que mostramos ao mundo e o foco no interior deve ser sempre e eternamente
superior ao foco no exterior, até porque o segundo é simplesmente um reflexo do
primeiro.
Concluindo, a aquisição de bons hábitos, o alcançar dos
nossos objetivos e uma vida mais consciente é possível para qualquer pessoa, da
mais ocupada à mais livre, da mais ativa à mais sedentária. A utopia é acharmos
que fazer coisas iguais nos vai dar resultados diferentes e é acreditarmos que
escrever resoluções no início do ano é suficiente para evoluirmos. O ser humano
é um ser de progresso, mas é também um ser de hábitos com um cérebro
naturalmente preguiçoso. Ora, ou lutamos contra essa preguiça e progredimos nos
bons hábitos ou mantemo-nos como sempre e progredimos nos maus hábitos. Difícil,
vai ser sempre. Cabe a cada um de nós escolher o difícil que queremos. Para mim
está a ser muito difícil quebrar o hábito de estar nas redes sociais para além
daquilo que considero trabalho ou criar o hábito de acordar e de me deitar
sempre à mesma hora. E vai continuar a ser difícil até este comportamento se
tornar automático, que demora em média 66 dias. Mas como o foco está ao nível
daquilo que eu mereço e não ao nível daquilo que eu quero, e como estou a fazer
este caminho com uma comunidade de mulheres corajosas que todos os dias se
partilham e vulnerabilizam à distância, tudo tem sido mais prazeroso e
produtivo. Nunca será uma questão de tempo, mas sempre uma questão de
prioridade. E neste momento, a minha prioridade número um sou eu. Sejam também a
vossa e vão perceber que o único arrependimento é não terem começado mais cedo.
Obrigada por estarem aí. Bora reagir, bora vencer, bora viver!