Assustada, desassossegada, mas nunca resignada
Hoje acordei com vontade de escrever. Na verdade, ontem já me deitei desta forma quando comecei a ouvir os meus pensamentos e me apercebi que já há algum tempo não lhes prestava atenção. Esta distração é boa, porque me permitiu viver com intensidade os primeiros quinze dias de julho, nos quais passei grande parte do meu tempo sozinha. No entanto, com o aproximar do fim destes dias de viagem, festa e momento presente, comecei a recear a inevitável fase mais depressiva do pós pico de felicidade que, no meu caso, se relaciona diretamente com os meus pensamentos a fugir para o futuro.
Há uns anos era incapaz de passar tempo de qualidade sozinha. Estava tão dependente da aprovação e da companhia dos outros que, quando regressava a casa só ansiava pela chegada do dia seguinte, onde ia estar novamente rodeada de pessoas. Preocupava-me com apenas isto mesmo, com a roda de gente, independentemente da nossa conexão e da conexão comigo mesma. Também nesta altura os meus pensamentos ao futuro pertenciam. Mas a diferença entre este meu passado não muito distante e o momento em que vivo hoje é que, na altura, eu não sabia que a vida a sério estava no agora. E, agora, sei, mesmo que continue a dar ouvidos à vida futura que os outros querem para mim. E o presente? Pergunto-me eu, a mim mesma, sempre que quero descer à consciência da terra. E esta descida é frequentemente confundida com uma dose de irresponsabilidade, com a qual eu até concordo. Sou irresponsável nos riscos que corro e na instabilidade de vida que tenho por sonhar tanto com o momento presente. Não ter um caminho assusta, assusta-me, muito. E eu já penso demasiado sobre isso para ter de lidar com a preocupação de quem me rodeia, ainda que reconheça nela amor, preocupação e zelo.
Contudo, eu não sou mais irresponsável em depender da visão que os outros têm para a minha vida e reconheço que este é o maior risco de todos: vivermos a vida que alguém quer para nós. E digo-o, porque, na altura em que não sabia estar sozinha, pus em jogo anos de vida por correr o risco de cumprir com um padrão, uma norma, uma regra. E talvez por isso agora só me imagine sozinha a cometer as maiores loucuras, a sonhar os maiores sonhos e a correr os maiores riscos. Porque apesar de ser no silêncio da solitude que surge a impostora a tratar-me mal e a desmerecer a vida que tenho, também é nela onde não existem os padrões, as normas e as regras dos outros. Existem apenas as minhas. Quando estou sozinha não dependo dos horários de ninguém, da vontade de ninguém, das habilidades sociais de ninguém. Dependo apenas de mim. E isto não significa que eu não goste de me relacionar com os outros. Significa, apenas, que quando estes relacionamentos acabarem, momentaneamente ou não, eu não vou desesperar pelo dia seguinte para poder sugar a energia, a atenção e a aprovação do outro. Vou antes sentir-me em paz, mais livre e minha, porque saí de um estado bom de conexão com o outro para dar a oportunidade a estar num estado muito bom de conexão comigo mesma.
Quando me perguntam como é que consigo viajar sozinha, ir a concertos sozinha, ir jantar fora sozinha ou ir ao cinema sozinha, é precisamente por causa de tudo isto. Porque é na minha companhia que melhor me descubro, me ouço, me conecto e me amo. Se houve lição que aprendi no tempo que eu dependia dos outros é que é impossível criar-se uma conexão verdadeira quando estamos desconectadas(os) de nós mesmas(os). A explicação é simples: em desconexão comigo nunca vou saber o que gosto, o que quero, o que permito ou o que recuso. E, a natural necessidade de relacionamento do ser humano, vai acabar por me fazer depender de outras pessoas que vão, por sua vez, ditar o que gosto, quero, permito e recuso. É aqui que normalmente desaprendemos a palavra não e começamos a ver (sem perceber) os nossos sins serem cada vez menos valorizados. Nesta fase, das duas, uma: ou continuamos no falso conforto de uma roda de pessoas que nos injetam hormonas de felicidade e satisfação, mas daquelas que se compram em segunda mão na feira mais próxima; ou deixamos cair a dependência, somos chamadas(os) de egoístas e procuramos construir uma roda de conexão, que começa, sempre e inicialmente, com apenas uma pessoa: nós mesmas(os). A partir daí, o diâmetro desta roda pouco importa. Deixamos a matemática de lado e passamos a dar mais valor à forma como as palavras, as mãos e os olhares se conectam em emoções e sentimentos.
Este processo é demorado e quando acontece pode até dar a
volta ao ponto de nos tornarmos viciadas(os) em nós mesmas(os) (não na
perspetiva narcisista). Aqui, surge habitualmente o isolamento e a nossa mente
a enganar-nos, dizendo-nos que somos capazes de lidar com tudo sozinhas(os).
Sinto que é nesta fase que me sinto neste momento. Um amor próprio desmedido e
a roçar o isolamento, por me sentir incompreendida, mas, acima de tudo, por me
sentir assustada. Estou com medo do futuro, antecipo constantemente o vale que
vem depois do pico, quase que me impeço de aproveitar uma fase boa, tudo isto
enquanto simultaneamente me sinto orgulhosa por estar a conseguir viver o momento
presente. Este texto está a ser uma tentativa de organizar a minha cabeça após
ter vivido dias tão bons e estar a mês e meio de embarcar numa das maiores
aventuras da minha vida. Sozinha. E é este hiato, este restante julho e agosto,
e é também que vem depois de setembro, que me assustam. Por um lado, pela
espera e ânsia de uma aventura no outro lado do mundo. Mas, acima de tudo, pelo
regresso absolutamente incerto e indefinido que vou ter de enfrentar em
outubro. Neste momento, a minha consciência está-me a dizer que até lá muita
coisa pode acontecer e que todos esses futuros ainda não aconteceram. O amanhã
ainda não aconteceu. Pede-me para ter calma. E eu tenho. Tenho tido calma e
tenho-me permitido viver e sentir todas as coisas boas que a vida me tem dado. Mas
todas(os) nós sabemos que é impossível estarmos nesta frequência o tempo todo e
precisamente por isso estou a escrever este texto.
Espero daqui a uns meses voltar aqui e sentir-me orgulhosa
por ter conseguido lidar com tudo isto, talvez agora um pouco menos isolada,
porque mesmo que ninguém leia estas linhas, eu sinto que a entidade divina que
nos guia e nos protege, seja ela qual for, está a ler e sabe agora o que sou e
o que sinto. Assim, termino por aqui, com medo e desassossego, mas feliz por
saber que me estou a ser fiel: assustada, desassossegada, mas nunca resignada.
