a notícia da morte na indonésia


chegou-me a notícia de que partiram mais dois colegas de faculdade. digo “mais dois”, porque desde 2012, o meu ano de caloira, que já partiram mais pessoas da fcdef do que os dedos que tenho nas mãos. fico sempre chocada com estas notícias. não só porque há um luto constante na minha faculdade, como também porque são demasiadas caras conhecidas e jovens a ir. são pessoas como eu, como nós, que veem o ciclo da vida ser interrompido demasiado cedo.

fecho-me no meu casulo e ponho tudo em perspetiva. repito para mim mesma que a vida é muito boa, mas também é muito curta, abanando-me para aquilo que todos nós sabemos, mas que insistimos em não aplicar: dizer e fazer tudo aquilo que sentimos, porque o amanhã não existe.

dei por mim aqui, na indonésia, a pensar no conceito de carreira e apercebi-me que não sou motivada por ser muito boa numa só coisa para o resto da vida. pela construção sublime de um cargo ou profissão. entendi que gosto de muitas coisas e que posso ser apenas boa em várias dessas coisas, partilhando-as com o mundo e ser feliz assim.

entendi também que a felicidade não é constante. sermos sempre felizes é utópico e perigoso, porque precisamos dos momentos menos bons para querer dar a volta e regressar ao clímax. e acredito cada vez mais que este clímax se consegue com o ato de sermos boas pessoas. porque as boas pessoas fazem as boas experiências e a junção destas duas coisas fazem os momentos felizes.

pensei muito antes de fazer esta viagem. vir significou esgotar a minha conta bancária e arriscar num recomeço às cegas quando regressar a portugal. e isto assusta-me muito, porque num passado não muito distante vivi muito tempo com o cinto apertado, ainda que simultaneamente em tentativas infinitas de encontrar um caminho. encontrei-o, finalmente. mas sei, pela nossa insatisfação tipicamente humana, que a busca é infinita e que amanhã já não sei de nada.

a dificuldade desta inconformidade está em não torná-la obsessiva ao ponto de ansiarmos o futuro e de nos impedir de viver o presente. porque, ao contrário da busca, a finitude dos nossos dias está escancarada à nossa frente a dizer-nos, a negrito e sublinhado, que o propósito da vida talvez seja única e exclusivamente vivê-la.

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