esqueci-me

esqueci-me. não sei quando nem como, mas esqueci-me. fui-me esquecendo.
os dias são longos, mas os anos são curtos. há muitas 24h difíceis de passar, mas, em comparação, 2020 já foi há 3 anos. o tempo não está a ser amigo para quem tem pressa. talvez porque também o tempo é apressado e isso faz-nos ganhar consciência de que a batalha de ultrapassarmos a velocidade do tempo é impossível de ganhar. ou nos rendemos a isto ou vamos acabar por nos esgotar. e mais tarde acomodar a um estado melancólico e triste da visão da passagem do tempo.

eu esqueci-me. fui-me esquecendo. já não vejo a lua há muito tempo, e mesmo que a veja, esqueço-me de a olhar. já não distingo o som dos passarinhos do som mundano, e mesmo que o distinga, deixei de me deslumbrar. já não me cuido e amo como antes, e mesmo que o faça… esqueçam, não faço.

esqueci-me. fui-me esquecendo. também de escrever. a escrita foi refúgio, solução e resposta. escrever salva. escrever salvou-me. e apesar de sentir que já não sei escrever, escrevo. porque me esqueci, porque me fui esquecendo. de me interessar genuinamente pela vida, de criar e ser alegria, de me entusiasmar por aprender, de cantar e dançar de manhã, de não me queixar, de não lamentar, de mudar o dia de alguém por sorrir.

já não sei quando é que me esqueci, mas escrevo isto aqui hoje para que não me esqueça do dia em que decidi sacrificar a pressa e as ânsias de um tempo fogaz e efémero, pelo semear claro e pacífico de uma colheita que virá no tempo certo.


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