Comer lá fora

A pergunta que se levanta sempre é: vale a pena levar isto tudo lá para cima? Mas é retórica. Toda a gente sabe cá em casa que sim, que vale a pena. E assim pomos a mesa no terraço e almoçamos na companhia das nuvens que parecem marcas de pneu na estrada e linha do horizonte que nos abraça em 360 graus.

O primeiro almoço do ano no terraço foi no domingo passado, o segundo do mês de março. Estávamos só os três. Eles a comer carne de porco à alentejana e a variar entre o saborear da gordura e o sorver das amêijoas; eu a comer um salteado de seitan e cogumelos acompanhado de espinafres e arroz branco. Não como carne há mais de 3 anos e os meus pais nunca foram de se meter nesta minha escolha. Cada um come o que quer, sem julgamentos ou imposição. Nem mesmo quando derrapo nos meus ideais e cedo por vontade própria à pressão de comer carne, porque alguém faz anos e vamos jantar a um restaurante de francesinhas cujas vegetarianas levam pão, tomate e alface. Jamais vou entender o que passa na cabeça de alguém quando considera que o molho espesso e quente da francesinha combina com a frescura e a fragilidade de uma folha de alface. E é tão fácil fazer uma boa francesinha vegetariana, com a consistência, estrutura e suculência de uma francesinha com carne! Mas não vou entrar por aí.

Quando comemos lá fora também há outra questão que se levanta sempre: abre-se o guarda-sol? Normalmente eu digo sempre que não, a menos que estejamos em pleno inferno do verão de Trás-os-Montes. Gosto de aproveitar o sol a bater no prato e no corpo, e de me refrescar com a brisa que corre e que, caso esteja à sombra, me faz sentir frio e torna este momento desconfortável. Já o meu pai diz sempre que não gosta de comer com a cabeça ao sol. Assim, fica sempre responsável pelo posicionamento perfeito do guarda-sol e pelo seu desafiante manuseamento, porque o terraço fica num lugar alto e desguardado, insalubre à estabilidade das estruturas da sombra. Normalmente nunca acabamos o almoço com o guarda-sol aberto. O meu pai aceita que é melhor estar com a cabeça ao sol do que com a cabeça na preocupação de a qualquer momento aquilo virar e causar uma desgraça. Fecha-o, senta-se e diz “tenho de arranjar uma solução melhor para isto”, promessa anteriormente feita e nunca cumprida.

Quando estas questões logísticas ficam resolvidas, damos finalmente atenção aos sons. Por vivermos no cimo de uma vila que ao fim-de-semana tem o movimento de uma aldeia, a única coisa que se ouve são os pássaros, o vento e o bater dos talheres nos nossos pratos. “Não se ouve vivalma”. Esta também é uma frase habitual, por mais que estejamos carecas de saber do sossego do lugar a que chamamos casa. A minha mãe costuma sempre responder: “Ainda bem. Há gente que andava melhor calada do que a falar”. Não podia concordar mais.




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