Porque choramos quando morre uma árvore

Com a chegada da primavera não só as flores nem as andorinhas ganham protagonismo. Aliás, arrisco-me a dizer que as maiores protagonistas deste tempo são as árvores, as únicas que não fogem ao frio e que não murcham quando há falta de sol.

Admiro muito as árvores pela sua capacidade de serem raiz. Literalmente e metaforicamente também. Há um ano foi-me perguntado: “Se fosses parte de uma árvore, qual serias?”. E a minha resposta foi que seria as folhas. Ainda que tenha pensado na raiz, porque é a ligação à terra, à minha terra, que não me faz esquecer de onde vim, selei a minha resposta final nas folhas. Sou demasiado do mundo para assumir o compromisso de ficar eternamente presa a um único lugar. Gosto da sensação de saber onde cair sem saber para onde ir. E talvez por isso eu seja intensa, tal como as viagens que uma folha faz a partir do momento em que se desvincula do seu leito.

Mas agora que penso, tudo depende do contexto em seu redor. Se uma folha pertencer a uma árvore que esteja protegida por muros e muralhas, talvez veja ser traída esta sua expectativa de liberdade. Porque por mais vigoroso que seja o vento, o ser livre pode esgotar-se no chão. Triste a vida destas folhas. E de todos aqueles que são reféns de uma expectativa.

Ao contrário da efemeridade e incerteza da vida das folhas, uma árvore, com ou sem folhas, mas nunca sem raízes, tem uma vida bem mais controlada. Ainda há pouco tempo li uma frase que dizia que a solução para nos sentirmos menos perdidos é ter mais paciência. Ressoou dentro de mim como uma taça tibetana. Isto porque, sendo folha, sou apressada e desassossegada. E por mais que romantize este sentimento, há dias em que gostava de aprender a ser árvore.

As árvores sabem esperar. Mais do que ninguém conhecem o significado de semear e florescer, e pouco se importam com o colher, porque elas não são produto. São processo. As árvores sabem servir. Flores, frutos, companhia e sombra. Daí temermos tanto o deserto, mesmo que não saibamos que este medo vem, no fundo, da nossa dependência das árvores. As árvores sabem ouvir. Fascina-me pensar na quantidade de conversas, beijos e segredos que uma árvore guarda durante a sua vida. E não me assusta imaginar árvores com boca. Tenho a certeza de que não seriam fofoqueiras. Acho que é por isso que as árvores surgem sempre como anciãs sábias e bondosas nas fábulas e nos contos encantados. Precisamente por terem a consciência de que se nos deram mais ouvidos do que boca é porque devemos ouvir mais e falar menos. Mesmo elas não tendo nem uma coisa nem outra.

Vendo bem, as árvores são o amor em ação. Conectam-se, crescem, resistem, persistem, acolhem, respeitam e dão. E talvez por isso choramos quando morre uma tília, uma palmeira, um carvalho, um plátano, um cedro ou uma cerejeira. Não é pelo jardim que ficou desfalcado, nem pelo melro que ficou sem ninho, nem pelos frutos que nunca hão de vir. Choramos porque com a árvore morrem memórias, fragmentos da nossa história, e morre o exemplo daquilo que podíamos ter sido um dia, mas não quisemos.

Afinal, se fosse parte de uma árvore não queria ser parte nenhuma. Escolhia ser a árvore inteira. Talvez assim aprendesse o ir, o ficar, o abanar, o cair, o resistir, o esperar e o desistir, tudo ao mesmo tempo, sem hierarquizar de maior para menor a importância que cada um destes verbos tem.










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