Uma questão de vida e de morte

Li há uns tempos que os únicos dois dias da nossa vida que não têm 24h são os dias do nosso nascimento e da nossa morte. Não sei porquê, mas tenho um fascínio por coisas triviais a que nunca dei atenção. Talvez por isso mesmo, por serem coisas que estão na frente dos meus olhos e que mesmo assim não as consegui ver.

Esta frase fez-me fechar o livro durante uns instantes para pensar. Também tenho um fascínio pela reflexão. Quando estudava Educação Física, havia 3 fases de aprendizagem obrigatórias na pedagogia: a ação, a reflexão na ação e a reflexão sobre a reflexão na ação. É, a mim também me parecia muito confuso. Tão confuso que não me apetece explicar agora o que é refletir sobre a reflexão. Mas se a pedagogia surtiu efeito em mim foi neste vício de retirar uma aprendizagem de tudo.

Para mim é impensável consumir palavras e imagens e não tirar uma lição. Engraçado como o verbo que associamos às drogas é o mesmo que hoje em dia associamos àquilo que fazemos. “Consumir conteúdo”, seja isto ler um livro, ver um filme, ouvir um podcast. Tudo isto se encaixa na nuvem do conteúdo, da qual somos dependentes. Antes isso que depender de cocaína, sempre fica mais barato. Mas não deixa de ser curiosa a ironia desta associação de estarmos sempre a fazer coisas à necessidade de consumo.

Nesta ideia de refletir, desde que li o livro “As Intermitências da Morte” que tenho pensado nela. Na que, segundo o autor, nunca dorme e que talvez por conhecer tudo a nosso respeito seja triste. Na única certeza da vida, no destino de todos nós, e que mesmo assim insistimos em evitar. Não evitar morrer, que isso só o génio de Saramago é capaz de fazer no universo imaginário que criou neste livro. Mas de evitar falar ou pensar sobre ela, tal é o medo de a atrair. Bem, se a lei da atração não funciona para umas coisas, com certeza também não funciona para a morte. Não é por falarmos menos dela que a vamos afastar. E por isso faz-me confusão um português bater na madeira e benzer-se três vezes, porque três é a conta que Deus fez, ao pai, ao filho e ao espírito santo sempre que se fala em morrer e, simultaneamente, o português ser um povo absolutamente fatalista, desde o fado, ao querer saber quem e como morreu (hoje sabe-se pelo Facebook), ao “vai-se andando”.

Suspeito que há de matar mais este encarar derrotista da vida e da passagem do tempo como uma sentença de morte do que falar dela. Felizmente, passei por poucos e leves processos de luto na minha vida, mas isso não me impede de imaginar o dia do meu funeral ou o dia em que pessoas importantes para mim vão desaparecer do mundo físico. Há dias em que, só de pensar nisto, começo a sentir um caroço a criar-se na garganta. Mas cada vez mais entendo que este medo de perder alguém, ainda que legítimo, pode ser profundamente egoísta. Damos por nós a pensar pouco no que a pessoa deixou por fazer e muito no que passamos a ter de fazer sem essa pessoa.

Num mundo onde no dia a seguir ninguém morreu, este medo de sermos surpreendidos pelo fim dissipa-se, assim como se dissipa aquilo que é a vida. Quando a morte passa para plano de fundo, aquele desfocado e que ninguém valoriza, na presença ou na ausência utópica dela, a regra é tornarmos tudo sobre nós. Isto é o que somos e por isso é que somos um perigo: valorizamos mais a nossa vida do que a vida.

Talvez se andássemos mais vezes de mão dada com a morte percebêssemos que é ela que dá sentido à vida, ainda que insistamos em negá-la e anulá-la da nossa vida.

Mais lidos

Intimidade

Estava sem sono e decidi escrever

Um ano de terapia